Perfil de Artista: Andrea Brandão

Andrea Brandão (Vila Nova de Gaia, 1976). Licenciada em Design Industrial pela FA-UTL (2000), detém o curso de Estudos Avançados em Artes Plásticas (2007) pelo Ar.Co. Fez formação em artes performativas dentro e fora de Portugal. Obteve a nomeação portuguesa ao prémio União Latina Jovem Criação em Artes Plásticas, em 2007. Participou em festivais e exposições colectivas e individuais em Portugal, Estónia, Áustria e Brasil. Artista plástica e investigadora independente, desenvolve trabalho na área do desenho, performance, intervenções específicas e instalação. O seu trabalho explora uma noção de “processo”, procurando testar os limites de definição e de materialização da obra. Actualmente, vive e trabalha em Lisboa.

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Andrea Brandão

O meu trabalho não tem fronteiras técnicas ou formais. A pesquisa é que determina a sua materialização. Todos os meus trabalhos são compostos de muitas partes que acabam por estar unidos de alguma forma. Não são coisas auto contidas, mas antes compostas de uma infinidade de pequenas partes que constroem a peça. É como se fosse o mesmo gesto, um gesto contínuo desde o primeiro trabalho ao último. E ao trabalho que ainda está por fazer. O meu processo de trabalho é caracterizado pela sua qualidade relacional e permeável aos acontecimentos durante o processo de criação. Na verdade, desde que comecei a produzir, noto que esta noção tem-se vindo a complexificar cada vez mais neste sentido. Talvez fruto da minha formação multidisciplinar, ou talvez fruto da minha curiosidade pelo mundo em geral. Sou uma especialista em generalidades.

Andrea Brandão

Projecto Momento I – Postais enviados de São Paulo (Brasil) > Lisboa (Portugal)

Maio 

Começo

Ensaia no caderno as palavras, bebido um suco de Acaí, que irá transcrever seguidamente. Um tempo de intervalo transitório e suspenso. Simultaneamente um antes e um depois exaltam deste tempo. Nota agora a diferença subtil na sua forma de escrita desde que aqui chegou.

Acaso

It is São Paulo where I live It was

in Messias old bookshop that I came across It.

Irritação

Na praça do Patriarca está um tipo a cantar faz horas. Diria desde manhã. São agora três horas da tarde. Tudo à sua volta se mantêm como se lá não estivesse. Como de resto toda a cidade. Ninguêm pára. Para elas o som não é constante é presente. Têm uma coluna amplificadora e um microfone ambos num tripé. Uma guitarra ao ombro que não usa para tocar. No estúdio o som que se ouve da praça é constante.

Junho

Encontra

Decide percorrer essa rua até ao fim. A Major Sertório para apanhar o metro. A rua têm um ar duvidoso mas talvez seja por ser a primeira vez que a caminha ou uma combinação com o seu ar duvidoso mesmo. Duas ou três raparigas, prostitutas em português, na calçada. A rua têm iluminação mas parece escura. Até ao fim caminha e encontra o edifício Copan ao lado direito do Italia à sua frente.

Julho

Saudades

Para minimizar a falta que sinto do mar tenho ido nadar à piscina do Sesc consolação. São 25 metros para lá e 25 metros para cá. A água é aquecida a 28 graus quase 30 graus mesmo no verão ouvi dizer. O que é uma coisa estranha.

Andrea Brandão

Sobre a última exposição que realizou, excerto do texto da curadora Maria do Mar Fazenda

‘Momento I’

Sobre o percurso de Andrea Brandão sublinhamos as suas múltiplas polarizações. Da formação em design industrial: a obsessão pelos materiais, a economia do desenho, o rigor das dimensões. Da prática em desenho: a obsessão do olhar, a economia do traço, o rigor das formas. Da experiência na dança: a obsessão pelo gesto, a economia das ações, o rigor do movimento. De todas as aprendizagens, a relação com o espaço é sua força motriz. A presente exposição parte dessa experiência singular de relação com o espaço; propõe um novo mapeamento para uma arquitetura que nos é familiar (uma sala, janelas e paredes de uma galeria, etc.). As suas peças concorrem com determinadas coordenadas do mapa deste lugar. A experiência do lugar é parte integrante da produção de cada peça. E o inverso também acontece. Assim como num copo meio cheio ou meio vazio de água, o cheio e o vazio são de igual importância para cada uma das descrições. E falamos num presente contínuo. As peças, assim como o espaço onde estão expostas, têm vida. Como nós.

 

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Andrea Brandão

Publicação #1  (Exposição Momento I)

(C) Imagens: cortesia de Teresa Santos e Pedro Tropa, Hugo Rodrigues Cunha e Maria Lopes, Andrea Brandão. Direitos Reservados.

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