Carlos Correia @ Appleton Square

 

Le Plaisir au Dessin;
Le Plaisir au Dessin;
Le Plaisir au Dessin

Da remediação da aura

Entre Outubro de 2007 e Janeiro de 2008, o Museu de Belas Artes de Lyon apresentou a exposição Le plaisir au dessin. A exposição era marcada por um propósito duplo: não só a de exibir não só num mesmo espaço um conjunto de obras que privilegiassem o medium desenho, como também a de recuperação do prazer enquanto temática, tantas vezes, ausente do discurso artístico contemporâneo. Não será mera coincidência que tenha competido a Jean-Luc Nancy, filósofo de revisitações (tomem-se como exemplo as obras que dedica ao pensamento de Lacan, Kant, Hegel ou Descartes) a re-activação do tema, no principal texto do catálogo que acompanhava a exposição. Este texto, e a sua versão revista e aumentada, publicada em 2009, replicavam, numa lógica quase cacográfica, o título da exposição: Le Plaisir au dessin. Esta acção replicante propiciou, sem qualquer artifício retórico, uma validação categórica das premissas que fundeavam toda a exposição – “[…]o desenho é representado, sentido e vivido como uma compulsão, como o efeito de impulso irresistível” – para utilizar as palavras de Nancy. São estes dispositivos em trânsito, no sistema da arte, as pedras de toque para Carlos Correia. O título da exposição do artista no espaço Appleton Square – Le Plaisir au Dessin; Le Plaisir au Dessin; Le Plaisir au Dessin – sintetiza, na sua forma tríplica, a teia intrincada de elementos que antecedem a obra apresentada: uma exposição, um texto, um livro. A síntese titular, no seu ecoar intencional, não subtrai, contudo, complexidade à tese que a antecede. Num processo quase circular, Carlos Correia desenha na íntegra, página a página, o livro que encontra ascendência numa outra acção expositiva.

A exposição está patente até 5 de Janeiro de 2013 @ Appleton Square, Lisboa.

Carlos Correia, Le Plaisir au dessin, em exposição na Appleton Square. Cortesia do artista e de Appleton Square.

Carlos Correia, Le Plaisir au Dessin; Le Plaisir au Dessin; Le Plaisir au Dessin, em exposição na Appleton Square. Cortesia do artista e de Appleton Square.

A exposição, momento indelével da prática artística contemporânea, apresenta-se e representa-se aqui enquanto texto e contexto numa lógica de círculo hermenêutico. Ao desenhar (e expor) cada página do livro de Jean-Luc Nancy, integrando no texto a sua própria acção de leitor/desenhador com sublinhados e outros destaques gráficos, o artista expõe a escrita enquanto exercício performático e não apenas performatizado; o desenho enquanto compulsão, como efeito de um impulso irresistível. Na escrita, sabemo-lo, está sempre latente uma anterioridade do desenho. Ao desenho e à escrita é comum o traço. A escrita não é mais que o desenho operacionalizado que, convidando os sujeitos a uma acção continua e dialéctica de  encriptação e desencriptação, produz significados tanto abstractos quanto concretos. O desenho cumpre exactamente os mesmos predicados.O livro re-escrito, e re-humanizado por um corpo em acção, o livro desenhado, converte-se, no trabalho de Carlos Correia, em desenho escrito, impondo uma ressonância visual de objectos e momentos vários, anteriores e ulteriores. O livro, enquanto tema e objecto, não transforma, contudo, o espaço de exibição em dispositivo bibliotecar, contrariando uma qualquer prática de fechamento arquívico pois à ideia (romântica?) de desenhar um livro não subjaz, neste caso, uma intenção reprodutiva, uma acção mecânica ou manual de cópia. O exercício de Carlos Correia mostra de forma particularmente pertinente o significado e a utilidade da estratégia pós-modernista de remediação (teorizada por Bolter e Grusin) na prática artística contemporânea. A transposição  intermediática, a circulação de um mesmo “texto” em media distintos – a remediação – insurge-se enquanto forma de resistência da obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica. À remediação, por não ser reprodução, sobrevive o acto criativo único, escapando-lhe a perda da aura. A uma exposição sobrevive um livro. A um livro sobrevive uma exposição. Ana Cristina Cachola, Novembro 2012.

Carlos Correia (n. 1975, Lisboa, Portugal). 

Vive e trabalha em Lisboa.

Carlos Correia, Le Plaisir au Dessin, em exposição na Appleton Square, Lisboa. Cortesia do artista e de Appleton Square.

Carlos Correia, Le Plaisir au Dessin; Le Plaisir au Dessin; Le Plaisir au Dessin, em exposição na Appleton Square, Lisboa. Cortesia do artista e de Appleton Square.

Links:

Carlos Correia 

Appleton Square

Galeria Pedro Oliveira

Museu Belas Artes (Lyon)

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