Catarina Botelho: Zona de Ordenação Aberta

Sala das Janelas – Teatro da Politécnica (Lisboa)

> 13 Dezembro, 2014

Inserido no Festival Temps d’Images 2014

A cidade é ordenada, rica, limpa, demasiado limpa, não é nem bonita nem feia. Caminho na tentativa de pertencer às ruas e que as ruas me pertençam. Ando longe das zonas turísticas e do centro histórico. O sol quente bate-me nas costas. Ao subir uma colina, encontro um bairro feito de blocos de habitação, uma combinação de edifícios para a classe média e habitação social, construídos nas últimas décadas. O espaço público é constituído por pátios, parques, campos de jogos e caminhos pedonais. Observo as pessoas a jogarem, conversarem, fazerem compras, de um lado para o outro nas suas rotinas diárias. É um bairro apropriado e vivido pelos seus habitantes. Continuo a andar. Encontro esquinas coloridas, monocromáticas ou de duas cores, que me parecem zonas de respiração. Invadem-me e ao mesmo tempo tenho vontade de as engolir. Esquinas, cantos, cruzamentos – lugares de encontro, visões privilegiadas no tecido urbano. Implantadas em zonas pedonais, a ideia de dentro e fora confunde-se.

Alguém me disse que as esquinas de edifícios sempre lhe tinham parecido proas de barcos.

Catarina Botelho

Zona de ordenação Aberta

“O mais elevado seria: compreender que todo o fáctico é já teoria. O azul do céu revela-nos a lei fundamental da cromática. Que não se procure atrás dos fenómenos: eles próprios são já a teoria.” Goethe, Máximas e Reflexões, 488

Desde muito cedo que os fotógrafos viram na cidade um motivo de interesse. Não enquanto local bizarro ou exótico que devesse ser registado, mas sobretudo como lugar gerador de imagens contemplativas e repletas de sentidos que extrapolam a sua existência funcional e social. Numa fotografia a cidade é, sobretudo, um lugar contemplativo e revelador dos modos humanos de habitar o mundo. Mas esta relação entre fotografia, arquitectura e cidade é complexa e não se deixa aprisionar e esgotar em nenhum sentido mais imediato. A sua afinidade é profunda e não instrumental, porque a fotografia não é só um meio de representar a arquitectura mas, sobretudo, um modo de pensar o espaço, os objectos e, sobretudo, um modo de organizar a visualidade do mundo.

Catarina Botelho não tem na arquitectura um motivo exclusivo de trabalho, mas a arquitectura serve-lhe como lugar de deambulação e terreno das descobertas visuais que as suas imagens tendem a protagonizar. Não lhe interessa a descrição ou representação de uma qualquer forma espacial ou autoral, nem a maneira como certas organizações espaciais e cromáticas sugerem tensões escultóricas, nem tão pouco está empenhada na caracterização de uma geografia exterior. Não que estas tensões estejam ausentes, mas elas são secundárias relativamente a um olhar que pretende ver nas coisas o seu espírito, ou seja, ver nas coisas a sua origem. E isto não é um olhar para a história, mas um olhar para a configuração de uma coisa tentando perceber o que faz ser como é: a sua tecedura.

Estas imagens podem servir (e são muitos os usos a que as imagens se prestam) de crítica ao anonimato do trabalho operário e à ausência dos construtores das cidades nas vivências dos espaços construídos: sabemos quem projecta os prédios, quem os habita, mas os artífices (pedreiros, pintores, operários) tornam-se transparentes e ausentes. É indiscutível que os nossos edifícios surgem numa espécie de anonimato e, pensamos nós, só ganham vida quando são habitados. E em todos os nossos discursos e fantasmagorias urbanas esquecemos aqueles que com as mãos ergueram esses lugares e que essa acção artesanal de construção já é vida, já é habitação, já é ocupação, já é espírito, ou seja, a construção de um prédio implica uma relação sensível com matéria que importa resgatar à invisibilidade.

Nesta nova série de trabalhos de Catarina Botelho esta tensão — que não é um tema enunciado pela artista — surge através de um olhar cuidado para as paredes exteriores dos prédios anónimos de um bairro social espanhol. Essas paredes, na sua maioria, não possuem marcas dos seus habitantes: elas delimitam e possibilitam o espaço interior, configuram a privacidade, mas não possuem inscrições que permitam inferir a sua vivência individual. Apesar desta ausência estas imagens surgem como lugares de inscrição da subjectividade, isto é, lugares onde podemos perceber a presença humana individual. E essa possibilidade é conferida pelas imperfeições visíveis nas paredes e que, em rigor, não são imperfeições, mas marcas necessárias do trabalho manual humano, marcas que impossibilitam o anonimato da acção do trabalho manual. Esta recuperação de uma superfície anónima para o campo do trabalho artístico é ainda mais interessante se pensarmos no modo como a artista provoca uma metamorfose da condição do anonimato em autoria ou , se se preferir, em assinatura.

Estes aspectos não são teses que Catarina Botelho tenta desenvolver ou debater, mas da sua metodologia de deambulação — andar com a câmara na mão e ver como é que os lugares por onde passa se resolvem em imagens — resultam olhares críticos sobre o espaço e os objectos que o tecem e ocupam. Não é um trabalho de espaços fechados, nem de construções mentais, mas coisas que acontecem numa espécie de intensificação da relação da artista com o mundo. Uma relação poética construída a partir da atenção ao detalhe em que não são as ideias organizadoras e legisladoras que comandam o olhar, mas os fenómenos, isto é, aquilo que acontece.

É importante sublinhar que estas imagens conquistam a sua intensidade não a partir de um qualquer sentido de ordem, perfeição ou realização plástica, mas a partir de uma espécie de estética da imperfeição que marca a sua origem terrena — ter sido feito por mão humana — e o seu destino: ser consumido pelo tempo. Podemos pensar que faz parte da estratégia plástica de Catarina Botelho devolver uma ordem fáctica às imagens fotográficas, isto é, mostrar a fotografia como acontecimento sensível, autónomo e auto-referencial.

Nuno Crespo

+ info:

Catarina Botelho

Festival Temps d’Images 2014 (Catarina Botelho)

A exposição está patente na Sala das Janelas – Teatro da Politécnica
Rua da Escola Politécnica, 56, Lisboa
Terça a Sexta: das 17h até ao final do espectáculo
Sábado: das 15h até ao final do espectáculo
Entrada Livre

(C) Textos de Catarina Botelho e Nuno Crespo. © Imagens: cortesia da artistas. Todos os Direitos Reservados.

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