Filipa César

Golden Visa or the disposing of the discredited

> 11 de Outubro, 2014

Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa

É fundamental estourar o cartão de crédito da História

Filipa César apresenta uma exposição na Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa, intitulada GOLDEN VISA or the disposing of the discredited, título que remete, naturalmente, para a autorização com título homónimo de “Residência para Actividade de Investimento” em Portugal. Esta licença é dourada e exclusiva, claro. Uma das formas de se conseguir este passaporte é através de, pelo menos, um investimento em imobiliário de meio milhão de euros. E imobiliário remete para solo.

A peça central da exposição é um “filme-ensaio” – como surge definido –, intitulada Mined Soil, que se debruça sobre questões relevantes da História recente portuguesa, nomeadamente a complexa questão colonial. No filme, Filipa César surge-nos sentada diante de uma mesa de trabalho, enquanto vai procedendo a um demorado relato, inclusivamente utilizando textos de Amílcar Cabral referentes à utilização do solo. Agrónomo de formação, Cabral chegou a ser funcionário dos Serviços Agrícolas e Florestais da Guiné, antes de ser co-fundador do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), morrendo em 1973, quando, por conseguinte, a descolonização portuguesa em África estava a iniciar-se, justamente com a República da Guiné-Bissau. Junto ao ecrã onde se projecta o filme, pedaços de memória: mapas, livros, minerais, entre outros objectos.

A problemática da memória, da metodologia da História, do registo e transmissão, vai surgindo com recorrência no trabalho de Filipa César. Pensemos, por exemplo, no trabalho Le passeur (2007). A exposição em causa engloba mais imagens e objectos, inclusivamente, na abertura contou com uma performance na qual intervieram dois militares. Tudo acontecendo no espaço da galeria, que naturalmente o torna mais inquietante, dinâmico e não previsível. Mas o filão que se escolhe para esta curta reflexão é a questão da História e da transmissão no tempo e no espaço – as coordenadas históricas, digamos, por excelência. Aqui reportando-nos aos conceitos aristotélicos de medida do movimento e do lugar determinado, respetivamente, ou ainda do tempo e do espaço vivido e ocupado, se preferirmos, a ideia heideggeriana do “ser-aí” ou “ser-no-mundo”/”ser-uns-com-os-outros”, determinante do como “eu-sou” e constitutivo do “respetivamente-em-cada-momento” (Heidegger, O conceito de tempo).

O movimento historiográfico da Escola dos Annales, fundado por Lucien Febvre e Marc Bloch, em finais dos anos vinte do século passado, procurou os processos da designada “longa duração”, os quais permitiriam um nova compreensão do mundo, de maneira não positivista, e que se situou em questões e problemáticas que iam além da referência a factos políticos – primordialmente guerras e revoluções –, para incorporar na História os processos culturais, sociológicos, antropológicos, geográficos, determinantes para a construção do designado campo das “mentalidades”, numa abordagem interdisciplinar.

Nos anos setenta, a apelidada terceira geração dos Annales, tendo como protagonistas Jacques Le Goff e Pierre Nora, fundaria o movimento historiográfico da Nouvelle Histoire. Mas todos procuram perceber, de um modo intensivo e consistente, a forma, ou a fórmula, afinal, de fazer a História. Em comum encontramos a figura do historiador como o autor de um relato, consideravelmente racionalista.

Finalmente, na década de oitenta, tomava corpo a designada Micro-História, através da acção de Carlo Ginzburg e Giovanni Levi. Aparecem definidas novas espacialidades e temporalidades, mais específicas, e que talvez possamos ligar ao alegado falhanço das grandes narrativas históricas, de que nos fala, desde 1979, Lyotard, por exemplo. Privilegia-se o quotidiano, o vernáculo, o local, as figuras anónimas, determinados grupos específicos, mas procurando relacioná-los com uma problemática mais alargada. Levi utiliza a interessante metáfora do zoom da fotografia: o pormenor sempre conectado com algo bastante mais abrangente. Se preferirmos uma imagem plástica: o estabelecimento de ligação entre figura-fundo.

E voltamos ao início. Se entendemos a plasticidade – no próprio sentido visual – da História, também compreendemos a possibilidade de a História poder ser igualmente construída pelos artistas – num sentido diverso –, ao escolherem determinado aspecto como matéria orgânica para a realização de uma qualquer obra – pintura, vídeo, filme, música, obra literária. É certamente um contributo importante para a compreensão do mundo, do tempo e, naturalmente, do próprio modo de fazer a História. Tendo sempre como mote a necessidade de dar novos passos, de problematizar novos entendimentos e caminhos. Por outras palavras, é fundamental estourar o cartão – dourado ou mais banal – de crédito da História.

Isabel Nogueira

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Cristina Guerra Contemporary Art


Isabel Nogueira (n. 1974) é historiadora de arte contemporânea, professora universitária e ensaísta. Livros mais recentes: ‘Artes plásticas e crítica em Portugal nos anos 70 e 80: vanguarda e pós-modernismo’ (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013);  ‘ Théorie de l’art au XXe siècle: modernisme, avant-garde, néo-avant-garde, postmodernisme’ (Éditions L’Harmattan, 2013); ‘Modernidade avulso: escritos sobre arte” (Edições a Ronda da Noite, 2014); ‘Teoria da arte no século XX: modernismo, vanguarda, neovanguarda, pós-modernismo”, 2.ª edição (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2014).

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