Vera Mota (Schema)

Vera Mota, Shema, em exposição na Appleton Square, Lisboa. Cortesia da artista e de Appleton Square

Vera Mota, Shema, em exposição na Appleton Square, Lisboa. Cortesia da artista e de Appleton Square

Appleton Square

>  5 de Janeiro de 2013

A ordem de volta ao caos

A obra de Vera Mota apresenta diferentes camadas de significação, projecta referências várias e inclui gestos distintos. Estes diferentes níveis surgem por vezes justapostos, outras aglutinados, mas são dotados de um mínimo denominador comum: o imperativo da materialidade. Os materiais emergem da obra da artista enquanto entidades autónomas dotadas de uma idoneidade generativa que auxilia, e também limita, a  acção de composição. A partir de lógicas de composição minimais, a artista apresenta meta-desenhos, que mostram as condições e as possibilidades que o desenho propicia para uma reflexão sobre o caos e a ordem. Existe na obra de Vera Mota uma intenção precisa e racionalizada, impotente perante a supremacia das qualidades (dos) materiais. Desta dinâmica relacional surgem territórios plásticos (in)voluntariamente acidentais, em que o contingente foi meticulosamente ideado.

É, portanto, numa linha de sutura entre o caótico e o ordenado, ou mesmo de uma ordenação caótica que o trabalho da artista  se inscreve. É uma obra de possibilidades múltiplas no que à relação com o espectador diz respeito, em que coabitam naturalmente uma auto-reflexividade, inevitavelmente individual, e uma propensão para a convivialidade fruitiva de materiais, signos e símbolos tacitamente aceites e reconhecidos.

Nesta exposição, intitulada “SCHEMA”, Vera Mota apresenta, exactamente, um conjunto de trabalhos que concorrem  para o entendimento desta relação entre o caos e a ordem e das suas possibilidades mútuas, assim como para uma percepção do desenho em sentido lato, enquanto acção que, quando desencadeada, produz  superfícies e dimensões aprioristicamente incógnitas. Mas se na intenção artística não existe uma ingenuidade de omnipotência, há nos vários trabalhos apresentados uma tentativa de domesticação do indómito. Os títulos das obras (e o próprio título da exposição) denunciam este exercício de ordenação e categorização, convocando aparato lexical de controlo. “SCHEMA” apresenta-se enquanto macro-enunciado da normalização, afirmando que a exposição encerra em si um propósito lógico estrutural e sistematizado, já que a instabilidade das variáveis é tida como constante na equação proposta pela artista.

Em “abcdefghijklmnopqrstuvwxyz (monocromia)”, uma grelha com pedaços de couro que lhe conferem tonalidades e brilhos distintos, assiste-se a um duplo intento de contenção do lado mais selvático do material. Por um lado, a grelha surge como uma espécie de ecrã que congrega elementos excedentários, residuais e inúteis, restos de couro, dejectos de um primeiro propósito, restituindo-lhes uma nova ordem,  (e não é a ordenação o pressuposto de uma grelha?). Por outro, adicionando a esta instância discursiva visual o título “abcdefghijklmnopqrstuvwxyz”, desvenda-se uma equivalência operativa entre ambos, insurgindo-se, título e obra, enquanto sistemas de clarificação: a ordenação de traços que transformam letras em linguagem assemelha-se ao processo organizativo subjacente a uma grelha.

Omnipresente no espaço de exibição está “Afinação de piano em Lá 440hz” , um desenho sonoro que, de forma análoga, enuncia os pressupostos do acto de desenhar. Durante cerca de quarenta minutos ouve-se a afinação de um piano, tentativa de domesticar um material, também ele sujeito a um percurso acidental, independentemente de um esforço de controlo anterior.

As obras apresentadas na exposição, no seu todo, oferecem ao espectador um desenho sinestésico fruto de uma entropia generativa que acaba por levar a ordem de volta ao caos.

Ana Cristina Cachola Novembro 2012

Vera Mota, Schema, em exposição na Appleton Square, Lisboa. Cortesia da artista e de Appleton Square.

Vera Mota, Schema, em exposição na Appleton Square, Lisboa. Cortesia da artista e de Appleton Square.

Anúncios