Jorge Molder | Rei Capitão Soldado Ladrão

> 23.02.2014

Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado (Lisboa)

Comissário: João Pinharanda

Rei Capitão Soldado Ladrão é uma exposição antológica de Jorge Molder, vencedor do Grande Prémio Fundação EDP/Arte 2010. Criado em 2000, o Grande Prémio Fundação EDP | Arte é, actualmente, uma iniciativa trienal que distingue artistas portugueses com carreira historicamente relevante, desenvolvida em Portugal ou no estrangeiro, e cujo trabalho tenha contribuído para anunciar e afirmar as tendências estéticas contemporâneas. Desde a sua instituição, para além do artista que agora se apresenta nesta exposição e catálogo, foram já distinguidos Lourdes Castro, Mário Cesariny, Álvaro Lapa e Eduardo Batarda.

A exposição patente no MNAC-Museu do Chiado reúne o mais extenso núcleo de obras desta dupla mostra de Jorge Molder, cerca 50 imagens fotográficas (seleccionadas das mais significativas séries das décadas de 1990 à actualidade), algumas projecções fixas e um diaporama construindo no seu conjunto uma nova narrativa de imagens que nos permite redescobrir a sua obra abrindo-a sempre a novos caminhos de interpretação. No Museu da Eletricidade o artista mostra, pela primeira vez, a maioria das peças da sua mais recente série de trabalhos, ‘A escala de Mohs’, onde a dimensão trágica do Ser e do seu Duplo, que caracteriza todo o seu trabalho, se revela em toda a sua extensão.

Excertos do texto de João Pinharanda, comissário da exposição:

A obra de Jorge Molder tem-se construído, ao longo de várias décadas, através de imagens pensadas como séries, evidentes narrativas temático-visuais, carregadas de referências literárias, filosóficas e cinéfilas sempre absorvidas pelo espaço-tempo individual do autor. São verdadeiros catálogos de obsessões que, pela sua capacidade de serem exercícios pessoais e espelho de realidades universais, tão bem nos servem. De facto, todo o jogo interior à obra nos permite manter em vigilância o seu exterior (tudo o que rodeia as ações do protagonista) como campo de possibilidade e potência. A questão da auto-representação é inerente ao trabalho de Jorge Molder. No entanto, a fixação do seu rosto e meio corpo (as fotografias raramente fazem enquadramentos diversos do clássico “plano americano” de meio corpo) não pode ser encarada como uma problemática de autorretrato. Trata-se da fixação de um modelo que encarna várias personagens – a solução remete para o teatro (que Molder tratou em séries iniciais) e podemos falar de um ator dirigido por um encenador ou de uma marioneta (um Pinocchio tentando libertar-se da manipulação do seu Gepetto).

A ideia e prática do jogo, com a tirania das suas regras, com a liberdade de decisão de cada jogador, com a aleatoriedade dos seus resultados finais, é essencialmente para perceber o trabalho de Molder. Em muitos casos, esse jogo existe no interior das próprias séries, que nascem umas das outras, que remetem umas para as outras, que reutilizam elementos umas das outras, como verdadeiros romans à tiroirs. Outras vezes esse jogo é feito com os títulos, outro dos campos de maior interesse e revelação do seu trabalho: em cada um deles, remete para memórias de cinema, infantis e imediatas, recentra de modo erudito o sentido de certos lugares-comuns ou transforma citações eruditas em lugares-comuns, inspira-se em ditos e observações de anónimos quotidianos, usa cifras e acrónimos abrindo-se sempre a traços de humor, de subtil e irónica melancolia e profundidade.

O artista desenvolve, habitualmente, uma atitude de segundo grau de atuação: espectador e crítico de si mesmo e dos universos que o rodeiam, exerce sobre essas realidades, próprias e alheias, ações de reconfiguração orientadas por lógicas de reforço ou rarefação narrativa. Através dessas estratégias, Jorge Molder constrói eficazmente sensações de rapidez e paralisia, euforia e angústia, descoberta e perda, rememoração e esquecimento, encenadas pelo protagonista com recurso a uma panóplia de adereços, efeitos de iluminação e truques de maquilhagem – exibindo um verdadeiro sentido de prestidigitador.

A obra de Jorge Molder evoluiu do campo tradicional da fotografia para uma complexa montagem de linguagens próximas e distintas (polaroid, impressão digital, vídeo). Porém, no seu conjunto e desde a década de 1980, o artista adota lógicas de imagem constrangida e de categorização. Imagem construída por se referir quase exclusivamente (de modo direto ou diferido) à autorrepresentação (seu rosto e corpo, expressões fisionómicas e gestuais). (…)

(..) Os trabalhos de Jorge Molder são espaços de espaços, sonhos de sonhos e modalidades para a interpretação dos sonhos. Analisando sempre com distância irónica as suas próprias condições de possibilidade, as imagens do artista estão em permanente recomposição, reordenando-se sem descanso nas paredes de um cabinet d’amateur. Molder procura, em cada momento, os melhores modos de usar (para efeitos artísticos) o seu próprio corpo como se fosse a sua própria vida. Ficcionando, de cada vez, e sempre a partir desse mesmo corpo e da sua mesma história, uma história sempre diferente, regressando e não regressando nunca à mesma casa, à mesma sala, aos mesmos objectos, ao mesmo rosto e mãos, deixando sempre uma peça em falta ou uma peça para trás – é a partir de todos esses pontos de não retorno que Molder se permite provocar a continuação infinita do seu jogo.  – João Pinharanda

Jorge Molder nasceu em Lisboa, em 1947. Cidade onde vive e trabalha. Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1972). Em 1977 realiza a sua primeira exposição individual. Recebeu o Prémio AICA/Portugal (2006-07) e o Grande Prémio Fundação EDP/ Arte (2010). Ao longo da sua carreira participou em inúmeras exposições individuais e colectivas nas mais prestigiadas galerias, centros de arte e museus a nível internacional. Foi artista convidado da 22ª Bienal de São Paulo (1994) e representou Portugal na 48ª Bienal de Veneza (1999).  Jorge Molder é o primeiro artista português representado na Unesco Art Collection. + bio

+ info:

Fundação EDP

Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado

Exposição ‘A escala de Mohs’ Museu da Electricidade, Lisboa

(C) imagens da exposição antológica de Jorge Molder ‘Rei Capitão Soldado Ladrão’ no MNAC-Museu do Chiado, 2013-2014. Fotografias da exposição José Soveral – Making Art Happen, 2014.

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