‘Distopia’ (Pavilhão 31)

Jorge Molder, ‘As quantidades da alma’, 2013. © Jorge Molder. Cortesia de Pavilhão 31.

12 de abril a 12 de junho de 2013 

@ Pavilhão 31 

Depois de, em 2012, ter apresentado autores consagrados com Souto Moura e Jeff Koons, que partilharam o espaço expositivo com vários artistas doentes, esta é a primeira iniciativa da programação cultural do Pavilhão 31 para este ano. 

Artistas: António Olaio, Domingos Rego, Fernando Amaro, Isabel Baraona, Jorge Molder, Pedro Saraiva, Sandro Resende e Valentim. 

Curador: Pedro Cabral Santo

“Não será que, quando Platão expulsa os poetas na República, não será que nesse mesmo acto, ele se estará a manifestar como o maior poeta, o maior artista? Não será esse o maior acto criativo?” são algumas das questões lançadas por Nuno Esteves da Silva e Pedro Cabral Santo no texto que introduz o tema da exposição, e, concluem explicando: “A presente mostra pretende ser isso mesmo. Será talvez uma doce utopia, uma simples ideia disfarçadamente complexa, mas empenhada em atingir a perfeição, uma utopia que sempre persegue os artistas, como uma droga dura, um acto desesperado de consumo de um valor absoluto? É neste contexto que evocamos a distopia”.  
E é, exactamente, sobre isso que os artistas vão reflectir na exposição ‘Distopia’Entre eles está Jorge Molder, o primeiro artista português representado na Colecção de Arte da UNESCO, ao lado de Picasso, Miró e Henry Moore, bem como em algumas das mais importantes colecções portuguesas – como a da Caixa Geral de Depósitos, da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento ou da Fundação Calouste Gulbenkian – e estrangeiras – como as do Everson Museum of Art (Nova Iorque), Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia (Madrid) ou Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.  
Local: Pavilhão 31 do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa – antigo Hospital Júlio de Matos – Av. do Brasil, 53, Lisboa. 

Sandro Resende, ‘Conselhos úteis para evitar magoar doentes com esquizofrenia’, 2013. © Sandro Resende. Cortesia de Pavilhão 31.

 
A distopia a partir da qual se constroem as desconstruções desta exposição começa logo na escolha de Sandro Resende, o director artístico do Pavilhão 31, que nesta mostra participa, exclusivamente, na condição de artista, deixando a curadoria a cargo de Pedro Cabral Santo. De salientar, a apresentação de uma obra de Valentim Barros (1916-1986), um dos doentes artistas mais emblemáticos do antigo Hospital Miguel Bombarda, que enquanto bailarino profissional actuou em vários países, sobretudo na Alemanha nazi e que faz aqui a sua primeira aparição pública enquanto artista plástico.

Domingos Rego, ‘Le vie rose’, 2013. © Domingos Rego. Cortesia de Pavilhão 31.

Distopia Visual

Podemos aprender a “ver” uma imagem recorrendo a um conjunto de dispositivos de leitura, que serão exteriores, se quisermos, ao processo perceptivo.

No entanto, essa imagem, quando percepcionada na sua imediatez, poderá aparentemente resistir enquanto experiência singular, permanecendo estranha ao contacto com os dados fornecidos por esses dispositivos de leitura. Há então uma diferença entre a leitura de uma imagem e a sua percepção.

No primeiro caso, estamos no terreno da discursividade; no segundo, no da evidência. Se levarmos essa diferença até à irredutibilidade, temos duas formas puras, sem qualquer relação. Mas as próprias condições da nossa experiência parecem negar-nos a manifestação concreta dessa irredutibilidade. Raramente contactamos com um ver puro; e uma discursividade pura já não poderia falar de nenhuma imagem – e seria talvez apenas o silêncio. (…)

António Olaio, ‘Next stop is yesterday’, 2013. © António Olaio. Cortesia de Pavilhão 31.

(..)

É então que, quando ocupados do nosso quotidiano, acreditamos na transparência do real e não questionamos a aparente paz daquilo que vemos. No entanto talvez acreditemos mais na tranquilizadora e útil ficção dessa transparência, pela qual linguagem e sensibilidade se adequam pacificamente, do que na inquietante realidade do real. E se conhecemos, ou suspeitamos, no fundo, da ficção dessa transparência, não continuaremos a acreditar que, num lugar fora do nosso espaço e do nosso tempo, ela será por fim real e total? Mas qual será a função dessa utopia – da utopia – na economia da nossa experiência? Não será ela também, a pretexto de uma aparente pacificação, mais uma arma na eterna guerra das palavras e das imagens?  (…)

– excertos do texto introdutório ao tema da exposição ‘Distopia’ por Nuno Esteves da Silva e Pedro Cabral Santo.

Pedro Saraiva, ‘Je est un autre (rimbaud)’, 2012. © Pedro Saraiva. Cortesia de Pavilhão 31.


 
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