Claire de Santa Coloma @ 3 +1 Arte Contemporânea

Guia prático para fazer uma escultura básica de madeira

> 15 Março, 2014

3 + 1 Arte Contemporânea

Tocar no que se vê

“o artista que desbasta a madeira, que bate o metal, molda a argila, talha o bloco de pedra, faz reviver até nós um passado do homem, de um homem antigo, sem o qual não existiríamos” Henri Focillon, “Elogio da Mão” (1)

Instruções: antes de ler este texto, e antes de ver esta exposição, procure olhar para as esculturas de Brancusi. Elas dizem o essencial sobre a importância da acção da mão sobre a matéria e questionam a importância do plinto ou pedestal na sua relação com o público. Depois, se conseguir, sem ninguém ver – não é permitido tocar em obras de arte -, experimente/arrisque tocar no que vê.

No interior da Galeria: 12 esculturas de madeira, com diferentes formas, talhadas a partir de diferentes troncos ou qualidades de madeira – nogueira, azinheira… -, dispostas sobre plintos reaproveitados, de diferentes tamanhos, com diferentes alturas, configuram uma intrigante composição sobre o fazer escultura. Numa prateleira, um manual escrito pela artista – “Guia Práctica Para Hacer Una Escultura Básica de Madera” – sistematiza um processo de trabalho que, utopicamente, e de uma forma essencial, se torna acessível a qualquer pessoa que queira fazer uma escultura, na lógica de uma cultura ou forma de pensar projectual. E, aqui, neste contexto, o “querer” e o “fazer” são palavras determinantes. Expondo a sua experiência pessoal, as suas fragilidades, a sua forma de ultrapassar diferentes obstáculos, Claire de Santa Coloma procura demonstrar que o que procuramos idealmente não está à venda, não é comercializado, e que a Arte pode resultar de uma situação dependente daquilo que existe naturalmente na natureza, das relações pessoais que estabelecemos, do nosso corpo, da luz natural, de ferramentas elementares e, sobretudo, da nossa vontade milenar de “fazer” (faber), de dar forma à matéria, respeitando ou procurando chegar até ao seu nó fundamental, a uma situação de conhecimento primordial: Olhar os ramos de uma árvore. Despir a árvore. Perceber que, usando a escrita de Maria Gabriela Llansol, “o que esplende, à volta da árvore, é o nada da forma” (2). Sabemos que as formas vitais misturam-se. “O fundo da madeira interioriza um nó, um ovo/ que acabará por ser um povoado no meu horizonte” (3).

No ateliê: Com uma proposta expositiva, no geral, subtilmente irónica – sobre o sistema de produção e circulação da arte -, o que vemos em cada uma destas esculturas, apresentadas num curioso dispositivo e enquadramento teórico, é o efeito virtuoso das mãos de uma artista sobre a madeira, sublinhando, de forma crítica, o essencial da escultura: superfície e profundidade, distorções, volume, espaço… configurando um discurso que assenta numa metódica prática obsessiva e essencial. Para o Historiador da Arte, Henri Focillon, autor de um dos mais importantes tratados sobre a vida das formas (4), “na oficina de um artista, estão patentes por todo o lado as tentativas, as experiências, as intuições da mão, as memórias seculares de uma raça humana que não olvidou o privilégio de manusear.” (5) Nas várias visitas realizadas ao ateliê de Claire de Santa Coloma, nos últimos anos, percebemos que tomar consciência é tomar forma. Talvez porque “sem dar uma forma, nada me existe”? (6) Ou porque dar forma é humanizar?

Do seu investimento, muito físico, sobre a matéria – sobre a madeira, neste caso –, respeitando as suas inconsistências, irregularidades ou idiossincracias, explorando os desastres da mão, releva a dimensão erótica do trabalho artístico. Como? Ora, a actividade erótica, na perspectiva de Bataille, seria sobretudo, ou antes de tudo, uma exuberância da vida: o seu terreno seria essencialmente o da violência, o da violação (7). Note-se que estas esculturas de Claire de Santa Coloma procuram chegar a uma intimidade própria da matéria através de uma acção que implica o talhe repetido de uma ferramenta, da mão da artista, sobre o corpo dessa mesma matéria. Ora, para Bataille, toda a operação do erotismo tem como fim a dissolução do ser e o alcançar o seu ponto mais íntimo. Descontinuando-o? O que está em jogo no erotismo seria, assim, a dissolução das formas. Mas, como relembra o ensaista francês, no erotismo, a vida descontinuada não está condenada a desaparecer. Ou seja, ela só é questionada, devendo ser perturbada ou alterada o mais que possível. Sendo assim, há, no trabalho de Claire de Santa Coloma, e com este ensaio expositivo, uma procura da continuidade, uma vontade de introduzir, no interior de um mundo fundado sobre a descontinuidade, toda a continuidade de que este mundo é capaz, como refere Bataille no seu ensaio sobre o assunto. Ao trabalharem o tempo – “Me propuse hacer esculturas talladas a mano, como una manera de trabajar el tiempo. Como un acto de resistencia” (8) -, as obras de Claire de Santa Coloma criam, por isso, constantemente, fissuras que nos mostram um reino incerto, que não é nem espaço nem razão.

Conclusão: Resta-nos perguntar aquilo que já ninguém parece perguntar: Este trabalho, esta experiência, este ensaio escultórico são, afinal, sobre o quê?

Como resposta, a frase de Maria Gabriela Llansol: “falamos do pendor conceptual de certas árvores pois cremos que há árvores que agem mentalmente. O pensamento não é o raciocínio, é um feixe de reflexões, de sentimentos, de visões que se encadeiam e abrem caminho aqui” (9).

– Pedro Faro, Lisboa, Travessa do Alecrim, Janeiro de 2014

+ info:

Claire de Santa Coloma

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Notas do texto: 1) FOCILLON, Henri, A Vida das Formas, Edições 70, Lisboa, 2001; 2) Llansol, Maria Gabriela, Um beijo dado mais tarde, Edições Rolim, Lisboa, 1991, p. 69; 3) id, Ibidem, p. 81; 4) FOCILLON, Henri, A Vida das Formas, Edições 70, Lisboa, 2001; 5) id, Ibidem, p. 117; 6) LISPECTOR, Clarice, A Paixão segundo G.H., Relógio d’Água, Lisboa, 2013, p. 11; 7) ver: BATAILLE, Georges, El Erotismo, Tusquets, Barcelona, 2007; 8) DE SANTA COLOMA, Claire, Guía Práctica Para Hacer Una Escultura Básica de Madera, 2014; 9) Llansol, Maria Gabriela, Um Falcão no Punho, Relógio d’Água, 1998, p. 39

(C) Imagens e texto: Cortesia da 3 +1 Arte Contemporânea, Lisboa, 2014. Texto de Pedro Faro.

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