Dieter Roth | Björn Roth: Islands

Fondazione HangarBicocca (Milão, Itália)

> 09.02.2014

Curadoria: Vicente Todolí

Pela primeira vez em Itália, esta mostra reúne cerca de 50 obras de Dieter Roth (Hanover, 1930 – Basileia, 1998), uma figura-chave do panorama internacional da arte dos últimos cinquenta anos, montada com a colaboração do seu filho Björn. A exposição é única na forma como as imponentes instalações interagem com o anterior espaço industrial da Fondazione HangarBiocca. O público é levado numa viagem através de «ilhas» temáticas do universo multidisciplinar e criativo deste artista brilhante, cuja obra revolucionou a maneira como a arte é feita e vista.

Economy Bar (Bar de Economia), 2004-2013, é um bar aberto ao público e totalmente operacional, com um balcão comprido, um dispositivo para tirar imperiais, instrumentos musicais e um módulo do circuito fechado do sistema de vigilância, usado até recentemente na entrada da Pirelli, acrescentado à versão da obra feita para o HangarBiocca. Esta obra acolhe os visitantes à entrada da exposição: captando-os numa corrente ininterrupta de produção de arte e vida quotidiana, característica estilística de toda a obra de Roth e dos seus assistentes.

Entre as obras mais impressionantes da exposição, The Relative New Sculpture (A Escultura Relativamente Nova) foi produzida, especialmente, para o espaço do HangarBiocca por Björn Roth, em colaboração com os seus filhos Einar e Oddur Roth e Davíð þór Jónsson. É uma instalação enorme que envolve o público ao longo do percurso, dividida em duas plataformas quadradas unidas por uma passagem, onde, juntamente com candeeiros, secretárias e cartazes velhos dos anos 50, há vários instrumentos musicais, resgatados pouco antes de terem sido deitados fora. A obra explora o conceito de se ser capaz de compor música com instrumentos partidos, que podem ser tocados pelos próprios visitantes, que vão criando novos sons.

Este aspecto está presente em todas as obras da exposição, como The Floor I (O Chão I), 1973-1992, e The Floor II (O Chão II), 1977-1998, que reproduzem o chão do estúdio do artista na Islândia. Aqui são retirados do contexto e transformados em imagens abstratas, formando o pano de fundo de uma cozinha verdadeira, New York Kitchen, 2013, (Cozinha de Nova Iorque, 2013), que também foi utilizada pela equipa de Roth na montagem de algumas das obras exibidas.

Investigador insaciável em várias áreas criativas, Dieter Roth foi especialista em gravura, música e design. Explorou variados meios e expressões artísticas, combinando pintura, escultura, gravura, fotografia, vídeo e som em todas as suas obras. Fascinado com os mecanismos da transformação, Roth utilizou uma grande quantidade de materiais e objectos como ferramentas, mobília, monitores e comida num processo que revela a mutação constante da obra. O seu interesse pelo olfato, o cromático e as características esculturais de materiais orgânicos e a sua degradação levaram-no a transformar uma casa antiga em Hamburgo no Schimmelmuseum (Museu dos Moldes). Este espaço de exposição, onde o artista exibiu as suas obras, feitas sobretudo entre 1964 e 1971, esteve aberto ao público até 2004.

Deste seu interesse resultam as criações em chocolate e açúcar, entre as quais a torre feita de pequenos autorretratos e esculturas zoomórficas – Zuckerturm (Torre de Açúcar), 1994-2013, e Selbstturm (Auto-Torre), 1994-2013 – e a obra Coquillen-Zwerge (Gnomos-Concha), 1994/ 2013.

A visão artística de Roth, que inclui conhecimento e acção, experiência e competências manuais, está ilustrada de uma forma bastante completa nesta exposição patente no HangarBiocca. Durante um mês e meio de instalação, os 4.500 metros quadrados, do espaço dedicado à exposição, transformaram-se num workshop – um estúdio de artesão onde a «dinastia Roth» continua a passar ‘a sua arte’ para as gerações seguintes.

As obras não só foram instaladas, como também, em alguns casos, produzidas por Björn Roth, que trabalhou com o pai durante mais de vinte anos e pelos colaboradores, já históricos, do artista – que incluem os seus netos Oddur e Einar – deitando abaixo as barreiras entre as esferas pessoal e artística. Algumas das obras exibidas são o resultado da colaboração entre o artista e o seu filho. Estas incluem Material Paintings (Pinturas Materiais), combinações de pintura abstrata e sobreposição de materiais como roupas, tecidos e instrumentos, e Grosse Tischruine (Grande Mesa em Ruína). Iniciada em 1978 como um organismo em constante transformação, esta obra partiu da recolha de um acumulado de objectos da bancada de trabalho de Roth, reorganizados de diferentes maneiras para cada exposição.

