João Louro | 5 minutes After Violent Death

> 09.03.2014

Travessa da Ermida (Lisboa)

A caixa-negra de João Louro

por Carlota Gonçalves

5 minutes After Violent Death é outra exposição que vem na sequência de um trabalho de investigação acerca das imagens que João Louro tem perseguido. Surge aqui a ideia de ‘’caixa negra’’ que segundo o artista todos possuímos, como um depósito selado de arquivo que alberga toda a matéria subjectiva que recolhemos do mundo. Corolário magnífico e secreto que se mantém fechado e que de vez em quando se pode abrir – ‘’as imagens já existem dentro de nós’’, diz-nos. Uma caixa de luz no exterior do espaço da exposição inscreve na sua dupla face as frases: ‘’Onde se lê ‘acto’ primeiro deve ler-se ‘acto’ único; A imagem é forte mas ao lado está o vazio’’. Esta entrada e saída parece conter o prólogo e o epílogo da sua proposta. Mais uma vez o artista joga com a linguagem, com a contenção e a condensação de ideias, num evidente postulado que testemunha a sua incessante procura e propõe uma linguística a completar. Que imagens então são essas que desfilam após a morte? Serão elas imagens sobreviventes, no sentido de sintomas warburguianos [1], possuídas por uma desorientação temporal? Talvez haja uma aproximação a este poder ou movimento que concerne a imagem como sintoma, tomada dialeticamente, em que o inconsciente do tempo aparece através dos vestígios, rastos, (traces), como “uma arqueologia psíquica” [2].

Uma montagem de pequenas fotografias alinham-se numa construção invisível que não indicam um caminho. Podem reconhecer-se imagens retiradas de filmes, – Misfits, Sierra Madre, North by Northwest, e o cinema volta como espaço insaciável na obra de João Louro – e outras mais enigmáticas que não se sabe de onde vêm, como animais e crianças, uma jovem que corre, o hotel Ritz, etc. Este conjunto de material disperso perde as suas referências e tornam-se restos, sinais, intervalos, imagens que se afirmam por si, onde só a legenda inscrita em todas elas, ‘’5 minutes After Violent Death’’, as liga como um fio que se pode percorrer em várias direcções. A fabricação do mistério está neste alinhamento fragmentado de uma produção ambivalente de imagens que se afastam, isolam, e se juntam pela montagem. Acrescentam-se ainda mais 3 fotografias de maior dimensão em caixas de luz que se afirmam autonomamente.

A mecânica do trabalho de João Louro produz-se numa dialéctica viva entre o visível e o dizível [3]. A noção da frase-imagem [4], desenvolvida por Rancière, encontra aqui uma forte ressonância, pela expansão deste binómio. Perante a produção imagética do artista perpassa em permanência esta troca que aparece como potência de ligação entre palavra e imagem, visibilidade e significação, dando a ver um mundo, a invisibilidade, segredos, e fantasmas, concentrados em títulos, frases, ou luzes (trabalho de neóns que formam palavras).

É o espectador que completa a obra, diz João Louro. Os indícios estão lançados. Resta-nos a nós descobrir.

Carlota Gonçalves, Fevereiro, 2014.

+ info:

João Louro

Travessa da Ermida

(C) imagens da exposição ‘ 5 minutes After Violent Death’, cortesia Travessa da Ermida, 2014.


[1] Didi-Huberman, Georges, 2002, L’Image Survivante, Histoire de L’Art et temps des Fantômes selon Aby Warburg, Ed. de Minuit, Paradoxe, Paris.

[2] Idem.

[3] Rancière, Jacques, 2003, O destino das imagens, i. Tradução Luís Lima, Ed. Orfeu Negro, Lisboa.  – Noção desenvolvida a partir da exploração de imagens do filme História(s) de Cinema, de Godard.

[4] Idem.

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