O pouco ou muito a diferença é pouca

> 21 de Dezembro, 2014

Módulo – Centro Difusor de Arte

“O pouco ou muito a diferença é pouca” com a curadoria de João Silvério, inicia um ciclo de exposições coletivas ou individuais da responsabilidade curatorial de diferentes agentes (curadores, coleccionadores e galeristas) convidados pelo Módulo e que decorrerão durante o ano 2015/2016. O convite dirigido a João Silvério justifica-se por duas razões, o reconhecido trabalho curatorial que tem vindo a desenvolver, mas também ter sido aqui no Módulo que ele começou a atividade profissional na área das artes plásticas.

Esta exposição, intitulada “O pouco ou muito a diferença é pouca”, tem como ponto de partida um convite do director do Modulo para trabalhar no espaço da galeria convidando artistas independentemente destes colaborarem ou não com o Modulo. Os artistas Pollyanna Freire e o Carlos Alberto Correia pertencem à sua programação regular, e a Catarina Dias e o Nuno Sousa Vieira expõem pela primeira vez no Modulo, específicamente para esta exposição.

A escolha teve em atenção o desenvolvimento das suas investigações, os processos e metodologias que as suas obras presentificam no espaço e na diversa, e por vezes contraditória, abordagem de temas e questões que estas enunciam. Porém, esta aparente evidência está tão presente no trabalho que cada um tem vindo a desenvolver como no diálogo corporalizado no espaço imediato da galeria, em que a exposição, enquanto dispositivo visual e mostrativo, vai reconverter e desenvolver no olhar do espectador outras perspectivas sobre a diferenciação dos materiais e as referências que estes transportam consigo, transformando a galeria sem contudo alterar a sua arquitectura original. O que se altera, diria até que se transforma de uma forma ambígua, é a nossa relação com o objecto escultórico no espaço, na performatividade que cada um vai encontrar como apelo à consciência dos seus mecanismos perceptivos. A escala e a proporção das obras não são alheias a este jogo de relações, mas essas são tensões que o corpo vai colhendo no seu trânsito pelo espaço. Outras instâncias mais subjectivas revelam-se imbuídas de referências e memórias, por vezes ficcionais e portadoras de diversos sedimentos do imaginário colectivo. O título da exposição, “O pouco ou muito a diferença é pouca”, é um verso de um poema de Jorge de Sena [1] que permite ler, sob uma aura política que a época exigia, subtis relações de diferença que na sua forma poética nos deixam perante questões que encontram uma correspondência no espaço partilhado pelos artistas. Estas relações de diferença estão também próximas de uma ideia de repetição e de série, sem contudo condicionarem as obras.

As esculturas de Pollyanna Freire, todas elas sem título, parecem obedecer a essa métrica, que se desenvolve sobre a parede como desenhos que se libertam da sua natureza bidimensional e assumem o espaço do espectador. São esculturas em metal, aparentemente próximas de uma herança minimal e de processos de produção industrial que podem levar-nos a pensar numa serialidade formal. Porém, as esculturas são executadas manualmente e pintadas pela mão da artista, contrapondo-se assim a essa tradição histórica minimalista. Cada escultura é única e distinta de cada uma das outras, afastando-se de um processo de edição e de múltiplo. O seu revestimento cromático assinala esta característica singular pelo facto de que cada gesto que faz assentar a tinta é uma acção irrepetível. A tinta não esconde as soldaduras, ou ligações, dos elementos que constituem cada obra, mas são o primeiro sinal da sua condição original e não reprodutível; no entanto, a dúvida, como jogo visual, pode persistir ao observarmos a gama de cores lisas que encontra uma clara correspondência na paleta dos desenhos expostos na entrada da galeria. As esculturas, quando instaladas, vão-se transformando e presentificando consoante a distância do olhar, e o ponto de observação que descobre sombras, luz, e tonalidades diferentes na corporalidade estrutural destas abstracções geométricas, quase como linhas no espaço que vão revelando tensões e conexões como se todas elas formassem um corpo mas onde cada uma é a parte sem a qual a parede escultórica, enquanto lugar da obra, não faria sentido.

