Nadia Kaabi-Linke – ‘No Frills’

> 11 de Março, 2015

Cristina Guerra Contemporary Art (Lisboa)

Nadia Kaabi-Linke (Tunísia, 1978) é uma artista russo-tunisina que expõe pela primeira vez na galeria Cristina Guerra Contemporary Art, em Lisboa, após a sua primeira exposição realizada em Portugal no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa) em Maio de 2014.

A exposição “No Frills” patente na galeria é fortemente marcada por séries de imagens, desenhos, gravuras e uma escultura.

A sistematização serial das obras expostas tem uma estreita relação com o tempo, contrapondo o singular e o universal, sob uma perspectiva inscrita no seu processo de investigação que, sem pretender inventariar modelos historicistas, nalguns casos resgatados em arquivos abandonados e esquecidos (ou emudecidos), os questiona sem perder de vista o seu significado político e antropológico localizado numa época determinada, mas cujo correlato histórico percorre um arco temporal que corresponde a muitas questões com que nos confrontamos no nosso quotidiano.

Esta dimensão universal da sua obra é, neste sentido, intemporal quanto aos referentes que convoca, sem ser literal na expressão plástica e visual com que realiza as suas obras. Este procedimento abre, para o espectador, um campo de possibilidades que lhe permite relacionar uma multiplicidade de significados presentes em registos históricos diferenciados, mas associados a práticas humanas que reconhecemos na trabalhosa relação que empreendemos frente à diferença, presente em comportamentos e actos assentes em códigos que julgamos pertencerem ao passado, mas que surpreendentemente permanecem presentes.

Por outro lado, as obras de Nadia Kaabe-Linke são executadas com um apurado rigor, independentemente da técnica a que recorre, como é caso da obra “Stretched Perm” (2014). As finas linhas são impressões estampadas do seu cabelo no processo de gravura sobre papel. E aqui regressamos à forma como constrói a relação dialética entre o singular e o universal, entre o significado que o cabelo tem para todos os seres humanos e o seu cabelo que é dado à matriz da própria impressão das gravuras. Acto e gesto potencialmente políticos, no sentido em que é o seu corpo que, não servindo de modelo para a obra numa perspectiva mais passiva e contemplativa, é a matéria e o registo, se assim podemos dizer, da gravação do tempo na sua própria existência enquanto ser humano, e mulher, que se corporaliza nessa imagem que vemos aparentemente repetida na sucessão da série que prossegue, na imagem seguinte o intervalo e a sequência das imagens anteriores. Contudo, estas imagens estampadas nas gravuras trazem consigo uma outra estratificação do seu trabalho, que não se deixa prender numa mera acção de descontextualização, optando por uma sistematização do fragmento extraído do seu contexto unificador. A obra “Faces” (2014) é um exemplo cabal desta prática, revelando a recondução à identidade que o retrato individual configura na tradição ocidental. Cada imagem é um retrato, quase espectral, que deixa ainda um rasto de vida na expressão do olhar de cada um dos nativos sul-africanos. Estes, pertencentes a diferentes etnias tais como os Zulu, Basuto, Matabele ou Swasi, eram por vezes uniformizados numa imagem de conjunto, reproduzida numa espécie de poster ou fotografia de propaganda utilizada em jornais e guias das colónias inglesas, mostrados no Reino Unido. Estes indivíduos viviam na África do Sul como mineiros e participaram desta “mise-en-scene” com a finalidade de se exibirem performativamente e de obterem algum dinheiro com estas representações. Neste âmbito, os nativos representados são parte da construção propagandística que alimentou uma ficção sobre a necessidade que estes Sul-Africanos, representados como selvagens, tornar-se-iam mais civilizados partilhando a cultura, a religião e a educação que a vivência no Reino Unido glorificava como salvífica e civilizadora. As imagens da obra “Faces”, reproduzidas com a tecnologia actual, em alta resolução, mantém-se fiéis aos retratos originais e não sofreram qualquer tipo de manipulação fotográfica, estabelecendo também aqui um correlato histórico com a forma e a técnica usada na representação da diferença.

Mas o fragmento não é apenas um dispositivo instrumental no seu trabalho, é também um metáfora da memória e da presença enquanto registo dinâmico de uma ausência, seja esta factual ou interpretada como uma privação social. “Bicycle” (2015) é uma obra que tem uma grande escala de instalação na parede da galeria, como um vasto ecrã que em cada desenho a grafite sinaliza a posição da sombra de uma bicicleta, um modelo comum de tipologia feminina, estacionada numa rua de Berlim durante um dia, mais precisamente entre o nascer e pôr-do-sol. Também aqui o trabalho de Kaabi-Linke denota uma certa inquietação e uma recontextualização do que é factual e inscrito no seu trabalho. A bicicleta é identificável, o seu movimento está presente e o facto ser um objecto de uso urbano, com conotações ecológicas que tem hoje uma forte expressão civilizacional, também lá está. Mas está num modo diferido no tempo e na relação que temos com a memória visual desse objecto, que nesta obra é representado pela projecção da sua sombra que se move sob a égide do relógio solar que mede e condiciona o nosso quotidiano. O movimento da sombra desta bicicleta usada por mulheres traduz, no pensamento da artista, uma forte relação com a mudança e a transitoriedade, como uma memória activa do seu país de origem porque esta analogia com o tempo real corresponde a uma outra mudança, a transição política e constitucional que na Tunísia se presentifica pela autonomia das mulheres face ao sistema islâmico.

Estas e outras questões, como vamos observar na escultura “No one harms me unpunished” (2012), propõem-nos uma dimensão política da sua obra que não se detém perante qualquer tema ou transição dos mecanismos de poder que afectam e determinam a condição humana independentemente do seu tempo histórico. Por essa razão, a dimensão política do seu trabalho decanta e identifica símbolos e costumes que representam actos de resistência ou de opressão. Uma posição ética que revela contradições e inversões de sentido na construção histórica do mundo em que vivemos. Em “No one harms me unpunished” somos levados ao encontro de uma escultura em que reconhecemos aparentemente uma cama construída por sedimentos narrativos de outras eras, mas ao mesmo tempo simbolicamente tão presentes no seu significado. São estórias de guerra entre vikings e escoceses, são também os espinhos da coroa que castigou Jesus Cristo na cruz. A estrutura base desta escultura, o emaranhado de arame onde assenta um colchão (ou uma enxerga), remete para uma reflexão sobre os objectos que reconhecemos desde sempre, como a cama, lugar de repouso, de amor ou de morte. Esta cama pode ser afinal o espaço do devir, que na sua beleza formal se reencontra como lugar do pensamento e da reflexão das transformações socioculturais que atravessam as sociedades em plena mutação e aculturação.

Na obra de Nadia Kaabi-Linke a História é uma membrana precária e transitória que desvela os modos de viver e nos confronta com estes enquanto possibilidade de simbolizarem a submissão, a repressão ou a soberania da resistência.

João Silvério | Janeiro, 2015

(C) Texto e imagens: cortesia de Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa, 2015.

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