Sara & André: Exercício de Estilo

 > 30 de Novembro, 2014

Museu Nacional de Arte Contemporânea (Museu do Chiado, Lisboa)

Curadoria: David Santos

Sara & André andam há mais de dez anos a elasticizar os limites da sua artisticidade, reconvertendo em cada projeto o reconhecimento ou, por contraste, o dissentimento da sua condição. O que os move é, afinal, o questionamento sistemático daquilo que, apesar do jogo de fronteiras e negociações da nossa contemporaneidade, persiste em distinguir e classificar o objeto enquanto obra de arte e o artista como um ser com atributos aparentemente específicos.Conhecendo de um modo geral o campo teórico que insiste numa definição de arte (da filosofia à sociologia), esta dupla exerce o seu fascínio pela assunção das armadilhas e dos alçapões autoconscientemente desenhados no sinuoso trajeto, mantendo um ombro a ombro com essa herança teórica e os seus momentos de aparição no domínio expositivo, isto é, na pragmática da apresentação pública da obra de arte. Conscientes dos “perigos” especulativos da sua ação crítica, Sara & André trabalham sobretudo em diálogo aberto com os códigos que fundam o meio artístico, e isso significa introduzir uma reinterpretação, a partir da ampliação da noção de obra, em torno dos desvios e dos colapsos que enformam o sujeito na sua relação com aquilo que identificamos, em primeiro lugar, como o domínio da arte e o trabalho dos seus atores. O seu trabalho artístico realiza assim uma espécie de apropriacionismo conscientemente parasitário que ajuda a uma ascensão e reconhecimento junto do sistema artístico português. O seu objetivo com esta estratégia declarada desde o primeiro momento é, justamente, desenharem o caminho mais direto para a fama, esse “claim to fame” que os acompanha desde há muito e que se transfigura a cada novo projeto.

A exposição realizada por Sara & André no MNAC – MC partiu de uma outra forma de citação e homenagem a Julião Sarmento, o artista português de maior reconhecimento internacional, e hoje absolutamente consensual na receção crítica e na análise historiográfica em Portugal. Ao promover uma reinterpretação de algumas das fases mais decisivas da obra de Sarmento, a dupla Sara & André recoloca, agora no plano institucional de um museu do Estado, a premência do questionamento contemporâneo sobre a autoria e os valores a ela associados. Ao citar a obra e a autoria de um artista incontestado, eles correm o risco, calculado porém, de verem a sua própria autoria quase esquecida, numa espécie de dilema de legitimação que sempre os cativou. Entre a fama capturada do próprio prestígio de Julião Sarmento, e as acusações fáceis de plágio ou falta de originalidade, Sara & André arriscam nesta exposição uma leitura crítica que em muito se identifica com o jogo associado à sua tarefa essencial, isto é, promover uma instabilidade produtiva sobre as fronteiras e as características da singularidade autoral no contexto das artes visuais contemporâneas.

David Santos

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