Gonçalo Barreiros | nosey parker

> 15 Novembro, 2014

Vera Cortês Art Agency (Lisboa)

Na obra de Gonçalo Barreiros ocorre sistematicamente um confronto entre a familiariedade e a estranheza. Entre o que é verosímil e o que se assemelha a algo que reconhecemos contextualmente mas que nos é dado como uma disrupção de sentido. Formas abstractas, linhas, objectos reconhecíveis ou subtis transformações das condições do espaço (que resguardam a sua função inicial) aparecem-nos como um sistema processual em que a linguagem visual se defronta com a linguagem escrita e o seu valor semântico. Em algumas obras o título não corresponde a um nome, ou a uma palavra cujo significado associamos de imediato a um objecto, ou a uma determinada função inscrita no passado desse objecto que é agora um outro, mas que regressa até nós como se o seu contexto fosse o objecto do processo artístico de Gonçalo Barreiros.

De outro ponto de vista, esse título é um elo de uma cadeia de ligações que o artista vai estabelecendo, construindo, agregando e sobrepondo como se se tratasse de um elemento escultórico. A palavra, o som enquanto sedimento fonético, como a onomatopeia, são materiais dúcteis que o artista trabalha para revelar a descontextualização do espaço e simultaneamente criam uma requalificação das matrizes que regulam o nosso conhecimento do mundo.

Num projecto que realizei com Gonçalo Barreiros, em 2013, para o EMPTY CUBE1, escrevi a dado passo estas linhas que me atrevo aqui a citar:

o título deste projecto. O nº17 poderia, eventualmente, ser associado a uma referência toponímica, uma evocação de um lugar que reencontrasse a sua reinterpretação nesta intervenção. Ao invés, trata-se da medida do degrau (medida padrão) que constitui a alteração materializada na arquitectura do cubo. Forma poética e disruptiva de traduzir na linguagem escrita um contexto e um lugar de passagem.

O lugar de passagem é (quase) sempre pautado pelo plano horizontal. De uma forma mais clara, a relação da sua obra com o chão não é irrelevante, contudo esta é uma estrutura que se ergue sobre a nossa condição de observadores. Gonçalo Barreiros é um escultor, numa formulação mais canónica, que seguindo uma longa tradição refere no seu acto de fazer a manipulação dos materiais numa relação com o plano horizontal que se opõe, e se ajusta, à observação do espectador. Mesmo assim, esta “formulação” encontra uma invisível insuficiência que a justifique, porque as esculturas traduzem um universo de preocupações que ultrapassam a necessidade de regular a forma como instância única da referência ao solo que pisamos, numa correspondência entre a escala e a proporção das esculturas com o nosso corpo.

Neste aspecto, quando reconhecemos um boneco de neve na escultura intitulada “Um Boneco de Neve não pertence a ninguém”, estamos a religar o nosso imaginário individual e colectivo. E de facto não pertence, porque é pertença, isso sim, de um acto colectivo e que geralmente se situa no espaço público. Esta escultura aproxima-nos da ideia de um boneco de neve e pode arrancar-nos do lugar e fazer-nos percorrer uma linguagem visual mais popular, até vernácula. Mas pode também levar-nos a uma rede de relações que é mais sincrética, podendo revelar um maior campo de possibilidades, e que encontra o seu lugar no trabalho de outros autores. Como por exemplo, o realizador David Lynch, que apresentou uma série de fotografias a preto e branco, editadas em livro sob o título “Snowman”. São de bonecos de neve, que se revelam como figuras quase fantasmáticas. De outra forma, “Snowman Factory” (1996), de Dennis Oppenheim, resgata também esta figura que reúne em si mesma um aspecto lúdico e trágico.

