Auto-Retratos de Artistas Contemporâneos

Aparências Privadas. Auto-Retratos de Artistas Contemporâneos

Fundação Arpad Szenes | Vieira da Silva (Lisboa)

> 10.11.2013

Inaugura hoje, 18 de Julho, na Fundação Arpad Szenes | Vieira da Silva, uma mostra, comissariada por Luís Serpa, que inclui auto-retratos de artistas contemporâneos, nacionais e estrangeiros, pertencentes à colecção de Safira e Luís Serpa, em diálogo com obras de Arpad Szenes e de Vieira da Silva, do acervo da Fundação do casal de artistas, em Lisboa. A exposição fica patente até 10 de novembro.

I am my world.

– L. Wittgenstein

A exposição, organizada em torno de cinco temas principais: o espelho; a morte; o estúdio; a transfiguração e o olhar do artista – problematiza questões como a importância do espelho para a construção do auto-retrato, onde o reflexo do artista é o reconhecimento do seu “eu”; a imortalidade de “si” e a eternidade da “obra”, que contraria o envelhecimento e a decadência do artista; o espaço onde o artista se confronta consigo mesmo e com as novas tecnologias; o artista como ser paradoxal que desafia a sua extinção e a perspectiva do artista face à observação, interpondo a realidade-real com a realidade-imaginada.

As obras da colecção Serpa datam da segunda metade do século XX e do século XXI, os seus autores continuam a produzir, a sua relação com a obra continua em aberto. As obras de Vieira da Silva e de Arpad Szenes derivam de uma outra realidade: datadas da primeira metade do século XX, pertencem ao início de carreira dos artistas, entretanto já falecidos. São obras que, contendo em si promessas e potencialidades, integram um percurso que teve já o seu término. Ganham assim uma coerência e uma leitura que, analisadas à distância e em paralelo com toda a produção dos artistas, lhes garante um espaço na historiografia da arte, independentemente da sua condição de obra prima ou obra secundária.

O diálogo entre as obras das duas colecções, uma mais histórica (a da FASVS), a outra mais actual e em actualização (a dos Serpa), oferece-nos um olhar dual sobre o tema da auto-representação contemporânea: o da modernidade e vanguardismo, que revela no auto-retrato as mesmas vias de pesquisa e problematização que exploram na pintura, como acontece em Szenes e em Vieira da Silva; o de transgressão e de provocação, que usa o auto-retrato como meio e como via de pesquisa per se, independente, como é notório em Nan Goldin, João Vilhena ou Michèle Sylvander, entre outros.

Eu Sou Todos. Todos Sou Eu.

– Charles Baudelaire

O espelho do artista: Tal como na nossa atitude enquanto criança, o espelho utilizado pelo artista na realização do auto-retrato é o momento ou o estado durante o qual ele antecipa o domínio da sua unidade corporal na construção psicológica do seu carácter através da identificação com a imagem refletida. Esta tomada de consciência de “si”, perante o seu reflexo, permite o reconhecimento do “outro” como cúmplice. Deste modo, o artista procura aprisionar a sua “forma”, visível e tangível, real ou ilusória, numa confrontação que lhe possibilita dominar uma fantasmagoria, cosa mentale ou uma construção do espírito. É neste “duelo” que se joga a afirmação do “eu”. Com: Daniel Blaufuks, Jorge Molder, António Lagarto, Nan Goldin, Jorge Martins, Maria Helena Vieira da Silva, Gerard Hemsworth, Arpad Szenes.

A morte do artista: A representação da morte, enquanto ato de elegia da vida, pretende alcançar o Absoluto, o Eterno ou a Paz Original num exorcismo que permite ao artista enaltecer a memória de si mesmo. O artista evita a «ideia aterradora do fim definitivo» reconciliando-se com o seu público na esperança de alcançar o “paraíso celeste”. A imortalidade de “si” e a eternidade da “obra”, enquanto definição de uma existência atemporal (infinita?), são os argumentos que evoca para perpetuar o reconhecimento dos seus atos. Ao invocar o vazio (vanitas), o artista associa o envelhecimento e a decadência como elementos que definem a brevidade e o carácter efémero da sua existência. Simula a transição através de uma interpretação pessoal sobre intemporalidade, sem passado, presente ou futuro. Com: Juan Muñoz, Dieter Appelt, João Vilhena, John Coplans, Graça Sarsfield, Arpad Szenes.

O estúdio do artista: O espaço de trabalho que acolhe a prática artística primordial pode ser entendido como o lugar de encontro do artista consigo mesmo, i.e., um local em que se desencadeiam todas as forças que opõem o ser individual e a sua projeção narcísica. Este logos aonde se projeta a capacidade de transformação da ideia em objeto, possui uma força mágica capaz de produzir um ambiente estimulante e criativo. «O Artista No Seu Estúdio» é um lugar comum na história de arte, dos workshops de Rembrant aos estúdios parisienses de Picasso, Braque e tantos outros até à emblemática The Factory de Andy Wharol, em Nova Iorque. O que acontecerá, então, quando o lugar do estúdio for, simultaneamente o lugar de produção, exposição, disseminação e distribuição? Com: João Hogan, Arpad Szenes, Maria Helena Vieira da Silva.

A transfiguração do artista: A figura arquetípica e a dimensão épica do protagonista que consegue mediar o discurso entre os homens e os deuses é uma figura ambígua que assume a paradoxalidade de uma figura capaz de evidenciar a complexidade de um ser capaz de desafiar a sua extinção diferenciando-o do “outro”. Ao assumir este conflito, o artista representa e alimenta o debate sobre o carácter contraditório do herói, do anti-herói, do herói-trágico ou do super-herói. O Génio, que utiliza a História como palco e cenário do gesto heróico, assume a realidade como um fator de emancipação construindo o seu destino sem qualquer impedimento na expetativa de alcançar a sua libertação. Como indivíduo excecional ele é o objeto do próprio sujeito. Com: Lucas Samaras, Michèle Sylvander, Júlia Ventura, Eurico Lino do Vale, Boyd Webb, Daniel Blaufuks.

O olhar do artista: Aquilo que vemos é o resultado de convenções que definem aquilo que observamos. Ao invés, o artista apreende essa realidade sem véus interpondo-se entre a realidade-real e a realidade- imaginada. Não utilizando a fotografia mas a sua capacidade manual (operacional) para (se)desenhar potencia a elevação do seu (auto)retrato à categoria do génio, aquele que faz persistir na nossa memória a imagem produzida entre obra de arte e objeto utilitário, ou seja, a continuidade entre obra de arte e o objeto cultural que persiste na conceção do génio, entre a figura do demiurgo e do artista. O olhar reside, então, na capacidade particular que o artista tem em comunicar aos outros, através do fazer (da mão-que-desenha à mão-que-modela) o estado original, i.e., o sentimento do belo. Com: Arpad Szene, Miguel Navas, Carlos Correia, Pedro Cabrita Reis, Susanne Themlitz.

(C) imagens: Cortesia Fundação Arpad Szenes | Vieira da Silva

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