Francis Bacon: 5 décadas

Francis Bacon, ‘Three Studies for a Self-Portrait’, (1979-80). (c) The Estate of Francis Bacon.

Até 24.02.2013 | Art Gallery NSW (Austrália)

Francis Bacon é uma figura incontornável na história da arte do século XX. As suas obras exprimem, como poucas, a tragédia da existência humana. O sentido oculto e irrepresentável do individualismo e da vida íntima. Essa representação resulta, quase sempre, numa expressão violenta e trágica.

Esse trágico sentido da existência não é um tema constante em todas as civilizações, mas sim uma condição específica do homem actual. E Bacon confrontou-o através de uma interpretação tão concreta, penetrante e verdadeira que acaba por transformar esse sentido numa inquietante realidade. O ponto de partida para a sua actividade artística foi a sua própria vida: ‘Toda a minha vida entra no meu trabalho’.

Para Bacon, a pintura não era um meio onde se possa imitar a aparente realidade mas um acto independente e artificial, emergente das necessidades mais íntimas e instintivas do indivíduo, dominadas exclusivamente pela profundidade, força bruta da expressão. Há uma renúncia à lógica natural e uma entrega às emoções, Bacon precisa de se enfurecer enquanto pinta de modo a conseguir revelar e transformar em algo compreensível o que vem do seu inconsciente: uma complexa amálgama de emoções e imagens obsessivas que o despertam.

Esta é a primeira grande exposição de Bacon na Austrália. Em mostra mais de 50 pinturas – incluindo alguns dos seus conhecidos trípticos – que abrangem cinco décadas da sua carreira. As obras provenientes de 37 colecções, incluem as da Tate de Londres, do Metropolitan Museum of Art e do Museum of Modern Art de Nova Iorque. Em exposição, também, material de arquivo do seu estúdio, em Londres, que oferece uma visão fascinante sobre o artista e o seu processo criativo.

Francis Bacon in his Studio by Prudence Cuming (c) The Estate of Francis Bacon.

Francis Bacon (1909: Dublin, Irlanda – 1992: Madrid, Espanha). Nasceu em Dublin, o segundo de cinco filhos, o seu pai era um homem autoritário e violento que se tornou treinador de cavalos após a reforma do serviço militar. A sua mãe, vinte anos mais nova que o marido, era sociável e culta. Quando começou a primeira guerra mundial, em 1914, a família mudou-se para Londres por o seu pai ter sido nomeado para o Gabinete de Guerra. Teve uma infância difícil, a asma crónica condicionou-o, de forma severa, impossibilitando-o de receber uma educação completa e normal. Cresceu em condições, relativamente, indisciplinadas e solitárias, recebendo, pontualmente, a visita de familiares maternos, cujo estilo de vida excêntrico e alegre, exerceram nele uma influência poderosa. Durante a sua adolescência reconheceu a sua homossexualidade e quando tinha dezasseis anos o pai, ao perceber, expulsou-o de casa. Foi viver para Londres sozinho, sobrevivendo em condições difíceis. O pai na tentativa de salvá-lo, daquilo que considerava um modo de vida libertino e devasso, mudou-o para Berlim, em 1927, acompanhado por um tio, o que foi totalmente ineficaz, pois dois meses mais tarde estava sozinho em Paris, onde estudou francês, pintou e sobreviveu a fazer trabalhos de decoração de interiores e desenho de projectos. Aí, visitou uma exposição de Picasso, que o comoveu profundamente. No ano seguinte, 1928, regressou a Londres, tendo começado a desenhar mobílias e tapetes no estilo modernista e iniciado, também, uma colaboração com o pintor australiano pós-cubista Roy de Maistre que o introduziu na técnica da pintura, orientando os seus estudos de arte.

Francis Bacon, 1946 Painting. Oil and pastel on linen, 6' 5 7/8" x 52" (c) 2009 The Estate of Francis Bacon/ARS, New York/DACS, London

Francis Bacon, 1946 Painting. Oil and pastel on linen, 6′ 5 7/8″ x 52″ (c) 2009 The Estate of Francis Bacon.

