Gabriela Albergaria: Ser do ritmo anual

> 29 de Março, 2015

Museu da Luz (Mourão)

Natureza / Cultura | João Pinharanda

A operação desenvolvida por Gabriela Albergaria no Museu da Luz (como a generalidade da sua obra) remete para modalidades de expressão exteriores ao mundo da arte e da cultura que depois incorpora nesse mesmo mundo. A artista recorre, na execução das suas obras, a materiais e práticas que, na percepção não especializada dos públicos, se podem relacionar com um universo muito diferente do universo da produção artística – não anterior ou mais significativo, mas paralelo a ele.

A arte representativa, nomeadamente a arte figurativa, recorre abundantemente à Natureza (à paisagem ou aos seus elementos isolados) como meio de expressão de sentimentos ou  valores visuais e plásticos. O que se passa com Gabriela Albergaria é a utilização directa dos próprios  materiais da Natureza (ramos, folhas, raízes, terras diversas, etc.) para falar da Natureza. A artista aborda universos protagonizados por agentes com destinos e interesses muito diferentes dos da arte – porque parecem demasiado próximos dos materiais da natureza ou dos materiais implicados nas técnicas de transformação da natureza: cabos de aço, instrumentos vários, técnicas de plantio e enxertia, etc.. Assim, a artista estabelece modalidades de representação (quer dizer, apresentação da imagem de uma coisa em substituição dessa mesma coisa) muito diversas das que tradicionalmente nos dão a escultura, a pintura, o desenho ou a fotografia. Cada uma das suas obras é uma “tautologia desviada”: cada coisa é o que realmente é (tautologia) mas comporta um grau de desvio (uma intenção de comentário crítico ou de metaforização poética) que a desloca da esfera da Natureza para a esfera da Arte.

Nesta exposição temos dois momentos: algumas amostras de pés de vinha, vistos em vitrina e alguns segmentos de árvores, montados na Sala Branca. No primeiro caso, trata-se de moldes (bronze com pintura) de uma realidade, no segundo, de fragmentos de uma outra realidade. Os moldes reproduzem mimeticamente 11 enxertos de outras tantas castas vitinícolas alentejanas. As árvores (ramos ou troncos segmentados de sobreiros e azinheiras) constroem um espaço cenográfico. No primeiro caso, temos uma “derivação escultórica” que funciona como “simulação documental” (a apresentação em vitrina acentua esse lado) da história da viticultura portuguesa (o enxertio em castas regionais em vinha americana, para salvar a produção nacional, nomeadamente alentejana, depois do ataque da filoxera no final do séc. XIX). No segundo caso, onde cada elemento cumpre um papel de marcação do espaço e de marcação no nosso próprio percurso nesse espaço, temos a criação de uma “paisagem mínima”, funcionando como palco que nos convida a ser actores, funcionando como síntese de uma Natureza naturada, quer dizer, de uma Natureza intervencionada e manipulada, desenhada e controlada pela vontade humana, funcionando como fragmento de um “jardim ideal”.

Ao relacionar-se com matérias consumíveis (vinho, frutos, madeira, cortiça), com  os ritmos das suas realidades  biológicas (nascimento, crescimento, reprodução, morte), bem como com a eficácia económica e de produtividade (selecção, apuramento, especialização), Gabriela Albergaria  assume todos os valores objectivos que importam a uma reflexão crítica sobre a realidade social mas assume também todos os valores metafóricos incorporados nesses materiais e operações colocando-se então no puro campo da Poesia e das tarefas de religação entre diferentes esferas da realidade. Em ambos os casos se trata de usar as estratégias desenvolvidas por algumas técnicas de trabalho agrícola transformando-as em valores de arte. Os exemplos dados confirmam-nos que a separação dos universos  a que pertencem os elementos naturais, os elementos técnicos e os objectos artísticos é falsa. Ao assimilar o resultado formal obtido a peças de arte, Gabriela Albergaria contribui para re-afirmar a Cultura como a Natureza do Homem (segundo uma reflexão de Alberto Carneiro, pioneiro europeu neste campo de intervenção). E alerta-nos também para a necessidade de estarmos  conscientes da realidade dos ritmos de renovação anual da Natureza, da abertura metafórica que eles representam e ainda da ancestralidade das relações entre Homem e Natureza, das técnicas de domínio da Natureza e da metaforização cultural dessa relação. O que foi fundamental para firmar o nosso domínio sobre a Natureza é-o também para garantir a nossa permanência na Natureza, quer dizer, a nossa sobrevivência nela.

João Pinharanda | Lisboa, Setembro de 2014

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Gabriela Albergaria

Museu da Luz

Vera Cortês Art Agency

 

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