Dominos Rego e Cecília Costa: Traço Contínuo

29 de Janeiro – 13 de Março, 2015

Galeria João Esteves de Oliveira (Lisboa)

Traço Contínuo

Desenhos de Domingos Rego e Cecília Costa em diálogo

Dando sequência aos trabalhos anteriormente apresentados na Galeria João Esteves de Oliveira, exponho um conjunto de trabalhos recentes que aprofundam e expandem temáticas reveladas anteriormente. São desenhos que suscitam uma reflexão sobre as relações físicas com o espaço construído e com a natureza. O espaço é aqui apresentado como pretexto de relação háptica e holística com o real, como se as casas de Richard Neutra, que estão presentes num dos painéis da exposição, reivindicassem o tacto e a memória para serem percebidas, e os planos de cor que cortam as composições funcionassem como cortinas que se abrem ou se fecham para uma realidade em que a natureza envolve, cruza e faz parte do edificado.

A matéria joga um papel importante na sugestão táctil destes desenhos, adensando-se ou diluindo-se, aplicada com espátulas, ou soprada à maneira das “figuras de sopro” surrealistas, aceitando o acaso e perseguindo seus “acidentes favoráveis”, como Jean Dubuffet gostava de os designar.

As composições abstractas que evocam escadas e elementos arquitectónicos lembram-nos a importância de um deambular atento que envolva todos os sentidos. As escadas não são só a possibilidade de elevação ou descida, são a prova da necessidade de atenção, estruturas arquitectónicas que pontuam a história da arte: das escadas labirínticas de Piranesi, às estruturas impossíveis de Escher, das escadas livres de Beuys e Louise Bourgeois, ao Nu descendo as escadas, de Duchamp. E, num plano mais simbólico, a escada de Dürer, na Melancolia I, ou, na arte do nosso tempo, as escadas nas obras de Anselm Kiefer. E se as escadas evocam essa possibilidade de deslocação entre planos, e uma certa ideia de duração (Bergson), a janela é a estrutura arquetípica da contemplação, a metáfora tantas vezes reinventada do desenho e da pintura.

A natureza adquire uma particular relevância nos desenhos de flores e de frutos, que surgem, muitas vezes, em espaços obscurecidos, fundos negros que sugerem o acto de desenhar no escuro, para, mais uma vez, suscitarem a noção de atenção associada ao desenho.

Traço contínuo representa, pois, o rastro que fica dessa relação especial que estabelecemos com o real através do desenho. Derrida assinalou de forma exemplar, em Memórias de Cego, essa particular forma de nos relacionarmos com o mundo, “uma espécie de sinergia que coordena as possibilidades de ver, de tocar, de mover. E de ouvir e entender porque são já palavras de cego que eu assim desenho.” i

Desde o início, a obra de Cecília Costa tem lidado com os acertos e os enganos do olhar, com as diferenças e pormenores escondidos que exigem ponderação, com os jogos subtis que demandam a participação do espectador. Esses aspectos são reconhecíveis nas fotografias e nas instalações que põem em jogo dispositivos sonoros, visuais e escultóricos.

Formuladas de um outro modo, as questões que referimos colocam-se nos desenhos. Também nesta área, uma reflexão sobre o ver nos é proposta. As linhas adquirem um corpo, surgem como que segregadas pelas representações, estabelecendo itinerários improváveis entre os olhos e as mãos, ganhando a consistência que transforma o olhar em ver, extravasando os limites da composição e depositando-se fora de campo.

A linha adquire várias qualidades: de fio de Ariadne que nos permite regressar a território conhecido, à linha do tecido de Penélope, cuidadosamente urdido durante o dia e desfeito durante a noite, prolongando até ao absurdo um desfecho que não se deseja. A linha é a manifestação plástica essencial do desenho, a fronteira que circunscreve e delimita, o traço que liga o pensamento, a visão e a expressão.

Nos trabalhos em presença, as linhas desenham-se no espaço provocando tensões, lidando com o vazio da página e tornando-o entidade tangível, lugar de encenação dos limites e potencialidades do próprio corpo. A luz branca da página, de tão intensa, devora partes das cenas, mas, e apesar de tudo, as linhas resistem e, por vezes, geram volumes por acumulação, materializando de forma exemplar a ligação que acontece entre o visto, o representado, e o gesto que lhe dá forma.

Domingos Rego | Azeitão, 11 de Janeiro de 2015

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Cecília Costa

Domingos Rego

Galeria João Esteves de Oliveira

Domingos Rego

Castelo Branco, 1965. Vive e trabalha em Azeitão e Lisboa. Licenciado em Artes Plásticas/Pintura (1994) pela FBAUL, concluiu, na mesma faculdade, o Mestrado em Pintura (2006) e o Doutoramento em Belas-Artes/Desenho (2013). Desde 2002 ensina Pintura e Desenho na FBAUL. Expondo regularmente desde 1993, o seu trabalho de desenho e pintura põe em jogo referências da história da arte, aborda o tempo nas artes plásticas e promove uma reflexão sobre a relação do Homem com as forças da natureza. Essas direcções criativas revelaram-se, entre outras, nas seguintes exposições: Banhos de Luz – A Seurat (Galeria Palmira Suso, 1999), Sete Virtudes, Sete Vícios (Casa da Cerca, 2000), Sete Vícios, Sete Virtudes (Galeria Palmira Suso, 2000), Pinturas do Paraíso (Galeria Palmira Suso, 2002), Ócio (Galeria Palmira Suso, 2005), City (Galeria Palmira Suso, 2007), Inclinação Natural (Galeria João Esteves de Oliveira, 2010) e Uma presença silenciosa (Galeria Alecrim 50, 2012).

Cecília Costa

Caldas da Rainha (1971). Vive e trabalha em Lisboa. Estudou Matemática na Universidade de Aveiro e Artes Visuais na ESAD – Escola Superior de Arte e Design – de Caldas da Rainha. Desde a sua participação na 14ª Bienal de Sidney em 2004 participou em várias exposições internacionais. Entre elas: Portugal: Algunas figuras, Instituto Nacional de Belas Artes na Cidade do México; Portugal Today: Nine Solitaire Positions – Galeria MAM – Viena; Young Portuguese artists – Galeria MAM , Salszburgo. Expõe na Galeria Pedro Oliveira, no Porto, e na Galeria Baginski , em Lisboa. A sua obra multifacetada – desenho, sobretudo, mas também fotografia, vídeo e instalação – assenta muito na figura humana, habitualmente de rosto oculto, para explorar conceitos como a percepção, a simetria, a complementaridade, a identidade e a auto-representação.


i Jacques Derrida, Memórias de Cego O auto-retrato e outras ruínas, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2010, pág. 11

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