Luis Silveirinha (O Teatro)

Luis Silveirinha, O Teatro, em exposição na Galeria Alecrim 50, Lisboa, 2013.

Luis Silveirinha, O Teatro, em exposição na Galeria Alecrim 50, Lisboa, 2013.

> 29 de Junho de 2013

Alecrim 50 | Arte Moderna e Contemporânea

Luis Silveirinha nasceu em 1968 em Campo Maior, Portugal. Vive e trabalha em Alverca. (+bio)

Numa esquina, Karl viu um cartaz com os seguintes dizeres: “Hoje, das seis da manhã à meia-noite, na pista de corridas de Claal para o teatro de Oklahoma. O grande teatro de Oklahoma chama-vos! Chama-vos só hoje, só uma vez! Quem agora perder esta oportunidade perde-a para sempre! Quem pensa no seu futuro é connosco que deve estar! Todos são bem-vindos! Quem quiser ser artista, dirija-se-nos! Somos o teatro que pode dar emprego a toda a gente, a cada qual o seu lugar! Damos já os parabéns a quem se decidir por nós! Mas apressai-vos para serdes admitidos até à meia-noite! À meia-noite tudo se fecha para não reabrir mais! Maldito seja quem não acreditar em nós! A caminho de Clayton! – O teatro ao ar livre de Oklahoma in América de Franz Kafka

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Uma ordem imperfeita

No princípio era uma linha, e essa linha continha todas as formas. Então, chegado o momento, quando a sua membrana se rasgou, diluindo-se na plena amplitude do espaço, derramou em volta o caos de todos os seres que a habitavam e o vazio deixou de existir. 
Foi num tempo aquém ou além do primado da ordem e da transparência, num mundo que caminhava em equilíbrio sobre o complexo e primevo claro-escuro do confronto necessário e sem fim entre energias opostas.
Luz e sombra, vida e morte, construção e destruição, racional e irracional. 
A certa altura, esta seria a divisão operada sobre as coisas. Antes, porém, sabia-se e aceitava-se que toda a luz origina a sombra. Ou seja, que toda a luz é também sombra. Tal como toda a vida contém em si e origina a morte, toda a construção é uma forma de destruição e o racional é apenas um dos dois eixos sobre os quais roda incessantemente a consciência transportando consigo a memória de todos os tempos e estares.

(…) 

Em conjunto, a série de guaches sobre papel que compõem a nova exposição na Alecrim 50 partem de “América”, gesto iniciático – e interrompido – de um jovem Kafka. Mais concretamente, partem do primeiro parágrafo do capítulo que viria a tornar-se no capítulo final desta obra inacabada. É o capítulo em que Karl Rossmann, ostracizado, forçado a deixar a Europa pela América, para na esquina de uma rua a ver o cartaz que anuncia ofertas de emprego no Grande Teatro de Oklahoma. 
“O grande teatro de Oklahoma chama-vos!”, diz o cartaz. “Não vos chamará a não ser hoje; é a primeira e a última vez! Quem deixa passar esta ocasião, deixa-a passar para sempre! Se pensa no seu futuro, é dos nossos! Cada um de vocês é bem-vindo. Sonha tornar-se artista? Venha! O nosso teatro emprega toda a gente e põe cada um no seu lugar.”
Karl sente-se particularmente seduzido por uma das frases – aquela que, incluindo toda a gente, o interpela também a ele, diretamente: “Cada um de vocês é bem-vindo.” 
Que espécie de circo ambulante será este em que todos temos lugar, a não ser, porventura, o grande teatro do mundo e das cosmogonias?

Borges diz que a principal característica da obra de Kafka é a inconclusão. Essa é também um das principais características da série de trabalhos que Luís Silveirinha apresenta nesta exposição a que chamou “O Teatro”. 
Numa das obras insinua-se um palco – uma arena desenhada pelos pés de quatro grandes figuras que se erguem altas. Não são homens, nem deuses, nem plantas, nem animais – talvez grandes tótemes, guardiões tribais da ligação entre o sagrado e o profano. 
Nas religiões mais antigas as arenas ocupadas por essas presenças são designadas terreiros. É neles, e sob a proteção dos guardiões, que, uma e outra vez, alguns homens – só alguns – ensaiam idas e vindas entre mundos, conhecedores e portadores tanto das mensagens mais positivistas dos seus pares quanto das metanarrativas prescientes mais misteriosas do universo. 
A esses homens cabe a revelação das coisas como são. São eles que observam e tentam ordenar as imagens transmitidas pelos fluxos do indizível. O tipo de imagens que Luís Silveirinha convoca nos seus mais recentes trabalhos, uma espécie de desenho automático em que uma forma se sucede quase ininterruptamente à anterior, nem homem, nem deus, nem planta nem animal, atravessando um véu de cor que não é fundo nem frente mas um e outro, alternadamente, palco das energias mais arcaicas.

Arcaico é o que se relaciona com a arché, a origem. E a origem – isso sabemos – está presente em todos os momentos de todas as coisas, tanto no princípio quanto no fim. Todas as coisas são diferenciações de uma mesma coisa e são a mesma coisa. E isto é evidente.*

Vanessa Rato (Lisboa, 27 de Abril de 2013)

* citação de Diógenes de Apolónia

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(C) imagens: Cortesia da Alecrim 50 | arte moderna e contemporânea

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