Eu (título em construção)

> Setembro, 2015

Espaço Novo Banco (Lisboa)

Curadoria: Hugo Dinis

O Espaço Novo Banco apresenta obras fotográficas de alguns dos mais prestigiados artistas contemporâneos na exposição ‘Eu (título em construção)’.

Marina Abramovic, Helena Almeida, Vasco Araújo, Jennifer Allora & Guillermo Calzadilla, Rineke Dijkstra, Nan Goldin, Mona Hatoum, Barbara Kruger, Sherrie Levine, Martin Parr, João Penalva, Irving Penn, Richard Prince, Martha Rosler, Julião Sarmento, Cindy Sherman, Andres Serrano e Wolfgang Tillmans são os artistas representados nesta mostra, patente até setembro deste ano.

Com curadoria de Hugo Dinis, esta exposição detém-se na multiplicidade do rosto humano como forma de indagar as possibilidades de vivência e de experiências que advêm da relação direta entre os diferentes eus.

Eu (título em construção)

Nós estamos a ser observados

Vasco Araújo, Dilema, 2004

A tensão do olhar penetrante de um forcado retratado por Rineke Dijkstra (1959, Holanda) fita o espectador mais distraído confrontando-o com um perigo passado que se presentifica no momento em que os olhares se cruzam. Será ele, o forcado, que impõe esse medo? Ou serei eu, o espectador, que activo as minhas ansiedades naquela imagem passiva? Ou será a negociação entre estas duas questões em aberto que possibilita algo?

Num qualquer dicionário a palavra eu é definida como pronome da primeira pessoa do singular que representa a pessoa que fala. Contudo, o eu apresenta-se definido justamente na sua relação com o outro, que não se desvia do seu conceito intrínseco de individualidade, unicidade e originalidade, mantendo a sua exclusividade em relação às restantes pessoas. Os retratos pessoais de Julião Sarmento (1948, Portugal) identificam especificamente a pessoa, a data e o local das mulheres retratadas.

A fotografia, historicamente, tem-se revelado muito construtiva das identidades individuais e colectivas através do retrato, com especial foco no rosto, nomeadamente: auto-retrato, Marina Abramovic (1946, Jugoslávia) e Helena Almeida (1934, Portugal), apesar de não se concentrarem nesta problemática, usam o seu próprio corpo para testarem os seus limites e as suas possibilidades; retrato de família; retrato de figuras públicas, Richard Prince (1949, E.U.A.), Barbara Kruger (1945, E.U.A.) e Marthar Rosler (1943, E.U.A.) detêm-se em imagens que promovem a ascensão social através da moda, de ícones e de publicidade; ou de anónimos, amplamente difundido nos retratos de Andres Serrano (1950, E.U.A.) sobre os americanos no pós-11 de setembro e na intimidade da relação entre as diversas imagens de Wolfgang Tillmans (1968, Alemanha). Neste conjunto diferenciado de figuras humanas distinguimos, por via de códigos sociais, de linguagens específicas ou de apropriações culturais a interacção prolífera e conflituosa entre os diversos indivíduos representados e aqueles que representam, os fotógrafos ou entre os seus espectadores: evidente na encenada linguagem dos leques na obra de Vasco Araújo (1975, Portugal); na determinação social do chá na fotografia de Martin Parr (1952, Inglaterra); na estetização da imagem alternativa do trabalho de Nan Goldin (1953, E.U.A.); e na politização dos retratos estáticos de Mona Hatoum (1952, Líbano).

A ausência de um rosto identitário também pode ser reveladora de uma narrativa permissível à construção (ou, neste caso, descontrução) de um promissor conflito, como: a história enigmática da mulher de costas de João Penalva (1946, Portugal); e a história das pegadas dos activistas de Vieques, em Porto Rico, de Jenifer Allora & Guillermo Calzadilla (1974, E.U.A. & 1972, Cuba). O disfarce pode ser visto como um dispositivo que permite a edificação da uma identidade inventada ou criada, como: na máscara de futebol americano de Irving Penn (1917, E.U.A.); e na figura trágica da mulher-palhaço de Cindy Sherman (1954, E.U.A.). Na vanitas (ou vaidade) de Sherrie Levine (1947, E.U.A.) a persistência e a repetição da imagem confrontam-nos com a inevitabilidade do fim (ou morte), em que as diferenças sociais, económicas, históricas, religiosas, sexuais, culturais, raciais, entre outras, se diluem na desconfortável e assustadora confirmação da sua inexistência.

“Eu (título em construção)” detém-se na multiplicidade do rosto humano como forma de indagar as possibilidades de vivências e de experiências que advêm da relação direta entre os diferentes eus. O profícuo conflito e a plena oposição entre as criatividades individuais questionam e imanam na construção de uma identidade colectiva mais complexa e diversificada que promete, pelo menos, um outro mundo.

Hugo Dinis | Dezembro 2014

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Novo Banco

Hugo Dinis nasceu em 1977 em Lisboa. Licenciou-se em Artes Plásticas – Pintura (1998-2004) na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, e atualmente é doutorando em Estudos Artísticos na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Em 2008 comissariou a exposição coletiva “Desedificar o homem” na Galeria Municipal Paços do Concelho, Doispaços Galeria Municipal e Transforma em Torres Vedras, Portugal, como parte integrante do projeto itinerante Antena da Fundação de Serralves, Porto, Portugal. Em 2009 comissariou a exposição coletiva “A Iminência da Queda” na Galeria do Diário de Notícias, em Lisboa. Publicou diversos textos críticos sobre a obra de artistas como Vasco Araújo, João Leonardo, Pedro Gomes, João Ferro Martins, Délio Jasse e Pedro Valdez Cardoso. Entre 2008 e 2011 trabalhou na Galeria 111, onde co-coordenou a edição dos catálogos dos artistas Eduardo Batarda e Ana Vidigal. Desde 2011, trabalha na Galeria Filomena Soares, Lisboa, onde realizou exposições individuais de: Herbert Brandl, Peter Zimmermann, Slater Bradley, Jan De Cock, Didier Faustino, Pedro Barateiro, João Penalva, João Tabarra, Rui Chafes, Helena Almeida, entre outros.

O Espaço Novo Banco, em Lisboa, alberga a coleção de fotografia contemporânea do banco. Tornando, assim, acessível ao público todo esse espólio, promovendo exposições regulares e de acesso livre. São ainda promovidos outros eventos culturais, como mostras temáticas, residências artísticas, concertos e espetáculos.

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(C) Texto e imagens: cortesia de Hugo Dinis e Novo Banco, 2015.

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