Rui Toscano: Empire

> 17 de Janeiro, 2015

Appleton Square (Lisboa)

 

Deslizamentos de Terras e Impérios

Rui Toscano apresenta nesta individual (Empire, sublinhe-se e retenha-se o título de todo o projecto, sublinhe-se por “vontade” de Warhol e do Rui) o video “Empire” (HD, p/b, 3’23’’, do presente ano), um desenho intitulado “Empire” (realizado a partir de um slide de um conjunto oferecido por um familiar próximo, aqui uma vista “turística” desde o Empire State Building, tornado o ponto de observação do Império – decadente – sobre o seu próprio domínio) e uma série de slides da Unesco em torno do Egipto histórico, numa sobreposição de projecções de que resultará uma imagem a queimar-se com o tempo: Império americano e egípcio – curiosidades da Unesco? Voltemos ao desenho. Este, logo se depreende do título, é seleccionado de um conjunto de vistas da capital do Novo Império, imagens de outra época, porque o tempo passa e pesa sobre a capital deste já ex-Império que hoje olha para si mesmo e vê o seu desmantelamento disruptivo, todos os dias desde dentro, de Detroit a Ferguson, passando por Nova Iorque ou Berkeley………

Podemos, deste modo, olhar para esta exposição de, pelo menos, três maneiras. 1) Uma homenagem à política warholiana (o que pode parecer estranho, mas é uma evidência, a de que o artista citado no título da exposição era político) que anteviu dois factos da mais elevada importância: o seu foi o tempo da passagem de um capitalismo “aristocrático” para um capitalismo “burguês”, logo um tempo em que se concretizaria a vitória da cultura de massas sobre a vanguarda (e note-se que todo o cinema de Warhol, aqui citado, como todos os filmes “brasileiros” de 2001/2002 do Rui Toscano que, a seu modo, evocam Warhol, todo o cinema de Warhol reclama pois a vanguarda e o experimentalismo, sobretudo “Empire”); o seu, de Warhol, foi também o tempo em que o capitalismo deixou de ser a celebração da imagem viva (e Warhol, como poucos, a tudo isso se referiu) para passar à celebração de uma imagem espectral e mórbida (os filmes Empire, Sleep, Kiss, Eat, particularmente) encarnada no sempre distante, frágil, frio e fóbico Warhol, a morte já a pairar sobre o optimismo americano sem saída, agora ex-Império como nos mostram os dados frios: a economia chinesa é hoje equivalente a 90% da americana, quando em 2005 era apenas 43%. Enfim…

Digamos que o “Império” de Warhol já existia em deslizamento e este tema é o desta exposição, porque o seu objecto central, o filme (ou estranha “animação” para ver e ouvir) “Empire”, é sobretudo o foco de um descentramento ou de uma incomodidade relacional música/imagem ou imagem e realidade que nos leva a olhar para um mundo já morto e desaparecido (as Twin Towers, os logos e marcas de um tempo de “prosperidade” que não volta, e essa espectralidade é o capitalismo).

Portanto, há uma primeira leitura desta exposição, política em sentido lato, que nos faz olhar não para a capital do Império mas antes para um mundo ou uma cidade que já foi o centro do mundo desse Império. Porque hoje não há Império como houve. Antes de Thomas Piketty (Le Capital au XXIe Siècle), Negri e Hardt, com Empire, Multitude e Commonwealth, quiseram mostrar-nos que, destroçado o paradigma do estado-nação, o antigo Império da força militar e do capitalismo industrial multinacional desaparecera para dar lugar a uma planetarização do Império, de um Império sem limites ou fronteiras: o Império é o mundo inteiro porque a finança deglutiu a economia, e a finança não ocupando espaço é o próprio espaço.

A montagem alternada dos dois desenhos preto/branco do Rui Toscano, este extraordinário filme de espectros (preto/branco, positivo/negativo, vida/morte, realidade/memória – vejam-se os logos do que já não existirá mais…) que existem só como linhas e rectângulos negros (as Twin Towers são, obviamente, as suas próprias urnas), é aqui o retrato de um espaço-tempo inexistente e que duvidamos alguma vez ter existido. 2) Mas, como perante o cinema de Warhol (que coloquei sob o signo da vanguarda), também diante deste e de outros trabalhos do Rui podemos dizer estarmos num contexto de investigação do “medium”, seu ser e limites.

Diz-nos Gregory Battcock que Warhol questiona a comunicação em arte e, em particular, o movimento no cinema (que prova não ser factor essencial a esta disciplina). Desde as suas “esculturas” (serão apenas “esculturas”?) com rádios e gravadores que o Rui Toscano nos mostra as limitações do minimalismo, estética, como define Benjamin Buchloh, assexuada e pré-linguística. Mostra o Rui que o som é a carne da forma (como já lhe chamei) e, ao mesmo tempo, a arbitrariedade da linguagem (o fonema “tê” não implica a forma T, evidentemente!, mesmo tratando-se de um auto-retrato). Aqui a imagem salta e pára, os 25 frames por segundo, por vezes, suspendem-se (e um frame ou fotograma repete-se, ou seja surge duas ou mais vezes nos seus 0,0400 segundos, aproximadamente), por vezes nada se vê e a improvisação da bateria de João Correia de igual modo não é “arrumável” numa métrica obediente ao metrónomo.

Em terceiro lugar (3), terceira hipótese de leitura, sintetizando as anteriores, diria que o Rui não parte exactamente de Negri/Hardt que nos dizem não haver já “centro” e tudo é Império. Para o Rui o centro ainda é esta cidade, mas ela é já um território deslizante, à beira do seu fim. Sem apocalipse. Como num filme a preto e branco.

Carlos Vidal

+ info:

Rui Toscano

Appleton Square

(C) Texto e imagens: cortesia Appleton Square, Lisboa, 2014.

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