André Romão: Iron, Flesh, Abstraction

The Green Parrot (Barcelona)

> 17 de Abril, 2015

Vozes diferentes cruzam-se e misturam-se num fluxo verbal contínuo… Como sabem, falar é uma forma de auto-erotismo e, portanto, de prazer, isso era evidente quando se ouvia a Rádio Alice. (…) Vozes sem imagens, vozes que se intensificavam no escuro.

Entrevista a Clemens Gruber, 1977 l’anno in cui il futuro cominciò, Franco Berardi (Bifo) e Veronica Bridi (eds.), Fandango libri, Roma, 2002

A obra de André Romão investiga o posicionamento e o simbolismo em contextos históricos e políticos, ao mesmo tempo que analisa a relevância e o impacto do património histórico da cultura contemporânea ocidental. Ao realçar uma camada subjectiva, essa complexa incorporação do passado no presente abre a possibilidade de uma reformulação performativa da história e de uma interacção entre facto histórico e interpretação individual. Ao fazê-lo, Romão está a expressar a sua crença na história e na cultura visual enquanto palcos políticos, e na sua utilização performativa por parte de membros de um corpo social, político e histórico. O corpo é por isso uma figura-chave na sua prática e é concebido como um instrumento de comportamento individual e colectivo, sendo a sua relevância política mapeada pela justaposição de acontecimentos passados com eventos contemporâneos. Ao investigar sistemas culturais e económicos de produção e interacção e ao explorar o confronto das estruturas macro e micro na sociedade contemporânea, Romão apresenta uma investigação em economia, erotismo, violência e apropriação, cujas referências vão da antiguidade clássica à publicidade contemporânea, da história política ao design pop.

A exposição no The Green Parrot centra-se em torno de duas obras, Ghost sitting on bar stool (2015) uma nova comissão e Dead blink (2014).

Ghost sitting on bar stool pertence a uma série de textos em que Romão se torna o escritor-fantasma de um fantasma, delegando à figura todas as formas de autoria. Na linha das suas aparições anteriores, no Green Parrot, uma sala pouco iluminada é deixada vazia com apenas (elenco dos elementos), apenas com uma cadeira de bar (um duplex, desenhado em Barcelona em 1986 por Javier Mariscal), um microfone com o suporte, alguns cabos, um altifalante e uma faixa pré-gravada, que incorpora a presença de um fantasma que se dirige à audiência. O novo texto cria uma tensão entre as formas materiais e imateriais da corporalidade e o fantasma personifica os sistemas e as abstracções invisíveis que agem sobre os corpos. O texto reivindica o corpo como organismo vivo, combinando-o com uma série de referências a artigos e panfletos publicados em Itália durante o processo Autonomia. O banco inspirado no design italiano pós-moderno é  posicionado numa relação tensa com o texto, tornando-se quase reacionário na sua referência a uma mudança histórica específica. Deste modo, Romão esbate a divisão entre experiências sociais de comunidade e  autoconhecimento
e o tipo de híper-sociabilidade. Não é claro como a destruição de temas sociais e a afirmação do corpo individual foram transformados numa cultura do corpo, com o bar transformando-se num desses espaços vagos onde o desejo era articulado.

Dead blink é uma projecção de 81 slides, de 35mm, da mesma imagem: um olho vazio de uma escultura romana em bronze. A imagem, fotografada no Museo Nacional Romano – Villa Massimo em Roma, mostra um espaço oco e escuro onde esteve em tempos um olho em marfim, há muito desaparecido devido à fragilidade do material orgânico. A apresentação dos slides da imagem está programada numa sucessão que imita a velocidade do piscar do olho humano, criando uma presença diáfana, uma cortina artificial de um objecto inanimado.

Ambas as obras giram em torno da ideia sobre como observar e ser observado e podem ser interpretadas como gestos frugais, funcionando o desejo como uma forma de prospecção do lucro. Sugestões psicológicas clássicas: «Como é que o outro pode ser utilizado para satisfazer o desejo de alguém»? Neste caso, o desejo funciona como um mecanismo fantasmagórico que acciona a mudança. Seja ela erótica, histórica ou económica.

