Hetero Q.B. | Museu do Chiado

Valentim de Barros, Pormenor de pintura, Museu Hospital Miguel Bombarda.

Valentim de Barros, Pormenor de pintura, Museu Hospital Miguel Bombarda.

Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado (Lisboa)

> 30 de Junho, 2013

Artistas:

Ana Bezelga, Ana Pérez-Quiroga, Ana Pérez-Quiroga e Patrícia Guerreiro, Ana Pissarra, Carla Cruz, Catarina Saraiva, Célia Domingues, Cristina Regadas, Elisabetta di Sopra, Hong Yane Wang, Itziar Okariz, Joana Bastos, Lilibeth Cuenca Rasmussen, Maimuna Adam, Mare Tralla, Maria Kheirkhah, Maria Lusitano, Mónica de Miranda, Nilbar Güres, Nisrine Boukhari, Oreet Ashery, Patrícia Guerreiro, paula roush & Maria Lusitano, Pushpamala N, Rachel Korman, Razan Akramaw, Rita GT, Roberta Lima, Sükran Moral, Susana Mendes Silva, Tejal Shah, Zanele Muholi.

Comissariado: Emília Tavares & paula roush

Cristina Regadas (Portugal), Cling, 2012, filme super 8 transferido para vídeo, cor, som, 2’ 46’’

Cristina Regadas (Portugal), Cling, 2012, filme super 8 transferido para vídeo, cor, som, 2’ 46’’

hetero q.b.

Esta programação apresenta um conjunto internacional de obras em vídeo realizadas por mulheres, sobre temáticas que vão desde o feminismo, ao lesbianismo e transgénero. A seleção de trabalhos abrange países e realidades consideradas “periféricas”, em relação ao discurso e prática do feminismo clássico euroamericano, usualmente mais conotado como progressista na defesa da igualdade das mulheres e do género. Sociedades em que as tensões históricas, culturais, sociais, políticas e naturais sobre o género têm sido, nas últimas décadas, disputadas e reivindicadas sob outros moldes, desafiantes da própria história do movimento feminista.

Por outro lado, esta programação revela alguns dos debates mais importantes sobre as questões dos feminismos ou pós-feminismo, assim como todo o âmbito das diversidades queer, desde o lesbianismo, bissexualidade, transsexualidade ou transgénero, que têm sido fundamentais para o esclarecimento e a constituição de uma nova cultura e mentalidade sobre estas realidades.

(…)

Este programa não pretende estabelecer nenhum discurso panfletário sobre as questões de género, mas considera que o enquadramento da heterossexualidade na sociedade contemporânea tem um papel normalizador e regulador duma autoridade patriarcal, permitindo grandes margens de desigualdade no seu exercício. Disso mesmo é exemplo a múltipla abordagem artística que em díspares meios sociais tem sido efectuada nas últimas décadas, utilizando diferentes linguagens para confrontar, denunciar, divulgar ou apenas divagar sobre a complexidade do género e da sua vivência.

A teoria do género tem sido debatida e questionada em vários meios mais científicos e intelectualizados, mas a realidade é que também se instalou no debate público entre interrogação e condenação sobre os novos modelos de vivência da sexualidade, e o seu consequente enquadramento legal e político.

O tema constitui ainda um tabu de contornos pouco esclarecidos em diferentes sociedades e por diferentes razões, mas um recente dossier sobre o tema, publicado pela revista Le Magazine Littéraire colocava uma pertinente questão “ devemos ter medo do género ou pelo contrário aproveitar a destabilização que o mesmo coloca às nossas normas de pensamento para transformar/melhorar a nossa sociedade.” O género é também uma doutrina em formação, cujos contornos de debate e investigação têm tido nos últimos anos uma exponenciação relevante, bem como têm interferido de forma fracturante na organização moral, ética e social das sociedades contemporâneas, o que por si só justifica a atenção que o tema nos merece. – Emília Tavares, Curadora

Mare Tralla (Estónia) Reading faces, 2011, vídeo, p/b, s/som, 5’30’’.

Mare Tralla (Estónia), Reading faces, 2011, vídeo, p/b, s/som, 5’30’’.

PROGRAMA:

PURO ACTIVISMO (9 a 14 de Abril)
Com: Zanele Muholi & Peter Goldsmid (África do Sul)

FICÇÕES E AUTORIDADE (16 a 21 de Abril)

Com: Mare Tralla (Estónia); Roberta Lima (Brasil); Mare Tralla (Estónia); Carla Cruz (Portugal)

VESTIR A LIBERDADE (23 a 28 de Abril)

Com: Roberta Lima (Brasil); Nilbar Güres (Turquia); Nisrine Boukhari (Síria); Ana Bezelga (Portugal)

O EXOTISMO É UMA ARMA (30 de Abril a 5 de Maio)

Com: Lilibeth Cuenca Rasmussen (Filipinas); Pushpamala N. (Índia); Mónica de Miranda (Portugal); Cristina Regadas (Portugal)

O CORPO POLÍTICO (7 a 12 de Maio)

Com: Oreet Ashery (Israel); Razan Akramawy (Palestina); Maria Kheirkhah (Irão); Nisrine Boukhari (Síria)

