Detanico Lain: sobre o céu

> 7 de Março, 2015

Vera Cortês Art Agency, Lisboa

dizem que há 13 mil milhões de anos toda a matéria que hoje constitui esta página, o texto, você que o lê e quem o escreveu, o chão que pisamos e as nuvens no céu, a terra, o sol, a lua ou a mais distante estrela no universo, estava concentrada num único ponto de densidade e temperatura infinitas.

num instante este tudo que é ponto expande-se em tudo. começa o universo. e começa uma história que se desenrola até ao ponto em que seres conscientes possam escrevê-la. seres que contam, que escrevem, que descrevem. quando os nossos antepassados voltaram os seus olhos para o infinito, tentaram encontrar padrões, reconhecer ciclos, orientar-se através dos objetos luminosos que cruzavam o céu. procuraram sentido. deram nomes, ligaram estrelas em constelações de mitos, classificaram, sistematizaram, em ordem de magnitude, em ordem alfabética. e julgaram compreender.

no universo nada é fixo, tudo se move. não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio, disse heráclito de éfeso. em movimento contínuo até ao final dos tempos, tempo em que toda a matéria se dispersará num epílogo do universo. e as estrelas apagarão. e mesmo a matéria mais estável perder-se-á em partículas subatómicas.

até onde sabemos, o grego hiparco foi o primeiro a publicar um catálogo de estrelas, reunindo observações feitas desde os caldeus na mesopotâmia. a sua lista, hoje desaparecida, chegou até nós através do almagesto, uma compilação escrita por ptolomeu no século II em alexandria. ao longo do tempo, a lista transformou-se e transformaram-se os nomes, traduzidos do grego para o árabe, do árabe parao latim, do latim até nós. misturando mitos, incorporando culturas. céu de várias línguas, céu de babel.

em 1603 johannes bayer propôs um novo sistema de classificação de estrelas por ordem de magnitude. dentro de cada constelação, as estrelas seriam ordenadas seguindo o alfabeto grego, sendo alfa a mais brilhante, beta, a segunda, gama, a terceira, e assim por diante até ômega, a menos visível. céu de letras/estrelas.

se as estrelas são letras, todos os textos de todos os tempos podem ser escritos no céu. punti luminosi. infinitas combinações de um número finito de elementos. vinte e quatro. horas do dia. um dia que passa num jardim suspenso em kyoto. uma imagem básica do tempo, reduzido a zeros e uns, a sim e não, a brilho e escuridão. uma trama, um texto em branco e preto que descreve uma paisagem selecionada. no chão do jardim, pedrinhas brancas desenham círculos concêntricos que evocam o movimento de ondas na superfície de um lago, ou a infinita expansão da matéria no universo. este jardim é conhecido como o jardim das nuvens.

palavras vêm e vão como nuvens. flutuam no ar e desaparecem sem deixar vestígios. movem-se a velocidades diferentes, descrevendo o horizonte. existem no tempo e no espaço por um instante e sobre elas, o céu, no céu, a lua, crescente, cheia, minguante, nova.

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Detanico Lain

Vera Cortês Art Agency

Angela detanico (1974), Rafael lain (1973) – Caxias do Sul, Brasil. Vivem e trabalham em Paris. Respetivamente linguista e tipógrafo de formação, trabalham com os temas da escrita, leitura e tradução, seja de um media para outro, seja de um código para outro. Interessados nos limites da representação do tempo e do espaço, desenvolvem trabalhos em que cruzam poesia, som e imagem. As suas obras já foram traduzidas para diferentes línguas e contextos e exibidas em diferentes países – ccs Bard Hessel Museum (eua), Jeu de Paume e Musée Zadkine (França), Museu de Arte da Pampulha (Brasil), Centro Galego de Arte Contemporánea (Espanha), icc (Japão), malba (Argentina), Camberwell College of Arts (Inglaterra), Württembergischer Kunstverein (Alemanha) e Optica (Canadá). Recentemente, apresentaram exposições individuais no Museu Coleção Berardo, em Lisboa, no Kyoto Art Center, e na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre. Em 2007, representaram o Brasil na Bienal de Veneza e em 2004 receberam o Nam June Paik Award.

(C) Texto e imagens: cortesia dos artistas e Vera Cortês Art Agency, 2015.

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