Kiluanji Kia Henda: A city called mirage

Galeria Filomena Soares

> 29 de Novembro de 2014

A Galeria Filomena Soares apresenta, pela primeira vez, a exposição individual intitulada A city called mirage do artista angolano Kiluanji Kia Henda (Luanda, 1979). A exposição poderá ser visitada até dia 29 de Novembro de 2014.


Kiluanji Kia Henda estava no sul de Angola, quando, ao atravessar uma cidade quase engolida pelas areias do deserto do Namibe, deparou-se com um letreiro de metal enferrujado onde se lia “Miragem”. A palavra carcomida pelo tempo tornou-se de repente um símbolo – algo de extremamente concreto e abstrato. A fotografia daquele letreiro viria a ser o ponto de partida para uma série de trabalhos que formaram uma cidade chamada Miragem.

E se há uma cidade que sintetiza o aspecto ilusório da miragem, esta cidade é o Dubai. Ao mesmo tempo pastiche e microcosmos, modelo e paródia, esquema e miragem, o Dubai é omnipresente. Não é à toa que em diversos meios de comunicação fala-se em dubaização (dubaization) referindo-se a uma série de fenómenos urbanísticos baseados numa arquitetura espetacular e virtual que rompe com o contexto particular do território a ser investido. Trata-se de uma arquitetura que aterra mares, aplana morros e demole edifícios históricos para realizar projetos urbanísticos encomendados pela internet, tal como acontece em Luanda, cidade natal do artista.

Em A city called mirage, Kia Henda lida com a ausência de fronteiras entre a cidade materializada e a sua maquete em 3D. Os trabalhos expostos na Galeria Filomena Soares não possuem formatos claramente delimitados. São, ao mesmo tempo, fotografias e esculturas, performance e vídeo, textos de ficção e registo documental. Trata-se mais de um diagrama do que propriamente de uma representação, pois não há distinção entre expressão e conteúdo.

Os maiores exemplos deste enfoque múltiplo são Rusty Mirage (The City Skyline) – fotografias de esculturas realizadas no deserto de Al Zaraq na Jordânia – e a série Buildings (The Palace, The Fortress, The Temple, The Ministry) – serigrafia e fotografias de esculturas realizadas no deserto de Maleha, em Sharjah. As esculturas em forma de linhas metálicas parecem desenhos a destacar-se da paisagem, silhuetas ou esqueletos de uma cidade imaginária. Kiluanji baseou estas esculturas lineares nos sona, desenhos de areia da cultura Lunda Tchokwé (leste de Angola). Os contadores de histórias traçam os sona (plural de lusona) na areia enquanto narram fábulas. Tais desenhos são verdadeiros trajetos narrativos que condensam o esquema do que é narrado. Kia Henda transforma estes desenhos efémeros em objetos tridimensionais, estruturas imaginárias dispostas no deserto. Mas, ao contrario do que fazem os Tchokwé, os diagramas de Kiluanji traçam histórias futuras, virtuais, não passadas.

Em seguida, e em contraponto à transparência e à grandiosidade de Rusty Mirage e da série Buildings, temos, dispostas numa mesa, as Instruções para Criar o seu Dubai Pessoal em Casa. São instruções e imagens de obras arquitectónicas megalómanas, construídas a partir de simples objetos quotidianos: uma Palm Island feita de fósforos, um Burj Khalifa (o maior edifício do mundo) feito com latas de cerveja, um quarto subaquático feito com película aderente. E a paródia se desdobra em várias leituras possíveis. Nas megalópoles, o capital transforma o mundo à sua imagem e semelhança. Como toda a mercadoria, as cidades são customizadas e descartáveis. A esta customização em massa soma-se a produção de espaços sensoriais. A arquitetura torna-se, de repente, uma droga que proporciona uma “alucinação do normal”.

Em Settings for an Imaginary Landscape quatro fotografias de matérias inorgânicas são utilizadas na construção de uma estrada na Namíbia. O pré se confunde com o pós: o que está prestes a ser utilizado numa construção já se aparenta a uma ruína. O material retirado do subsolo e disposto em montículos parece integrar-se na paisagem. É como se a matéria subterrânea tivesse aflorado no exterior. Será que um tal reposicionamento de sólidos não seria capaz de mudar o eixo da Terra ou de provocar desabamentos de dimensões planetárias?