Em 1930, organizou uma exposição no seu estúdio, onde apresentou pinturas, uma gravura e quatro tapeçarias, em conjunto com os trabalhos de Roy de Maistre e Jean Shepeard. A exposição foi acolhida com uma indiferença total e Bacon abandonou os seus trabalhos de design e pintura. 1931, foi um ano terrível, mudou-se para Fulham Road e desencorajado pelo fracasso, retirou-se, tendo trabalhado em diversos áreas para sobreviver. Em 1933, expõe, outra vez, em Londres, numa exposição colectiva intitulada ‘Art Now’ na Galeria Mayor (a galeria de vanguarda mais importante na altura) exibe Crucificação, que Herbert Read inclui no seu livro Art Now: An Introduction to the Theory of Modern Painting and Sculpture. Um importante coleccionador de arte comprou a pintura e encomendou mais duas no mesmo estilo. No ano de 1934, expôs sozinho, pela primeira vez, mas o insucesso da exposição levou-o a abandonar, novamente, a pintura e a destruir muitos dos seus trabalhos. Em 1936, o seu pessimismo foi agravado por não ter sido convidado a expor na International Surrealist Exhibition apesar de isso se dever ao carácter histórico do tema e à diversidade do génio poético de Bacon em relação ao movimento surrealista. Em 1937, expõe na exposição Young British Painters, organizada por Eric Hall, um apreciador de arte, um dos seus primeiros admiradores e, também, seu amante durante vários anos, onde apresenta Figuras num Jardim, uma obra-prima que revela o seu génio inovador, inspirado por Picasso e Matisse. Entre 1941-43 é dispensado do serviço militar devido à asma, sendo destacado para o serviço de defesa civil, vive no Hampshire juntamente com  Eric Hall. Entre 1944-45, dedica-se de corpo e alma à pintura e é a partir desta fase que reconhece o verdadeiro começo da sua arte. Em 1945, exibe o tríptico Trés Estudos para Figuras na Base de Uma Crucificação, na Galeria Lefevre, que provocou discussões calorosas por parte dos visitantes. Seguem-se, durante 1946, uma série de exposições, cujas obras apresentadas suscitam reacções violentas mas, também, de apoio entusiástico. Nesse ano, Erica Brausen pagou 200 libras pela obra Pintura 1946, e assim, de forma inesperada partiu para Monte Carlo, onde cedeu à sua paixão pelo jogo e aí viveu até 1950, com pequenos intervalos em Londres.  Entretanto vende-se o seu quadro Pintura 1946 para o MoMA – Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Em 1950-51 regressa, definitivamente, a Londres onde ensina durante vários meses no Royal College of Art. Neste período pinta, entre outros, a série do Papa e o primeiro Retrato de Lucian Freud. Em 1952, conhece Peter Lacy, com quem inicia uma relação longa e atormentada. No ano de 1953 expõe, pela primeira vez, no exterior, em Nova Iorque. Desenvolve os retratos Três Estudos da Cabeça Humana e as séries Estudo para Retrato. Eric Hall doa Três Estudos para Figuras na Base de uma Crucificação à Tate. Em 1954, representa a Grã-Bretanha na 27ª Bienal de Veneza, em conjunto com Lucian Freud e Ben Nicholson. A primeira retrospectiva da sua obra ocorre em 1955, organizada pelo IAC – Instituto de Arte Contemporânea. Em 1956, parte para Tânger ao encontro de Peter Lacy e aí convive com William Burroughs, Paul Bowles, Allen Ginsberg, entre outros.  

Francis Bacon Three Studies for Figures at the Base of a Crucifixion 1944 (C) The Estate of Francis Bacon/ARS, New York/DACS, London

Francis Bacon Three Studies for Figures at the Base of a Crucifixion 1944. (C) The Estate of Francis Bacon.

Francis Bacon, "Head VI" 1949. (C) The Estate of Francis Bacon/ARS, New York/DACS, London.

Francis Bacon, Head VI, 1949. (C) The Estate of Francis Bacon.

