Manuela Marques: Backstage

Galeria Caroline Pagès (Lisboa)

Inaugura: 22 de Novembro (22 h) 

23.11.2013 – 25.01.2014

Manuela Marques tem desenvolvido um trabalho centrado na questão da imagem e respetivos processos de visibilidade. Refiro-me a uma tipologia específica de imagem, a imagem reprodutível, associada à prática da fotografia, sobretudo, mas também ao vídeo. Se ambos os media mantêm uma relação estreita com o seu referente, quer seja de natureza indexativa ou numérica/digital, essa relação adquire sempre em Manuela Marques um sentido de construção. Como tal, os seus trabalhos, apesar de documentarem determinadas realidades, hoje reportáveis a um domínio mais social/antropológico do que psicológico, nem por isso as apresentam como totalidades evidentes. Pelo contrário, cada realidade representada, resultante de determinadas escolhas, enquadramentos, perspetivas e demais procedimentos, comporta níveis de ambiguidade e estranheza que perturbam a sua compreensão, lembrando que a experiência com o real é um desencontro permanente.

Backstage, a mais recente exposição individual da artista, retoma estas mesmas preocupações através de uma seleção de novos trabalhos em fotografia e vídeo realizados em Ahmedabad, a maior metrópole do estado de Guzerate, na Índia. À semelhança do seu projeto anterior, executado em São Paulo (1), também aqui a cidade constitui o referente central, pese embora as perspetivas usadas sejam dominantemente frontais e aproximadas. Falamos de olhares diretos que, todavia, contrariam o seu próprio efeito de linearidade, devolvendo-nos recortes do quotidiano de Ahmedabad que tanto dependem da sua história, usos, hábitos e pessoas, como destes se afastam, reconfigurando visualmente, em ambos os casos, a vida daquela cidade.

A primeira sala é constituída por diferentes jogos de opacidades e transparências. Na série Backstage, as fotografias, tiradas à noite e em contraluz, geram composições abstratas de forte cromatismo que subitamente se transformam em vistas traseiras de um mercado de rua apoiado nas grades de um jardim, ao mesmo tempo que desfazem as fronteiras entre espaço interior/espaço exterior. Já em Cerf-Volant, o contraste luz-sombra dá lugar a uma só imagem, em contraplongée, onde os ramos e folhas de uma árvore se evidenciam sob um céu de luz intensa. Porém a presença inesperada de um brinquedo (papagaio de papel) no meio das ramagens, acrescenta, por via do acaso, outra realidade àquela vista, desdobrando os seus sentidos.

A estes trabalhos juntam-se, na segunda sala, duas fotografias de planos mais aproximados que amplificam a atenção dada às pequenas perceções ou a rituais do quotidiano e respetivas ressonâncias de distância ou aproximação sociais. Em Don, uma mão oferece algo inapreensível a outro, desconhecido também, enquanto a sugestão de encontro reaparece metaforicamente na figura da fogueira a arder de Feu.

Mas o trabalho de rua e suas particularidades são também convocados e retrabalhados pela câmara da artista nas restantes duas salas. Em Lucky Charm, uma espécie de inventário de guiadores de motas (2) decorados com lenços, o efeito de repetição, ligado à ideia de série fotográfica, ao trabalho e ao ritual, coexiste com o efeito de especificidade, decorrente do padrão e cromatismo de cada um daqueles amuletos. Por sua vez, tanto a fotografia Travailleur 1 como o vídeo Travailleur 2, exposto na última sala, desenvolvem, a partir do género do retrato, neste caso retratos de trabalhadores ambulantes, singularidades visuais que se sobrepõem aos rostos, dificultando mais ou menos o reconhecimento da sua identidade. Assim, enquanto na fotografia a transparência das bolinhas de sabão ainda permite antecipar um rosto, no vídeo, filmado em big close-up, o balão, ao ser soprado, vai velando a pouco e pouco o rosto até este ser substituído por uma mancha azul que tanto maravilha como desestabiliza o olhar.

Através do uso de planos cada vez mais aproximados, Manuela Marques atribui a esta montagem/exposição um movimento que parte progressivamente do visual em direção ao social, assumindo de seguida o social como ponto de partida para dele extrair consequências da ordem do visual, sem que um campo anule o outro.

– Sofia Nunes, Novembro de 2013

Manuela Marques (PT/FR n. 1959) vive e trabalha em Paris.

A sua primeira mostra em Portugal ocorreu nos Encontros da Imagem de Braga em 2002. Em 2005, uma selecção das suas obras foi incluída na Bienal de Fotografia de Lisboa e, em 2011, o seu trabalho foi distinguido com o prémio BESphoto.

Desde o início da década de 90, Manuela Marques tem exposto com regularidade em instituições francesas como o Centro Nacional de Fotografia, o Centro Fotográfico da Ile-de-France, o Museu Malraux, o Fundo Regional de Arte Contemporânea da Auvergne e da Alta Normandia, o Domínio Departamental de Chamarande, a Colecção Lambert e a Galeria Agnès B. No Brasil, Manuela Marques expôs em São Paulo, na Galeria Vermelho, Estação Pinacoteca e Museu da Imagem e do Som, em Brasília, no Espaço Cultural Contemporâneo e Museu de Arte Moderna e em Niterói, no Museu de Arte Contemporânea.

Noutro contexto, a artista tem participado em exposições colectivas em Madrid (PhotoEspaña), Nova Iorque (Galeria Schroeder Romero) e no Canadá (Museu Canadiano de Fotografia, entre outras instituições).

O seu trabalho faz parte de colecções públicas francesas como o Fundo Regional de Arte Contemporânea em Paris, o Fundo Regional de Arte Contemporânea da Auvergne, o Museu Malraux, o Domínio Departamental de Chamarande, o Instituto Camões em Paris, e a colecção de Agnès B. Em Portugal, faz parte da Colecção Berardo em Lisboa, da Colecção de Arte do Banco Espírito Santo e da Colecção do Museu da Imagem de Braga. O seu trabalho está ainda incluído na Colecção Wedge em Toronto, e na Colecção BES Investimento em São Paulo.

+ info:

Manuela Marques

Galeria Caroline Pagès

Notas do texto:

(1) que lhe valeu o prémio BES Photo em 2011

(2) meio de transporte muito usado pelos trabalhadores locais

(C) Texto e imagens: Galeria Caroline Pagès, Lisboa.

Anúncios