André Romão nasceu em Lisboa, em 1984, cidade onde vive e trabalha.

+ info:

André Romão

The Green Parrot

The Green Parrot é um projecto de Rosa Lleó e João Laia.

Iron, Flesh, Abstraction | solo show by André Romão

The Green Parrot (Barcelona)

From January 16 to April 17, 2015

Different voices crossed and blent in a continuous verbal flow… And as you know, speaking is a form of self-eroticism, and therefore of pleasure, and that was clear as you listened to Radio Alice.

(…) Voices without images, voices that intensified in the dark.

Interview to Clemens Gruber, 1977 l’anno in cui il futuro cominciò , Franco Berardi (Bifo) e Veronica Bridi (eds.), Fandango libri, Roma, 2002

The work of André Romão investigates the positioning and symbolism of the individual within historical and political contexts, while analysing the relevance and impact of the historical heritage from western contemporary culture. By underlining a subjective layering, this complex embedding of the past in the present opens up the possibility of a performative reshaping of history and of an interaction between historical fact and individual interpretation. In doing so, Romão is signalling his belief in history and visual culture as political stages and in their performative use by the members of a social, political and historical body. The body is therefore a key figure in his practice, and is conceived as an instrument for individual and collective conduct, its political relevance mapped by juxtaposing past instances with contemporary events. Scavenging cultural and economical systems of production and interaction and exploring the confrontation of macro and micro structures in contemporary society, Romão presents a research on economics, eroticism, violence, and appropriation whose references range from classical antiquity to contemporary advertising, or from political history to pop design.

The show at The Green Parrot is centered around two works, the newly commissioned Ghost sitting on bar stool (2015) and Dead blink (2014).

Ghost sitting on bar stool belongs to a set of texts in which Romão becomes the ghostwriter for a ghost, delegating all forms of authorship to the figure. Following the line of its previous apparitions, at The Green Parrot a room will be left empty and scarcely lit with only a bar stool (a Duplex, designed in Barcelona in 1986 by Javier Mariscal), a microphone with its stand, some cables, a speaker, and a pre-recorded track that embodies the presence of a ghost addressing the audience. The new text builds on the tension between material and immaterial forms of corporeality, the ghost personifying the systems and invisible abstractions that act upon bodies. The text reclaims the body as a living organism, mixing it with a number of references to articles and pamphlets published in Italy during the Autonomia process. The stool, heavily inspired by Italian post-modern design, is placed in a tense relation with the text, becoming almost reactionary in its referencing to a specific historical shift. In this way, Romão blurs the divide between social experiments of communality and self-knowledge and the hedonistic hyper-social sort of socialization that followed. It is unclear how the destruction of social subjects and the claiming of one’s own body was transformed into body culture; the bar becoming one of these vague places in which desire was articulated.

Dead blink is a 35mm slide projection of 81 colour slides of the same image: an empty eye of a bronze roman sculpture. The image, photographed in Museo Nacional Romano – Villa Massimo in Rome, shows a dark hollow space where an ivory eye once stood, long gone due to the fragility of the organic material. The slideshow of the images is programmed in a succession that mimics the speed of the human eye blinking movement, creating a ghost-like presence, an artificial shutter of an inanimate object.

Both works revolve around the idea of how looking and being looked at may be seen as early economical gestures, desire operating as a form of prospecting profit. Classical psychology proposes: “How can the other be used to satisfy one’s own desire”? In this case, desire works as a ghostly mechanism that activates exchange, may it be erotic, historical or economic.

André Romão was born in Lisbon, Portugal in 1984, where he lives and works.

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André Romão

The Green Parrot

The Green Parrot is a non-profit organisation dedicated to contemporary art practices run by Rosa Lleó and João Laia.

(C) Fotografias por Roberto Ruiz, cortesia de The Green Parrot e André Romão.

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