Rui Sanches | Dentro do Desenho

> 22.03.2014

fundação carmona e costa (Lisboa)

Comissário: João Pinharanda

Rui Sanches é um artista com reconhecimento consolidado e cuja obra tornou-se crucial para o entendimento da escultura a partir de meados da década de 1980. A fundação carmona e costa apresenta no seu espaço de arte contemporânea a exposição ‘Dentro do Desenho’, comissariada por João Pinharanda, que traça uma perspectiva dos últimos 30 anos de produção na área do desenho do Artista, reunindo um conjunto de 60 obras.

A seguir, excertos do texto do comissário João Pinharanda para o catálogo da exposição:

“Conhecido como escultor (…) rapidamente o desenho apareceu ao lado das esculturas, se autonomizou e deu a entender como fundamental no trabalho Rui Sanches. De facto, é difícil estabelecer, na sua obra, uma hierarquia de prioridades, de precedência, de empenhamento ou de qualidade, entre o que é do território do desenho ou do território da escultura. As duas situações ocorrem em paralelo, por vezes influenciando-se, por vezes sobrepondo-se; mas, as mais das vezes, mesmo quando abordam idênticos “temas” narrativos ou formais, desenho e escultura afirmam-se libertando-se uma na/da outra.”

“No desenho, Sanches mantém como base uma dominante bicromática (jogada entre o branco e o preto como se de gravuras se tratasse), uma dominante material (onde o negro da tinta-da-china e a tinta branca – barra de óleo – são determinantes) e uma dominante compositiva onde o suporte (o branco do papel) surge como elemento integrante da formação da imagem, onde a organização espiralada dos elementos predomina sobre ou convive com as linhas de ortogonalidade. Finalmente, Rui Sanches mantém e reforça o papel do acaso dos materiais e dos gestos, trabalhando escorridos e manchas, aguadas e espessamentos em diálogo com algumas falsas regularidades geométricas ou movediças malhas de composição. O surgimento esporádico de alguma cor ou o desaparecimento duradouro de referentes históricos decifráveis são características complementares dos seus desenhos mais recentes claramente libertos do constrangimento exterior que a prática da escultura lhe poderia impor.”

“Neste sentido poderemos dizer que a prática de desenho de RS o situa no interior da disciplina, no interior de cada série, no interior mesmo de cada desenho, num empenhamento que dispensa outra justificação que a do gesto e das formas, do comportamento dos materiais e do constrangimento dos suportes, que necessita apenas de ser acreditada pela sabedoria do olhar e pelo juízo de um gosto treinado na observação e reflexão da história da arte. (…) Cada uma das suas séries (e por alargamento o conjunto de uma obra que se mantém em pleno progresso) se dá a entender como exercício de fuga: a partir de um tema visual determinado Rui Sanches desenvolve um extenso e complexo trabalho de declinação e identificação, de sucessiva glosa e eterno retorno – há deslocação e recentramento, afastamento e regresso.” “Como síntese de uma atitude que abrange toda a obra de Rui Sanches, assistimos a uma organização do ver pensada do interior para o exterior, que existe a partir do fazer, a partir da concretização de exercícios de contenção discursiva. Através deles, o artista absorve a informação histórica e exterior, enquadra o acaso dos gestos e das matérias, modera a impulsividade das emoções, gere a perda de informação. Tudo passa para dentro do desenho, tudo se passa dentro do desenho, tudo passa de dentro do desenho para fora dele.”

– João Pinharanda, Lisboa, 26 de Dezembro de 2013

Rui Sanches, da exposição 'Dentro do Desenho', fundação carmona e costa, Lisboa, 2014. Cortesia da fundação carmona e costa.

Rui Sanches, da exposição ‘Dentro do Desenho’, fundação carmona e costa, Lisboa, 2014. Cortesia da fundação carmona e costa.

Rui Sanches (Lisboa, 1954) Estudou no Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual, Lisboa, no Goldsmiths’ College, Londres (BA 1980) e na Yale University, New Haven (MFA 1982). Em 1984 expôs pela primeira vez o seu trabalho na Galeria de Arte Moderna da SNBA e na Galeria Diferença, em Lisboa. Desde então realizou mais de quarenta exposições individuais de que se destacam a exposição retrospectiva no CAM da F. C. Gulbenkian (2001) e a exposição “MUSEUM” no Museu Nacional de Arte Antiga (2008), e participou em dezenas de exposições colectivas, em Portugal e no estrangeiro. O seu trabalho está representado nas principais colecções públicas portuguesas. Tem diversas obras em espaços públicos, nomeadamente na estação de metro Olaias, Lisboa, em Alcobendas, Espanha e a escultura “Colunata” na Assembleia da República. Foi o autor da medalha comemorativa do cinquentenário da Fundação Calouste Gulbenkian. Em 2008 recebeu o Prémio AICA/Ministério da Cultura.

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Rui Sanches

fundação carmona e costa

(C) Texto e imagens: cortesia de fundação carmona e costa, 2014.

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