Isabel Correia: Phenomena

11 de Setembro – 11 de Outubro, 2014

Galeria Diferença (Lisboa)

Inauguração: 11 de Setembro (19h)

2013 Projeto Paisagem: Phenomena

Phenomena é a natural continuação do projecto ‘Lines All-Ready There’, de 2012, que é composto por uma série de gravuras desenhadas de territórios aéreos reais e irreais. Surge um leque de novas imagens que vão povoar as paisagens de PHENOMENA: Mapas Cosmológicos antigos, imagens do Cosmos, desenhos de botânica e paisagem – onde se cruza o microcosmos do mundo próximo quase invisível e o macro cosmos longínquo quase irreal. O trabalho tem a intenção de investigar a realidade dos fenómenos nas suas três qualidades de base: impermanentes, incompletos (insatisfatórios), e insubstanciais. Pretende traçar o caminho do meio, no qual os fenómenos “nem são existentes nem não existentes; nem ambos nem nenhum deles” onde “a forma é vacuidade, e a vacuidade é forma” (1), a matéria é espaço, a aparente substancialidade é insubstancial, a ilusão do definido é indeterminado.

Esta incerteza modela o conteúdo da obra e orienta a metodologia da prática.

Os desenhos desenrolam-se, compõem-se organicamente de linhas, marcas e texturas, sinuosamente elaboradas e de traços gestualmente lavrados no terreno branco da folha de papel. Os desenhos são uma viagem não planeada, são uma escuta em que cada área, cada elemento indica a direção do próximo momento. Há um diálogo contínuo de linhas de ervas, que dão origem a manchas de vento, que se transmutam em constelações de poeiras, fundem-se em modelações aquosas, em texturas vaporosas que incidem em veios de folhas, sedimentações de rochas, que por vezes são brutalmente apagadas e suspensas num vazio de sentido, …. num novo instante, se ramificam vibrações de folhagens no grão do papel. Esta é uma caminhada de matéria e espírito, onde o espaço é o protagonista e as formas potenciam-no.

Intenção na prática do desenho

O desenho autêntico acontece quando há uma absorção no momento presente, um interesse no próprio percurso que o desenho vai esboçando á medida que se manifesta, com uma atenção silenciosa à comunicação que se desenrola entre o desenhador e o desenho, sem preocupações no resultado a atingir.

No processo de inscrição, a intenção é abandonar o quanto possível o sentido de autoconsciência composicional, os julgamentos estéticos dos resultados, deixar que a própria realidade guie o traço, saber parar quando a intenção pessoal começa a ganhar terreno e se sobrepõe ao que já está lá.

Este é um caminho de reconhecimento, é uma dança contínua de atenção ao momento presente, sem o alterar, modificar, manipular, de não perder o fio que o liga á realidade, feito de picos, quebras, paragens, destruições, começos e recomeços.

Quando desenhamos, estamos simplesmente a tentar expressar de uma forma simples a nossa experiência ‘tal como ela é’ e na nossa vida quotidiana, ‘Aquilo que é’, é uma obra de arte. (2)

2012 Projeto Mapas Aéreos: Lines All-Ready There – Found-Made Drawings

O projecto mapa aéreos: Lines all ready there – são um conjunto de desenhos em gravura, a partir de imagens aéreas de territórios imensos. A distância confere-lhes uma qualidade plástica quase abstrata no entanto real. Nestes territórios encontramos uma profusão de linhas ‘já feitas’, linhas já desenhadas na paisagem.

O trabalho consiste numa arqueologia do olhar, que reencontra e dá a ver as linhas que ‘já estão lá’. Num processo de síntese e selecção do infinitamente complexo, que se desvela á medida que vai sendo percorrido, manifestam-se linhas de força, linhas que marcam a estrutura da paisagem, marcas que modelam as correntes da água, do fogo e do vento, traços que definem fronteiras geográficas, manchas que esculpem formações geológicas.

Numa laboriosa gravação são decalcadas infinitas marcas que por acumulação ou dissipação criam manchas tonais de um desenho feito só de linhas.

