Marcelo Costa | Rui Sanches

A Galeria Belo-Galsterer, em Lisboa, inaugura hoje, dia 6 de junho, uma exposição individual de Marcelo Costa: ‘O Caso do Verde Primário’ e apresenta ‘New Work’ – um novo projecto escultórico de Rui Sanches. A mostra fica patente até 7 de setembro.

Marcelo Costa: S/ Título (xeque-mate) #3, 2013, Guache sobre papel, 112 x 162 cm. Cortesia da Galeria Belo-Galsterer.

Marcelo Costa O Caso do Verde Primário 

Este artista apresenta, nesta sua primeira exposição individual na galeria Belo-Galsterer, um trabalho exploratório sobre o papel da Cor na pintura:

“Mais do que reflectir sobre ou a partir da problemática da cor na pintura esta exposição pretende passar entre as gotas de água da chuva deste problema. Simplesmente trazer a cor para o primeiro plano.”

– Marcelo Costa

O interesse de Marcelo Costa na cor é “teórico”, como acontece com aqueles – criaturas do desenho – que acham que o mundo se vive teoricamente ou não se vive de todo. O que nos é dado tem de demonstrar o seu potencial para ser e poder ser em simultâneo – e só desse modo, ao ser-nos retirado, nos é realmente dado. 

Ora uma cor que ao mesmo tempo se dá e se retira deve primar, sobretudo, pelo erro. Deve impôr o seu desacerto, não relativamente a isto ou àquilo em particular, mas tornando-se indiferente, recusando-se a encarnar. (…)

Daí que Marcelo Costa se indague, de forma adequadamente aproximativa, fracturada (eminentemente secundária) sobre o verde primário. Não se trata de filosofar mas de metaforizar – de nos descobrirmos, estacionados como que em permanência, nessa antecâmara da metamorfose, com uma cor que se separou do que a pode albergar (ou que é expulsa do que nos é dado) e de isso constituir, subitamente, razão para alarme. 

Por isso o “verde primário” não é tão somente um anti-naturalismo, ou um princípio de abstracção (e menos ainda um neo-conceptualismo), mas uma espécie de mondrianismo Pop – terapêutico, político, espiritual e moral – que vê na destituição do (antigo) corpo, do (antigo) olhar, a possibilidade de um volte-face. O que agora se exige ao pintor (Marcelo Costa deixa-o claro nas suas notas para a exposição) é “mais [a] capacidade de transportar do que [a] de transformar.”

“Acertar com precisão, ao lado do alvo” (1) implica vasculhar mais fundo no baú do desenho, onde errar e acertar nascem gémeos e o imperativo do exercício nos coloca teoricamente antes e para além da estética. Aí onde transformar, transportar e transmitir se confundem.

– Manuel Castro Caldas

Marcelo Costa nasceu em Coimbra (1978). Vive e trabalha em Lisboa. Formou-se em desenho e pintura no Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual em Lisboa, onde é, actualmente, professor, responsável do departamento de Cinema/Imagem em Movimento e co-responsável do departamento de Desenho e Pintura. Recentemente, expôs na Fundação Carmona e Costa e no BA Studio (2012), no Museu Nogeira da Silva, Braga (2011) e na Galeria João Esteves de Oliveira (2010). Em 2005 foi seleccionado para o 2º prémio Rothschild de Pintura, Palácio Galveias, Lisboa. Em 2000 para Concurso de Desenho Celpa – Vieira da Silva, Fundação Arpad Szenes/Vieira da Silva, Lisboa. Participou em exposições colectivas na Áustria, em França, Angola e Italia, entre outros. O seu trabalho encontra-se representando na Colecção Carmona e Costa, Lisboa, na Co­lecção Cachola, Elvas, na Colecção do Ar. Co, Lisboa e na Colecção Dietrich Mateschnitz, Salzburgo, entre outras.

(1) “Escolha – acertar com precisão, ao lado do alvo.” Nota de Marcelo Costa para a exposição. 

Rui Sanches: S/ Título (porta entreaberta), 2013, Madeira, ferro e barro, dimensões variáveis. Cortesia da Galeria Belo-Galsterer.

Rui Sanches – New Work – propõe uma escultura específicamente pensada para o espaço da galeria.

“A escultura (exposta), constituída por duas portas, outros elementos em madeira, estruturas de ferro, espelho e barro cru, ocupa o centro de uma sala de planta quadrada. O espectador é induzido a circundar a obra e vai sendo sucessivamente confrontado com planos que lhe cortam a passagem e a visão (“portas” fechadas), vistas entre planos, directas ou indirectas, estruturas cúbicas que organizam o espaço, volumes mais ou menos orgânicos, massas de barro que escorrem frescas para o chão.

Opacidade e transparência, visão e retro visão, formas planas e tridimensionais, sugestões orgânicas e estrutura geométrica, visão e tacto, expansão e contenção, ao longo da duração do movimento do corpo. 

Uma série de materiais comuns, que associamos à vida quotidiana, organizados de maneira a criarem uma presença dentro da galeria. Uma forma que dialoga com as paredes, o chão, o tecto e o ar que são a sala. Uma presença com que o espectador se relaciona através de uma sequência de eventos que o levam a uma consciência mais aguda da sua própria existência no espaço.“ – Rui Sanches)

Rui Sanches é um dos escultores portugueses mais importantes da cena contemporânea portuguesa.

Nos anos 80, do século XX, foi um dos protagonistas do Pós-modernismo: viveu longas temporadas em Londres e Nova Iorque, fazendo parte das respectivas cenas artísticas. Os seus trabalhos reflectiam as tendências desconstrutivistas e experimentais daquela altura. Destacam-se as referências à história de arte e seus ícones, bem com o uso de objectos industriais e do dia-a-dia.

Posteriormente, deu mais atenção à sensualidade e fisicalidade do corpo humano, criando formas antropomórficas. Assim, as suas esculturas, normalmente construídas a partir de um “empilhamento de camadas finas de contraplacado” (1) começaram a desenvolver-se no sentido de serem estruturas  mais complexas, propondo topografias e paisagens abstractas. Um dialogo entre o impulso analítico e a tensão inerente ao material orgânico.

Rui Sanches, nasceu 1954 em Lisboa, onde vive e trabalha. Estudou no Ar.Co, em Lisboa, e no Goldsmith College em Londres (BA, 1980). Continuou os seus estudos na Yale University onde finalizou com o Mestrado (1982). 

Expõe desde 1983. A sua obra encontra-se representada em algumas das colecções portuguesas e internacionais mais importantes: CAM/Fundação Calouste Gulbenkian, Centro Cultural de Belém, Parlamento Europeu e Banque Privée Espírito Santo em Lausanne, Suíça. Apresentou várias exposições individuais e colectivas em  Portugal e a nível internacional em países como: Alemanha, Áustria, Bélgica, Brasil, Canada, China, Espanha, França, Itália, Japão e Ucrânia. Em 2008 foi-lhe atribuído o Prémio AICA/Ministério da Cultura

(1) Leonor Nazaré: “Rui Sanches (1954)”, in: Roteiro da Colecção, CAMJAP, Lisboa, 2004. p. 208.
(C)imagens: Cortesia de Galeria Belo-Galsterer, Lisboa, 2013.
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