Ricardo Jacinto: Segmentos

> 6 de Dezembro 2014

Appleton Square (Lisboa)

Inauguração: 13 Novembro (22h) + Concerto | Instalação para violoncelo, objetos e eletrónica (22h30m)


Medusa: Violoncelo Explodido de Ricardo Jacinto: uma janela aural sobre os mecanismos da música.

A performance de Ricardo Jacinto (Medusa: Violoncelo Explodido) é uma manifestação explícita de uma verdade habitualmente silenciosa sobre a relação entre um intérprete, um instrumento musical e um ambiente de execução – de que as fronteiras entre estas entidades aparentemente distintas são, de facto, mutáveis. Diz-se que Jascha Heifetz, o lendário violinista, em resposta ao comentário de um fã de que o seu Stradivarius tinha um som maravilhoso, encostou o ouvido ao violino e respondeu “mas não ouço nada!” Esta pode ser apenas uma historieta que se conta, mas ilustra bem que é da interação precisa entre o intérprete e o instrumento – da intensidade do toque pessoal e da resposta à resistência e às potencialidades do sistema físico que é o instrumento – que se torna possível a emergência de um som plausível, convincente e belo, em boa verdade, a emergência de qualquer som. Além disso, o contexto no qual ocorre esta recusa íntima de fronteiras, tanto sociais como acústicas, adiciona mais uma camada complexa de interações ao conjunto: o ambiente no qual algo acontece contribui significativamente para o som que é produzido, a forma como este se projeta no espaço, e isto, por sua vez, devolve um feedback sensorial ao intérprete informando-o a cada momento nas suas decisões.

Ricardo Jacinto expõe esta verdade “escondida” por meio da amplificação, do exagero e da projeção. Transdutores colocados no interior do violoncelo revelam o som característico de pontos precisos no interior da estrutura física do instrumento, distribuindo estes sinais subtilmente diferentes em pontos externos precisos localizados no espaço arquitetónico da performance – exteriorizando e exagerando a separação espacial da estrutura interna secreta do violoncelo. Os pontos no interior do violoncelo que Jacinto decidiu “explodir” para o interior do espaço são cuidadosamente escolhidos em função das versões, subtilmente distintas, do som do violoncelo. Enquanto intérprete e improvisador, Jacinto conhece e chama a nossa atenção para o som das cordas que tocam no espelho de ébano, o sentimento de tensão aumentada e a “nasalidade” em torno do cavalete, o som mais suave e refletido no interior dos Cs do corpo do instrumento. Ao inscrever cada gesto feito sobre o violoncelo de forma ampliada na sala, os sons são mapeados através do espaço da performance e as suas diferenças destacadas, de modo subtil, frequentemente por tratamentos digitais, submergindo a audiência num novo e “virtual” corpo do instrumento.

Ricardo Jacinto não se limita a “virar o seu instrumento do avesso”, expondo os mais ínfimos detalhes da sua técnica. Enquanto arquiteto experiente, detém igualmente uma consciência aguda do potencial geométrico e dramático do espaço no qual atua, podendo inclusivamente dizer-se que, num sentido literal, “toca (n)o espaço”. Este é um facto significante para a sua audiência, dado que todas as nossas experiências interpessoais são informadas pela negociação da distância. O antropólogo Edward Hall introduziu (na década de 1960) a noção de “proxémica” – num mapeamento dos códigos de conduta tácitos que determinam se as nossas interações conotam uma relação íntima, local, social ou ambiental (com pessoas, sons, ou objetos). A manipulação que Ricardo Jacinto opera sobre estas várias distâncias amplia a nossa perceção da relação entre a tatilidade e a audição.

Em consequência, a performance levanta questões sobre a territorialidade, sobre o espaço público e o espaço privado. Ao expor de forma tão implacável a relação entre um corpo e um instrumento, e ao incorporar os corpos do público no resultado, Ricardo Jacinto questiona os limites do seu corpo. Evidentemente, estes limites são transcendidos aqui através da tecnologia, mas, pergunta-nos o artista, não é isto que a música sempre faz? Não existirá sempre uma transdução entre o meu corpo, enquanto executante, e o vosso – enquanto audiência, que é a própria condição da música? As impressões dos meus dedos, empurrando esta corda esticada, neste ponto específico e desta forma particular, ressoam em simpatia no interior do vosso sistema nervoso autónomo. E, à medida que me movo na direção do registo alto, por sobre a corda, uma parte da dificuldade de o fazer, da sensação de que estamos perante um sistema físico e acústico que se aproxima dos limites da sua viabilidade, transgride as fronteiras físicas entre os indivíduos, suspendendo-as temporariamente – tocando-vos a uma variedade de distâncias – que são, por vezes, íntimas, outras menos íntimas.

