Thierry Simões | Merci

> 3 de Janeiro, 2015

Sismógrafo (Porto)

Curadoria de Óscar Faria

“Merci”, de Thierry Simões, é a exposição que encerra o primeiro ano de actividades do Sismógrafo. A mostra nasce de uma observação do artista, uma situação vivida no metro de Lisboa: uma mulher a entrançar o cabelo. A partir desse pasmo inicial, abriu-se um campo de possibilidades: um anúncio, uma publicação, uma instalação. A ideia é convidar a que cada um, cada uma, venha até ao Sismógrafo fazer e desfazer a sua trança, repetindo esse gesto quotidiano, por vezes inconsciente, entre desenhos e outros trabalhos.

Esta é também uma exposição acerca da memória. Thierry Simões esteve presente em algumas iniciativas do Sismógrafo durante 2014. A sua participação trouxe sempre para o centro do debate a questão do fazer colectivo, ou seja, como construir uma comunidade. A esta pergunta, essencial para o trabalho que tentamos edificar através das nossas actividades, o artista respondeu através de dispositivos de encontro – uma lâmpada e um aquecedor em dias de inverno –, um cabide com dois “hoodies” pendurados pelo capuz, as suas publicações.

É no prolongamento desses lugares de encontro que acontece “Merci”. Um agradecimento que é um título e um verdadeiro obrigado, a quem adquirir uma publicação lançada no dia de inauguração da exposição. Essa palavra de cortesia é também do Sismógrafo para Thierry. Este é um dos artistas que nos põe a pensar. Expõe os nossos limites. Esse diálogo mantido há mais de um ano permitiu detectar algumas das condições necessárias para dar continuidade a um processo que tem o desejo de autonomia. E foi através do fazer artístico que se encontraram e se encontram as soluções para os impasses. Esse é o nosso fim.

“Merci” resgata a memória de outras exposições apresentadas no Sismógrafo. Thierry Simões realizou uma espécie de arqueologia nas salas onde antes estiveram outros objectos. Procurou os buracos que foram deixados para trás, visíveis por baixo das camadas de tinta ou deixados a descoberto pelo esquecimento. O artista fez um trabalho de atenção. Um exercício de desenho. Perfurou papéis com o azul do céu ou do mar. E irá inscrever o agradecimento em francês numa publicação. Enquanto tudo isso acontece, é possível que se ouçam os acordes de um concerto de Mozart, o arrulhar dos pombos ou o pipilar das gaivotas, lá fora, nos Poveiros. E há alguém que faz e desfaz uma trança.

+ info:

Sismógrafo

(C) imagens: cortesia do artista e Sismógrafo.

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