Mas se a cidade consome o planeta, ela consome-se também a si mesma. O vídeo Missão regista operários que, numa estrada movimentada da periferia de Luanda, se desfazem dos restos de uma demolição. Ao lançar os detritos do camião numa poça de lama os homens parecem livrar-se de um edifício cadáver.

Na mesma sessão da exposição temos Compacted Distance, fotografia de um muro com dois vazios que possuem formas humanas. Vemos o fundo da paisagem através dos dois buracos. Como num negativo fotográfico, estamos diante da presença de uma ausência, da marca deixada por um acontecimento passado. O muro faz-se fóssil.

Finalmente, na sala de projeção, uma vídeo-instalação produz a síntese da exposição. Ao mesmo tempo performance e escultura, vídeo-instalação e land art, Paradise Metalic conta a história de um homem que tenta construir uma cidade ideal avistada em sonhos. Identifica-se neste vídeo uma referência à cultura arquitectónica do Islão, que procura edificar o Paraíso através de padrões geométricos: nenhuma religião confiou na geometria tão profundamente como a islâmica.

Durante um ano, Kiluanji realizou um projeto numa plataforma internacional, onde produziu e colaborou com arquitetos, artistas, atores, músicos e técnicos vindos de cidades como Amman, Daca, Karachi, Lisboa, Luanda, Manila, Nova Iorque, Paris, Rio de Janeiro, Sharjah e Windhoek. A City Called Mirage é uma exposição complexa que traça vias originais sobre um tema recorrente nos últimos tempos: o das cidades entre a virtualidade e a desertificação. Kiluanji aposta na ficção (científica e mitológica) e na ironia como formas de transcender o pessimismo da hipercrítica e a estética da ruína. Através do humor adquire-se consciência do quão efémeras são as maiores construções humanas: todas as cidades voltarão a ser matéria-prima, tal como os metais retirados do subsolo voltarão a fundir-se na terra.

Lucas Parente

+ info:

Kiluanji Kia Henda

Galeria Filomena Soares

Kiluanji Kia Henda nasceu em 1979, Luanda, Angola. Actualmente vive e trabalha entre Lisboa e Luanda. Artista autodidacta, participou em diversas residências artísticas, nomeadamente: I Trienal de Luanda (2006); ZDB (2007), Lisboa; Black Projects (2008), Cidade do Cabo, África do Sul com bolsa da Swiss Arts Council ProHelvetia e Swiss Agency for Developement and cooperation; e 3.ª Trienal de Gaungzou (2008), China, com apoio da Sindika Dokolo Foundation.

Das exposições individuais que realizou desde 2007, destacam-se: New Man (2013), Kunstraum Innsbruck, Áustria; Trans It (2010), SOSO Gallery, São Paulo, Brasil; Self-portrait as a white man (2010), galleria Fonti, Nápoles, Itália; e Portraits from a Slippery Look (2008), Goethe Institute Nairobi, Quénia. Participa em exposições colectivas desde 2005, de onde se destacam: A Thousand of Him Scattered: Relative Newcomers in Diaspora (2014) Stills – Scotland’s Centre for Photography, Edinburgo, Escócia; Tomorrow Was Already Here (2012) Tamayo Museum, Cidade do México; SuperPower: África in Science Fiction (2012) Arnolfini Art Center, Bristol, Inglaterra; Other Possible Worlds – Proposals on this side of Utopia (2011) NGBK, Berlim, Alemanha; Propaganda By Monuments (2011) Contemporary Image Centre, Cairo, Egipto; There is always a cup of sea to sail in (2010), 29.ª Bienal de São Paulo, Brasil; Black Atlantic (2009) ar/ge kunst Galerie Museum Bolzano, Itália; e Luanda Pop – check list (2007) 52.ª Bienal da Veneza, Pavilhão Africano, Veneza, Itália.

O seu trabalho encontra-se presente em diversas colecções públicas e privadas, tais como: SD, African Collection of Contemporary Art, Luanda; Colecção António Mosquito, Luanda; Colecção BESA _ Banco Espírito Santo, Angola; Hélder Batáglia, Collection of Contemporary Art Luanda; Ellipse Foundation, Collection of Contemporary Art, Lisboa; e Metropolitana di Napoli, Nápoles, Itália.

© Texto e imagens: cortesia da Galeria Filomena Soares, Lisboa, 2014.

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