Esta permeabilidade das fronteiras entre os indivíduos ecoa a permeabilidade, referida inicialmente, entre o intérprete, o instrumento e o ambiente. A permeabilidade, que é a condição da música, é também a condição do ser-se humano. Ao criarem música, os seres humanos encontram um instrumento para o reconhecimento não apropriativo da alteridade – a suspensão das fronteiras do eu. As qualidades de empatia e curiosidade que nos tornam humanos são reforçadas. Assim, não causa surpresa que o “violoncelo explodido” adquira uma outra vida, afastada da sua orientação site-specific, na música de câmara de improviso, na qual grupos de músicos negoceiam e renegoceiam as fronteiras e as individualidades numa base instantânea.

Neste caso, porém, a performance precede e alimenta uma instalação que perdura por mais ou menos um mês depois do evento inicial. Os gestos físicos da performance inicial ao vivo são captados e beneficiam de uma “segunda vida” – ocupando o espaço arquitetónico para lá da presença do intérprete e ampliando o material musical num espaço temporal diferente. Talvez a densidade dos eventos musicais se desvaneça e a textura se torne cada vez mais esparsa à medida que a instalação opera para além do evento da performance ao vivo, num eco consciente da decomposição gradual de todos os sons com o tempo… Mas com um sistema digital investido com alguns aspetos de uma vida própria, quem sabe qual será o resultado? Existe uma qualidade de emergência nisto tudo, mais do que de desígnio, que trai o estatuto de Ricardo Jacinto enquanto improvisador e designer!

Simon Waters


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Ricardo Jacinto

Segmentos é um projecto Francisco Fino Art Projects em colaboração com Appleton Square e apoio de Vera Cortês Art Agency.


Ricardo Jacinto

(Lisboa 1975) Vive e trabalha em Lisboa e Belfast. Artista sonoro e músico concentra-se, principalmente, na relação entre som e espaço. Desde 1998, tem apresentado o seu trabalho em exposições, concertos e performances, em Portugal e no estrangeiro, e tem colaborado extensivamente com outros músicos, arquitetos e artistas. Apresentou o seu trabalho em diversas exposições individuais e coletivas como: Projet Room CCB, Lisboa, Círculo de Belas Artes em Madrid, MUDAM, Luxemburgo, Centro Cultural Gulbenkian, Paris , Manifesta 08, European Bienal de Arte Contemporânea de Itália, Loraine Frac- Metz, OK CENTRE, Linz, Austria, CHIADO 8 Culturgest, Lisboa, Casa da Música, Porto e Bienal de Arquitetura de Veneza de 2006. Como músico-performer actuou em diversos locais como: Fundação de Serralves, Porto, Palais de Tokyo, Paris, SARC, Belfast, Festival VERBO, São Paulo, Festival Temps d’ Images, Lisboa, Festival Rescaldo, Lisboa, Festival BigBang CCB Lisboa, Culturgest, Porto e Lisboa, ZDB, Lisboa, Dança Base, Edimbrugh, Kabinett 0047, Oslo e Fundação Calouste Gulbenkian, Paris.

Simon Waters

Simon Waters é improvisador, compositor, curador e académico. Depois de ter sido, durante quase vinte anos, diretor dos estúdios de música eletroacústica da universidade de East Anglia, onde foi o curador da série Sonic Arts, juntou-se recentemente à equipa do Sonic Arts Research Centre da Queen’s University em Belfast. A obra de Simon evoluiu a partir da composição acusmática em estúdio (na década de 1980) até a uma posição que reflete o seu sentido de que a música está, acima de tudo, relacionada com a ação humana, e só apenas secundariamente com o facto acústico. A sua investigação incide sobre a relação entre a música e outras atividades, as contiguidades que existem entre a interpretação e a composição/ improvisação, a “construção de instrumentos”, e a forma como o pensamento musical e a sua prática operam em contextos altamente tecnológicos. Tem colaborado com inúmeras companhias de dança contemporânea e teatro físico, bem como com artistas plásticos, e as suas obras têm sido amplamente apre- sentadas e difundidas no Reino Unido, na Europa e nos EUA. Atualmente é diretor artístico do Festival Sonorities.


(C) Imagens: cortesia do artista e Francisco Fino Art Projects. Fotografia © Francisco Nogueira.

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