A composição trilha os movimentos naturais dos percursos dos rios e mares; as modulações da erosão nas montanhas, os decalques de lava na terra. As linhas de crescimento orgânico e inorgânico das cidades fundem-se e rasgam a paisagem natural.

Estas são deambulações de territórios reais, de imagens únicas de um lugar, e delineações de territórios quase reais, de combinações e colagens de múltiplos lugares, conjugações de novos territórios, reinvenções do mundo visto do vasto espaço-céu.

Processo

A ‘natureza’ destas linhas gravadas remete-nos para algo de cruamente real, são linhas decalcadas, não desenhadas á vista. As linhas desenhadas á vista contêm um hiato de espaço-tempo entre a visão e o registo.

O espaço-tempo da linha decalcada estalece uma relação directa com o instante, com o imediato em contraste com a linha representativa registada à vista que ainda resgata o momento presente e a linha interpretativa onde mergulhamos num universo temporal distendido. O desenho de observação tem a possibilidade diagramática de navegar entre a visão directa imediata do real, e indirecta atemporal da representação, interpretação ou pura imaginação.

É nesta articulação das qualidades da linha directamente decalcada da imagem, da linha representativa feita em tempo real e da linha interpretativa no tempo distendido desta mesma imagem que reside a investigação dos desenhos Lines All-ready There.

 + info:

Isabel Correia

Galeria Diferença

Isabel Correia (1974)

Licenciada em Artes Plásticas na ESAD das Caldas da Rainha 2000. Bolseira do Programa Erasmus em Contemporary Art em Nottingham Trent University 1999. Pós-graduação em Pedagogia Perceptiva do Movimento na Universidade Moderna 2001. Formação em desenho na Escola Ar.co, Sociedade Nacional Belas Artes, International School of Art em Itália e St. Martins School em Londres. Lecionou Escultura e Gestão de Arte na Universidade de Évora 2001-2003. Fez várias formações em dança contemporânea em Lisboa e Butoh no Japão 1998-2002. Desenvolveu trabalho artístico e participou em exposições colectivas e performances em Portugal, Itália, Inglaterra e Japão entre 1997-2002. Destacando-se: 1997 Pintura Galeria ISA em Perugia Itália; 1998 Escultura Bienal da Marinha Grande; 1999 ‘Organs’ Instalação Biblioteca Notthingham Trent University Inglaterra, cenografia grupo Gaxxx Festival Sentidos Grátis Coimbra e Porto; 2000 ‘Whole Hole’ Exposição individual no Reservatório da Patriarcal Museu da Água, ‘Jubileu’ Mosteiro Jerónimos, cenografia encontros ACARTE F.C.Gulbenkian; 2001 performance ZOOM Teatro Maria Matos c/ C.E.M , ‘Tubo comunicante’ Livraria Ler Devagar, ‘Tree net’ Body Weather Farm Hakushu Japão, ‘Elements’ Die Pratze Theater companhia Atelier Beni em Tokyo Japão, ‘Blisters’ Galeria arte dos 300; 2002 ‘Asas de pó’ performance no Hospital Júlio de Matos Pavilhão 21C, ‘Duplo(s)’ na Galeria Sumo Preto, 7 lugares de contemplação CENTA Vila Velha de Rodão. Desde 2001, participa em retiros com mestres de várias tradições Budista. Em 2003, entra no retiro Tradicional de Budismo Tibetano de 4 anos até 2007. Desde 2008 é professora de desenho no Nextart – centro de formação artística.

Entre 2008-2010 co-orientou sessões de arte e meditação como professora convidada na Universidade de Lisboa, na União Budista Portuguesa e outras instituições de ensino. Foi monitora no Serviço Educativo do Museu do Oriente entre 2008-2011. Apresentou palestras sobre Arte e Meditação 2008 e Desenho contemporâneo 2011 no Nextart, Budismo e Arte Budista no Museu Oriente 2014. Actualmente investiga, ensina e trabalha na área do desenho. 


(1) “Prajnaparamita- Sutra Coração”
“O transcendente é encontrado apenas em sua manifestação no imanente, e em nenhum outro lugar”
(2) Texto inspirado nos ensinamentos do livro “Dharma Art” de Chogyan Trungpa
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