Lucia Laguna: Outras Paisagens

> 6 de Dezembro, 2014

Cristina Guerra Contemporary Art (Lisboa)

Sob o título “Outras Paisagens”, Lucia Laguna (Brasil, 1941) apresenta a sua primeira exposição na Cristina Guerra Contemporary Art, em Lisboa.

A pintura é o centro da sua produção artística, a que se dedica exclusivamente, empenhando todas as suas energias de uma forma quase compulsiva, e cujo âmbito abrange também a observação e o estudo de pintores clássicos e contemporâneos que lhe despertam particular interesse. Tais autores, contudo, não convocam, no processo de trabalho da artista, uma necessidade de se estabelecerem como referência estilística visível. De certa forma, é como se fossem uma outra parte do seu universo estético e pictórico, no sentido de uma linhagem de pintores que Lucia Laguna integra e a que dá atenção e consequente continuidade.

O título da exposição, “Outras Paisagens”, remete para um campo de possibilidades sobre um género da pintura que, tendo filiação clássica, encontra na obra de Lucia Laguna uma deriva da categorização canónica em que se inscreve. A artista tem um posicionamento inicialmente intuitivo sobre o modelo, os objectos ou as vistas que toma como ponto de partida para iniciar o seu trabalho sobre a tela. Contudo, o seu processo é mais complexo, no sentido em que as pinturas são iniciadas pelos seus assistentes, que introduzem motivos e imagens pintadas, como uma geografia pré-existente, sobre a qual a pintora vai desenvolver a obra. Ao que é dado a ver, seja através da janela do seu estúdio, no interior do seu atelier, ou nas primeiras camadas de tinta que contém representações iniciáticas, a artista reage através de um procedimento analítico, isolando com fita crepe áreas de cor ou elementos estruturais que podem permanecer resguardados até que num determinado momento decida revelar esses acontecimentos pictóricos anteriores, para assim se confrontar com novas relações que ocorrem no interior da tela. Este processo pode repetir-se sempre que a artista necessita de compreender no espaço do suporte os vários estádios da estrutura da composição, que pode, aparentemente, parecer caótica sob o olhar fugaz de uma observação menos atenta por parte do espectador.

O tempo é uma categoria essencial dos seus procedimentos, sob a qual assenta o acto de pintar, porque a sua  pintura é um processo cumulativo de sedimentos que uma constante acção arqueológica vai revelando, dissecando, recuperando e sobrepondo. Esta metodologia aleatória, porque não obedece a um programa pré-estabelecido, encontra uma correspondência na escolha dos elementos que representa, em muitos casos fragmentados, e que estão associados à sua experiência do lugar, da cidade que conhece bem (Rio de Janeiro), da sua localização nesta, e de uma consciência política de que essa cidade é um espaço em que se cruzam e acumulam modos de vida muito diferenciados e desnivelados.

Os títulos das pinturas constituem-se em três núcleos, intitulados “Estúdio”, “Jardim” e “Paisagem”, revelando uma tendência serial que organiza a forma como a pintora constrói o seu olhar sobre o espaço que habita. A cidade entra pelo seu atelier e este descobre-se como parte da cidade que se transforma todos os dias, revelando distinções arquitectónicas, sociais, vegetais (na explosão da intensidade e cor tropical) ou formais, que se traduzem em diferentes camadas da pintura, a qual não cede ao virtuosismo de representar fielmente o objecto que lhe interessa. No seu modo de fazer, Lucia Laguna investe a sua atenção na pluralidade dos elementos que circulam à sua volta a uma velocidade voraz e que a composição vai acumulando e simultaneamente seleccionando. Estamos perante uma tipologia de pintura que expressa uma pulsão orgânica (e experimental), como um corpo em permanente transformação onde encontramos a diferença em relação ao Outro, que se encontra tão próximo quanto distante na escala informe da grande metrópole.

Estas diferenças são visíveis, quase tácteis, nas imagens que as pinturas contém, pela forma como a tinta é aplicada, entre a textura, o escorrimento, as transparências veladas e as áreas de cor, por vezes muito finas como uma linha estrutural, ou uma folha de uma planta que irrompe sobre a paisagem urbana, transformando as designações de cidade, construção, natureza, jardim, ou o interior do seu estúdio, em relações formais e cromáticas intensas que, aí sim, resguardam o seu olhar sobre a multiplicidade urbana onde todas as formas de convivência humana se cruzam e nos confrontam na maravilha da pintura, que é num mesmo momento esplendor e um contentor de memórias e de reinscrições.

João Silvério


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Cristina Guerra Contemporary Art


Lucia Laguna nasceu em Campo dos Goytacazes, Rio de Janeiro, em 1941. Formou-se em Letras em 1971, passando a lecionar Língua Portuguesa. Em meados dos anos 90, frequentou cursos de pintura e história da arte na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro. Realizou a sua primeira individual em 1998. Participou com uma sala na XXX Bienal de São Paulo em 2012, no Panorama de Arte Brasileira, MAM-SP em 2011, no Programa Rumos Artes Visuais, em 2005/2006. Em 2006 ganhou o prémio CNI SESI Marcantônio Vilaça. A sua obra integra a coleção do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Museu Nacional de Arte Moderna de São Paulo, Museu Nacional de Brasília, entre outros.

A sua obra retrata a paisagem urbana do Rio de Janeiro, apresentada de maneira velada, quase abstrata. Há uma justaposição de formas, linhas e campos de cor que saem ou se sobrepõem a elementos mais figurativos muitas vezes causando a impressão de um espelho partido. É uma pintura elegante, de gestos decididos e calculados, com grande densidade pictórica. Laguna desenvolveu uma técnica de trabalho única, na qual telas produzidas pelos seus assistentes em tinta acrílica, seguindo as diretrizes apontadas pela artista, são consumidas ou desconstruídas com tinta a óleo. São composições nas quais o processo da pintura parece nunca terminar e a imagem permanece viva diante dos nossos olhos.

(C) Texto e imagens: Cortesia de Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa, 2014.

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