1957 foi o ano da sua primeira exposição em Paris, na Galeria Rive Droit, onde apresentou Estudo para um retrato de van Gogh. No ano seguinte, 1958, foi a vez de Itália ver, pela primeira vez, uma retrospectiva sua, em Turim, Milão e Roma. Neste ano, ainda, termina a relação de trabalho com a Galeria Hanover e Erica Brausen e assina um acordo com a Galeria Marlborough. Em 1959 participa na Documenta II em Kassel e na 5ª Bienal de S. Paulo. Neste ano morre o seu ex-companheiro Eric Hall. Entre 1960-61 expôe sozinho na Galeria Marlborough apresentando 30 dos seus mais recentes trabalhos. Em 1961 fixou o seu estudio numa garagem em Reece Mews, South Kensigton, o qual se tornou o seu local de trabalho permanente, recriando o caos que necessitava para criar. 1962, mostra a sua primeira grande retrospectiva na Tate em Londres que abrange quase metade da sua obra, até ao primeiro grande tríptico Trés Estudos para uma Crucificação que foi adquirido pelo Museu Guggenheim de Nova Iorque. A exposição viajou depois para Turim, Zurique e Amsterdão. Na véspera da abertura da exposição, em Londres, recebeu a notícia de que Peter Lacy tinha morrido em Tânger. Em 1963, inicia uma relação com George Dyer que se viria a tonar uma grande fonte de inspiração. Outra grande retrospectiva, neste ano, desta vez pelo pelo Museu Guggenheim de Nova Iorque que foi, depois, exibida no Instituto de Arte de Chicago. 1964-65, pintou os trípticos Três Figuras num Quarto que foram comprados pelo Museu de Arte Moderna de Paris. Em 1965 trava conhecimento com Michel Leiris, na inauguração da exposição de Giacometti na Tate, e inicia uma amizade íntima com ele. Entre 1966-67 forma concedidas duas importantes distinções internacionais: o Carnegie Institut Award que ele recusa e o Rubens Prize que decide doar para restauros de obras de arte danificadas durante as inundações em Florença, nesse ano. 1968, exposição na Galeria Marlborough, em Nova Iorque, onde vende, na primeira semana, os 20 quadros em exposição. Em 1971, inaugura uma grande retrospectiva no Grand Palais, em Paris, onde exibe mais de 100 pinturas e 11 trípticos. No dia anterior à inauguração, George Dyer é encontrado morto no seu quarto de hotel. Em Novembro e Dezembro pinta o tríptico Em Memória de George Dyer. A sua figura e a imagem da sua morte reaparecem em muitas pinturas subsequentes. 1974 começa um relação íntima com John Edwards que retratou em inúmeros quadros e mais tarde se torna seu herdeiro.

Francis Bacon, In Memory of George Dyer, 1971. (C) The Estate of Francis Bacon/ARS, New York/DACS, London.

Francis Bacon, In Memory of George Dyer, 1971. (C) The Estate of Francis Bacon.

Em 1975 conhece Andy Warhol, numa visita a Nova Iorque aquando de uma exposição sua na Galeria Marlborough. Nesse ano permanece uma temporada, em Paris, num apartamento na Place des Vosges, o qual começa a usar periodicamente para estadias e pintar. 1977 expôe no Museu de Arte Moderna da Cidade do México. Em 1978 numa viagem a Roma conhece Balthus na Villa Medici. Expôe, também, em Espanha: Madrid e Barcelona. Durante estes anos, continuou a trabalhar, intensamente, nos temas do retrato e auto-retrato. Em 1979 morre Muriel Belcher, uma das suas melhores amigas, que tinha sido tema de numerosos retratos. 1981-83, pinta o Tríptico Inspirado por Orestreia de Ésquilo. São publicadas dois importantes ensaios sobre a sua obra por Michel Leiris e Gilles Deleuze. Entre 1985-86, segunda grande retrospectiva do seu trabalho na Tate, em Londres, que seguiu, posteriormente, para Estugarda e Berlim Leste. Nessa ocasião regressa a Berlim pela primeira vez depois de aí ter vivido em 1926. Em 1988 expõe em Moscovo. Pintou a segunda versão do Tríptico 1944 exibida, no ano seguinte, na Marlborough em Londres. 1990, viaja até Madrid para visitar a exposição de Velazquez no Prado. Nesse ano morre Michel Leiris. Em 1992 morre Francis Bacon de um ataque cardíaco, em Madrid, no dia 28 de Abril. Deixa, em testamento, o seu património a John Edwards, que doou o estúdio de Bacon e todo o seu conteúdo a Hugh Lane Municipal Art em Dublim, na Irlanda. O estúdio foi aberto ao público, em 2000, depois de restaurado. 

Francis Bacon , Self-Portrait (1973), C) The Estate of Francis Bacon.

Francis Bacon , Self-Portrait (1973), C) The Estate of Francis Bacon.

Francis Bacon, Triptych (1983), (C) The Estate of Francis Bacon.

Francis Bacon, Triptych (1983), (C) The Estate of Francis Bacon.

Bibliografia: ‘Bacon’ por Luigi Ficacci para a Taschen.

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