O SEXO DA HISTÓRIA (14 a 19 de Maio)

Com: Mare Tralla (Estónia); Rita GT (Portugal); Maimuna Adam (Moçambique); Ana Pissarra (Portugal)

AS MULHERES VOLTAM SEMPRE A CASA (21 a 26 de Maio)

Com: Maimuna Adam (Moçambique); Maria Kheirkah (Irão); Célia Domingues (Portugal); Lilibeth Cuenca Rasmussen (Filipinas)

FAMÍLIA, INTIMIDADE E MUNDO (28 de Maio a 2 de Junho)

Com: Pushpamala N (Índia); Elisabetta di Sopra (Itália); Susana Mendes Silva (Portugal); Célia Domingues (Portugal); Maria Lusitano (Portugal)
CORPOS DESVIANTES (4 a 9 de Junho)

Com: Rachel Korman (Brasil); Elisabetta di Sopra (Itália); Catarina Saraiva (Portugal); Zanele Muholi (África do Sul); Tejal Shah (Índia)

INTERROMPER CÍRCULOS (11 a 16 de Junho)

Com: Joana Bastos (Portugal) e Hong Yane Wang (China)

SIM, PROVOCAR, SIM (18 a 23 de Junho)

Com: Sükran Moral (Turquia); Oreet Ashery (Israel); Itziar Okariz (Espanha); Ana Pérez-Quiroga (Portugal); Oreet Ashery (Israel)

HISTÓRIAS DE ENCANTAR (25 a 30 de Junho)

Com: paula roush e Maria Lusitano (Portugal); Ana Pérez-Quiroga e Patrícia Guerreiro (Portugal)

Clique nas imagens para ampliar:

 

Dear Emília,

Estou ainda sob o efeito do ‘panótico’ depois de visitarmos a exposição do Museu do
Hospital Miguel Bombarda. A área dedicada a Valentim de Barros, o bailarino e artista que viveu mais de 40 anos no Pavilhão de Segurança, impressionou-me tanto como me inspirou, em doses semelhantes, pelo reconhecimento da dor e da arte associados a uma vida regulamentada pelo hospital-prisão. Em exposição estavam duas fotografias a preto e branco de Valentim, performando para a câmara duas cenas que de algum modo caracterizam o que teria sido o seu dia-a-dia na cela, um espaço ínfimo de alguns metros quadrados, que nós também tivemos oportunidade de visitar.

Numa dessas fotos ele está à porta da sua cela, o olhar voltado para nó acolhendo-nos como o anfitrião, num ambíguo convite a trespassar a fronteira da domesticidade, simulada na utopia de um dia a dia caseiro sabido impossível, delimitado que estava pelas normas institucionais do cárcere. Os nossos olhares encontram-se nessa interrogação sobre o que poderá ser o quotidiano de um artista vivendo sob vigilância normativa do panótico arquitectónico. Noutra foto, o olhar evita-nos pois está concentrado na tarefa do bordado, uma das suas actividades artísticas diárias, a par da confecção de bonecas de pano/trapo e da pintura. Nesse momento de criatividade, o olhar deixa de nos confrontar e convida-nos a concentrarmo-nos naquele que foi o foco do seu trabalho diário. 

Numa das suas três telas patentes nessa exposição, existe uma cena exemplar do seu estilo de pop-fantástico: uma paisagem de cores sorvete, numa estrada pontuada por tons brancos e rosa de arvores em flor e um castelo digno de disneylandia, na qual duas figuras em trajes femininos, em camisolas de gola alta, mini saias coloridas e meias brancas pelos joelhos estão entrelaçadas num abraço que as coloca de frente para o nosso olhar, mas os rostos, colados um ao outro, são indefinidos, uncanny, nem reconhecidamente raparigas nem rapazes, nem crianças nem adultas, a pose dos lábios em sorriso contrariada pelo vazio dos olhos negros, sugerindo corpos em estado de devir, de uma transgressão de potencial queer e queerizante.

Intitulámos este projecto hetero q.b. baseadas na premissa de que as sexualidades são um componente essencial do trabalho artístico e das relações de poder que se estabelecem entre as/os artistas e as instituições. As artes em Portugal são um espaço em permutação, negociável e flexível… até certo ponto, para além do qual se torna mais difícil senão impossível permeá-lo com projectos que desafiem, que vão para além das regras da hetero-normatividade. Excepcões podem às vezes infiltrar o mundo da arte, mas a hetero-normatividade continua a ser assumida como a regra dominante. Heterosexualidade é assumida como o filtro normalizante – daí o título: hetero quanto baste (q.b.). Mas também a tua contraproposta sugerida no teu texto: hetero (geneidade) q.b., tanto no museu como na vida. Ainda que possa parecer estranho dedicar um projecto com a palavra hetero (q.b.) no título e que reúne vídeos feitos por mulheres, e um artista gay como o Valentim de Barros, serve este tributo para enfatizar a perspectiva queer nas representacões dos géneros e das sexualidades que ensaiámos neste projecto. (…) – paula roush

(C) imagens: cortesia do Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado (Lisboa)

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