A ideia de série, e de repetição, está também presente na obra de Nuno Sousa Vieira intitulada “Para não ficarmos sujeitos a um exterior qualquer”, uma escultura de parede, com uma escala considerável, composta por um conjunto de portadas provenientes do seu atelier, que tem servido de matéria escultórica, condutor e transformador de memórias de uma pré-existência que vai lidando com o exterior e o interior, bem como com o carácter privado e auto-referencial que se espelha na obra sob a construção fragmentária da transição para o lado público dessas memórias, presentificado nesta obra orgânica, constituída por elementos semelhantes, as portadas, mas que não ficam reféns de uma qualquer padronização. A ideia de serialidade é aqui um modelo de pensamento que afecta a nossa presença no espaço e na relação com a passagem, o olhar, entre este e outros espaços. Como na obra “Visite-nos”, de 2012, uma maqueta de uma escultura, um muro de tijolo pintado em dois tons de verde, que nunca chegou a ser construída para a exposição que realizou no Pavilhão Branco, em Lisboa, em 2011, e remete para o paradoxo que a frase do título evoca mas a obra desconstrói, independentemente do interior que se dá a ver ao outro.

As transições entre espaços, a ideia de série, de módulo, de relação entre semelhantes, que não se esgota na questão formal, encontra outras propostas diferenciadas nas obras de Catarina Dias e Carlos Alberto Correia. Catarina Dias expõe duas obras que agem directamente sobre o espaço, entre a obstrução e a reconfiguração deste. A escala, a cor e os materiais vão determinar uma ambígua e aparente presença rígida. As obras Sem título (Grey area), suspensas entre o chão e o travejamento do tecto da galeria, são constituídas por um padrão quase invisível de partes de camisolas de lã. Cada pano é feito a partir dos troncos de camisolas (são dois quadrados, exactamente como são fabricados) das fardas de agentes de segurança e bombeiros, fardamentos paramilitares que evocam a ordem e a defesa do bem público e simultaneamente uma dualidade subversiva e trágica. A cor que irrompe do negro surge aqui como um elemento gráfico, oscilando entre o pictórico e uma sinalética estranha e abstracta que desconstrói esses símbolos da ordem e da organização social. Mas cada elemento cosido agrega também a memória da massa corporal de outros, das suas acções e movimentos, mas também de resguardo e protecção. Estas esculturas denunciam essa organicidade quando suspensas, como biombos não figurativos que inscrevem a sua presença flutuante e agem sobre o espectador numa tensão entre a abstracção e a presentificação modular de outras narrativas que ecoam por entre as linhas que dão corpo às esculturas.

Esta dimensão narrativa que inscreve a alteridade, o tempo e o indício encontra na obra de Carlos Alberto Correia uma expressão visual e sonora que nos confronta com o imaginário enquanto registo transitório e perecível de algo magnífico, sublime e partilhado entre anónimos. “14 Thoughts on Niagara Falls”, de 2014, envia-nos de imediato para a majestade que a natureza pode traduzir em nós, mesmo através de documentos diferidos, imprecisos e despojados de referências indicativas da sua presença perante uma realidade sublime. A imagem que o diapositivo nos mostra é de facto diferida no tempo, mas é também um contentor dessa condição caduca e da inexorável vulnerabilidade a que somos sujeitos, porque a imagem já perdeu a fidelidade que a fotografia como documento exige. Por outro lado, a imagem projectada tem uma dimensão próxima de um qualquer postal que vulgarmente reconhecemos num escaparate turístico e corresponde-se com os registos sonoros, captados na Internet, de conversas tidas no local e comentários feitos a posteriori por gente anónima. Tudo aqui é já uma memória imprecisa que a qualidade do som e da imagem atraiçoa, deixando-nos entregues à rememoração mundana dessas cataratas refulgentes de maravilha que a contradição do formato e a utilização de matrizes genéricas potencia como ficção, mas sem as deixar ausentes da nossa memória imprecisa.

Regressando ao verso de Jorge de Sena, “O pouco ou muito a diferença é pouca”, resta-nos determinar na nossa posição o nosso modo de ver e interpretar a geografia imaginária desta sala.

João Silvério | Novembro 2014


 + info:

Módulo Centro Difusor de Arte


(C) Texto, cortesia de João Silvério. Fotografias da exposição: Making Art Happen e João Silvério (da peça de Catarina Dias).


[1]  “O pouco ou muito a diferença é pouca” é um verso retirado de um poema de Jorge de Sena intitulado “O Pouco ou Muito…” escrito em 28.05.1966 e publicado no livro A Visão Perpétua com edição de Mécia de Sena e editado pelas Edições 70, em 1989.

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