A experiência da vida real e a arte estão também combinadas na grande instalação de Solo Scenes (Cenas a Solo), 1997-1998, uma das obras mais famosas do artista, que também foi exibida no dOCUMENTA 11, em 2002, e na mais recente Bienal de Veneza. Cento e trinta e um (131) monitores mostram cenas do quotidiano e íntimas do artista, criando um diário aberto em tempo real dos últimos anos da sua vida. Por outro lado, die Die DIE VERDAMMTE SCHEISSE (a A MALDITA MERDA) de 1974/1975 consiste em 52 impressões colocadas numa caixa de madeira, compostas por uma série de imagens obtidas a partir da reciclagem de pratos de cobre rejeitados por uma loja por serem «defeituosos». A obra exprime o valor do processo de recuperação que surge em todas as obras de Roth, neste caso aplicado não só aos materiais como às próprias imagens.

A exposição também celebra a Islândia, tão amada pelo artista, que ali viveu com a sua primeira mulher, a mãe dos seus quatro filhos. A ilha é uma parte poderosa da iconografia que Roth produziu até à sua morte. Reykjavik Slides (Slides de Reijavic), 1973-1975 e 1990-1998, é uma documentação fantástica dos mais de 30.000 edifícios que existiam na capital da ilha até 1998, enquanto SURTSEY e SURTSEY – Dinner series (SURTSEY e SURTSEY – Séries de jantar), 1974, consiste em 36 impressões da ilha de Surtsey, criadas em 1963 depois da erupção de um vulcão submerso na água.

As mais de 60 impressões Piccadillies, mostradas juntas aqui, pela primeira vez constituem um dos projetos mais originais e interessantes do artista. Criadas entre 1969 e 1974, tornaram-se um exemplo impressionante da paixão de Roth pela arte gráfica, e tiveram um papel fundamental na sua obra. São o resultado de um processo inovador aperfeiçoado pelo artista: as fotografias da famosa praça em Londres, tiradas de postais da colecção de Rita Donagh, mulher de Richard Hamilton, ela própria artista, foram ampliadas e reprocessadas com largas faixas de pinceladas de cor, formando peças únicas que nos convidam a reflectir sobre o conceito de Originalidade e de Reprodutibilidade aplicados a obras de arte.

O Artista

Um incansável artista nómada, Dieter Roth (Hanover 1930 – Basileia 1998) passou os primeiros anos de vida na Alemanha e na Suíça, onde fez a sua formação em artes gráficas, estudando técnicas de impressão e gravura. Viveu na Islândia, de 1961 a 1964, onde fundou uma pequena editora em Reijavic. Durante esses anos, passou do estilo abstrato-geométrico do Concretismo para uma visão poética do Noveau Réalisme. Entre 1964 e 1966 viveu nos Estados Unidos onde teve a sua primeira exposição individual no Museum College of Art, em Filadélfia, e onde lecionou a disciplina de artes gráficas na Rhode Island School, em Providence. Durante este período, Roth começou a criar peças utilizando matéria orgânica e comida, concentrando-se na mutabilidade da obra de arte. Mais tarde, viajou pela Alemanha, Áustria e Islândia, onde continuou a sua obra, criando livros de artista. Simultaneamente, fez experiências com objectos achados e vídeos, produzindo obras que revelam a influência do movimento Fluxus. A obra de Dieter Roth é aclamada desde a década de 1980 e representou a Suíça na Bienal de Veneza, em 1982, com a sua instalação A Diary (Diário): 40 filmes que retratam a vida do artista. Isto levou a um período de introspecção, que iria caracterizar as suas investigações posteriores. Na década de 1990, em simultâneo com os seus problemas de saúde, que o levaram à morte em 1998, foram crescentes as honras de que foi objecto e as exposições dedicadas às suas obras nas principais instituições do mundo.

Em 1999 foi apresentado, postumamente, Solo Scenes na Bienal de Veneza, com curadoria de Harald Szeemann. Foram exibidas retrospectivas importantes no MACBA Museu d’Art Contemporani de Barcelona (2002); no Museum Ludwig e no Schaulager, Basileia (ambas em 2003), no MoMA em Nova Iorque (2004 e 2013); no PS1 em Nova Iorque (2004), no Museu Serralves no Porto (2008); e no Camden Arts Centre em Londres (2013). As suas obras foram apresentadas em três edições (4, 6 e 11) numa das mostras de arte internacional mais conceituadas, a dOCUMENTA de Kassel, Alemanha.

Em Setembro de 2014, a Kunsthaus Zug, na Suíça, irá exibir a primeira exposição com uma abordagem exaustiva da obra de Roth relacionada com a música. A exposição, que tem sido desenvolvida em estreita colaboração com a Musik-Akademie Basel e Edizioni Periferia, irá viajar depois até o Hamburger Banhof, em Berlim.

+ info:

Fondazione HangarBicocca

Hauser & Wirth

(C) imagens: Dieter Roth and Björn Roth, Islands Installation view HangarBicocca, Milan, 2013. Photo by Agostino Osio. Courtesy Fondazione HangarBicocca, Milan. All works © Dieter Roth Estate, courtesy Hauser & Wirth.

Texto: Cortesia Fondazione HangarBicocca. Tradução do inglês para o português por Manuela Parada Ramos.

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