DANH VO (Go Mo Ni Ma Da)

MAM (Musée d’Art Moderne – Paris) 

> 18 Agosto (2013)

Uma ideia de liberdade.

As obras de Danh Vo (Vietname, 1975) possuem um discurso assumidamente político, embora possa não ser essa a primeira leitura, a verdade é que estão imbuídas de conotações de carácter simbólico. Expõem a complexidade das relações entre os povos, no contexto da descolonização. Questionando, de forma indirecta, as relações de poder, que sustentam as sociedades liberais, as suas regras e a fragilidade da ideia Estado-nação. O trabalho do artista é construído à volta da circulação de bens, quer seja de ordem material, económica, simbólica ou espiritual.

O título da exposição foi retirado de um artigo que Danh Vo encontrou, escrito por uma jornalista norte-americana que, durante uma viagem ao Vietname, foi cumprimentada por um vietnamita: ‘Go Mo Ni Ma Da’, uma mistura de inglês e francês que significa ‘Bom dia, minha Senhora’.

A exposição é comissariada por Angeline Scherf.

O projecto Go Mo Ni Ma Da, reúne quatro grupos de trabalho:

1- We The People: obra emblemática do artista que reproduz, em tamanho real, a Estátua da Liberdade (Nova Iorque) da autoria de Auguste Bartholdi, inaugurada em 1886. Esta peça é apresentada de forma fragmentada, são mais de 30 os fragmentos espalhados pelo espaço expositivo. A mostra incluiu, igualmente, fotografias da primeira viagem de Bartholdi ao Egipto (1855-1856).

2- Três lustres do salão de baile do Hotel Majestic, onde foram assinados a 27 janeiro de 1973, os Acordos de Paris, entre os Estados Unidos e o Vietname. Estes três objectos foram reunidos, pela primeira vez, para esta exposição.

3- A partir da figura de Théophane Vénard (1829-1861) e da sociedade ‘Missions Étrangères de Paris’ uma instituição católica de padres missionários enviados para o continente asiático, a partir do século XVII, com o objectivo de cristianizar esses territórios.

4- Nove peças produzidas a partir de vários lotes adquiridos num leilão, organizado pela Sotheby’s, de objectos de Robert S. McNamara, ex-secretário de defesa dos EUA, a quem o New York Times, em 2009, apelidou de “arquitecto da derrota dos EUA na Guerra do Vietname”. Uma intervenção, em forma de caligrafia, foi realizada in situ pelo pai do artista.

A seguir, excerto do texto da comissária da exposição – Angeline Scherf (tradução livre):

Em 2009, Danh Vo foi artista residente na Fundação Kadist, em Paris, onde deu continuação ao seu trabalho de pesquisa sobre o acordo de paz que os Estados Unidos e o Vietname assinaram no Hotel Majestic, em Paris, em 1973, selando, oficialmente, o fim da guerra. E, também, sobre várias espécies botânicas recolhidas na China e no Tibete por missionários – um extenso trabalho de pesquisa realizado através dos arquivos das Missões Estrangeiras de Paris (MEP), sociedade de vida apostólica, fundada em 1683, sob o nome de “Seminário para as Missões Estrangeiras”, que tinha como objectivo evangelizar os países não cristãos do sudeste asiático. Esta residência artística deu origem à exposição, “Les fleurs d’intérieur”, onde era exibido um lustre do Hotel Majestic, uma carta de Théophane Vénard e uma fotografia, datada de 1852, de cinco padres missionários católicos de partida para a Ásia.

Estas intervenções actuam sobre o passado histórico da França, promovendo uma reflexão sobre as instituições e o seu impacto na política de comércio internacional.

Esta exposição é uma continuação desses propósitos e retrata a proximidade do artista com Paris e com a cultura francófona, à qual se sente bastante vinculado, evidente quando cita Emil Cioran (1) ou o cinema dos irmãos Dardenne (‘Rosetta’, 1999 e ‘Le Fils’, 2002). Esta é pois uma oportunidade para revisitar três temas  fundamentais para o artista, do ponto de vista pessoal e político, ou seja que reflictam sobre o nosso tempo, a contemporaniedade: – que esperar hoje em dia da liberdade? – a fragilidade das sociedades liberais e a complexa inter-relação dos povos, no contexto da descolonização.

Primeiro, a ideia de liberdade, através do projecto que levou dois anos a reproduzir: a Estátua da Liberdade de Frédéric Auguste Bartholdi. Sem o ter visitado, o artista suspeitou que o monumento fosse constituído por uma estrutura oca, de casca fina de cobre, apoiada por uma estrutura metálica. Decide, depois, que a sua reprodução seria realizada numa fundição perto de Xangai, utilizando os mesmos métodos usados pelo seu autor, ​no século XIX. Este trabalho intitulado ‘We The People’ – as três primeiras palavras da Constituição de 1787 dos EUA –  possui as mesmas dimensões do original, tendo sido mostrado, de forma fragmentada, em diferentes partes do mundo, desde setembro de 2011.

Dada a história familiar do artista, a escolha deste símbolo não é desprovida de sentido. A família de Danh Vo fugiu do Vietname, em 1979, num barco construído pelo seu pai, na esperança de chegar aos Estados Unidos. Desviada do seu destino original, a família mudou-se para a Dinamarca, onde vive desde então. Esta obra constitui um marco importante na história do artista e é um símbolo de liberdade e independência, no imaginário colectivo, para muito dos imigrantes aquando da sua chegada a Nova Iorque. É como uma alegoria do mundo livre, num quadro de referência bem definido: o da cultura ocidental. Na sua apresentação fragmentada Danh Vo sugere uma nova interpretação: “Deixem-na viajar, implantar-se, ser uma massa fluida que muda de acordo com os lugares onde é exposta”. Outras citações sobre este trabalho: “Considero esta obra um paradigma sobre o que pode ser dito, hoje em dia, em termos de liberdade…” (3) “descontextualizando-a, o artista impôem-lhe outras interpretações, questionando a autoridade e autenticidade de uma leitura única” (4).

 

O trabalho de Danh Vo tem sido apresentado nas mais prestigiadas instituições internacionais: Art Institute of Chicago (2012-2013); Kunsthaus Bregenz, Austria (2012); National Gallery of Denmark, Copenhaga (2012, 2010); Kunsthalle Basel, Suíça (2009); MoMA, Nova Iorque (2009); Stedelijk Museum, Amsterdão, Holanda (2008); Bergen Kunsthall, Noruega (2006). Participou, também, na Biennale de Shanghai, em 2012, e nesse mesmo ano recebe o prémio Hugo Boss. Apresentou, este ano, o seu trabalho no Solomon R. Guggenheim Museum, em Nova Iorque. Actualmente participa, também, na Biennale de Venise 2013.

Links.

– vídeo com o artistawww.dailymotion.com/video/x10p7zx_danh-vo_creation

Artigos relacionados:

– entrevista a Danh Vo: Afterall

citações:

(1) “J’avais une âme de loup…”, Emil Cioran, Histoire et utopie, éd. Gallimard, 1960, p. 14. 

(3) Mirjam Varadinis, “Shattered Freedom”, Parkett n° 90, 2012, p. 214.

(4) Hilary M. Sheets, “Lady Liberty, Inspiring Even in Pieces”, The New York Times, 23 sept. 2012, p. 23

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