Mas esta escultura, cuja volumetria se apresenta numa posição que desequilibra o olhar do espectador, obriga a um percurso em torno de si mesma e, consoante o ponto de vista que a transição do nosso corpo vai conhecendo, passo a passo, cria um certo desconforto. Uma estranheza à qual se junta um elemento essencial que identifica o vulgar boneco de neve, a cenoura, que também se encontra deslocalizada. É neste sistema de reconfiguração dos materiais e da localização das obras no espaço que a obra intitulada “Dente” vem acentuar esta necessidade que o artista tem de subverter as categorias que determinam os nossos hábitos visuais e perceptivos. Esta escultura fundida em bronze está instalada no chão da galeria e ocupa o lugar de uma tábua do soalho que servia de emenda à falta de uma tábua inteira.

O título é essencialmente um elemento escultórico tão poderoso como o objecto fundido em bronze (é uma cópia em bronze da tábua original) que ocupa aquele lugar e, aparentemente, nenhum outro. De certa forma, esta “tábua” também não pertence a ninguém, não é reproduzida em série e não se adequa a nenhum outro espaço, a não ser que essa falta, essa incompletude que Gonçalo Barreiros detectou no chão assoalhado, possa encontrar um outro lugar gémeo. Seja esta possibilidade verdadeira ou falsa, esta escultura é uma entidade transformadora do espaço lato sensu; deste espaço da sala da galeria, ou de um outro espaço. Contudo, a obra será eventualmente refeita, como um falso duplo de si mesma, para reproduzir e recontextualizar uma outra emenda ou uma outra tábua de um novo espaço. O que persiste é a transformação como ideia de um outro de si mesmo, condição paradoxal do duplo que é também singular e único, e, numa outra sala, em confronto com outra escala e proporção, será uma forma semelhante à anterior mas que se dá a ver como uma  outra. Esta obra resgata ainda a memória do trabalho do autor ao reinterpretar na mesma sala da galeria uma instalação site-specific aí realizada, cuja natureza escultórica derivou de outros campos do procedimento artístico de Gonçalo Barreios.

Mas a relação com o chão pode ser ainda mais radical, quando uma escultura suspensa na parede, “Definitivos”2, contém o espectro, ou a ausência, de dois fumadores cujos rastos são dois traços de ferro soldado e pintado, em cinzento antracite, que denunciam linhas sem peso do fumo de dois cigarros. A imagem da obra é potencialmente gráfica, e fixa o movimento do fumo. Mas é também potencialmente estranha, porque não sabemos se um cigarro estaria na boca de um dos fumadores e o outro no braço distendido que acompanha o outro corpo. Ou se os fumadores tem alturas diferentes. E se tiverem idades radicalmente diferentes? Surge então a dúvida que nos situa entre a consciência moral, induzida pelo título, e a raiz da imagem, onde pressentimos o desenho que se materializa no trabalho escultórico. O desenho vem ao encontro do pensamento do artista cruzando-se com a linguagem como na escultura intitulada “Plof Plof”, em que descobrimos no ferro soldado o movimento de algo saltitante, que nos recorda a banda desenhada, ou o som de um objecto que salta sobre um plano de água, mas que nos é devolvido como objecto escultórico pela poética transformadora do trabalho do autor. Do objecto real quase nada resta, e é esta a oportunidade que Gonçalo Barreiros nos deixa, um encontro com uma outra reconfiguração do contexto desse objecto/referente.

nosey parker, o título desta exposição, vai fazer-nos reflectir sobre como olhar pelo buraco da fechadura, sem que esta lá esteja.

Em chão aberto!

João Silvério | Agosto 2014

+ info:

Gonçalo Barreiros

Vera Cortês Art Agency


1. Empty Cube – Gonçalo Barreiros

2. “Definitivos” era uma marca de tabaco, de inferior qualidade, um tipo de tabaco mais genérico, mais fraco ou “mais suave”, sem filtro. Era um tabaco fumado pelas classes mais humildes, e pelos mais novos, que se iniciavam, muitas vezes, como fumadores na passagem da infância para a juventude.


(C) Texto e imagens: cortesia de Vera Cortês Art Agency, Lisboa, 2014.

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