Ana Pérez-Quiroga (entrevista)

Ana Pérez-Quiroga (Coimbra, Portugal, 1960). Vive e trabalha entre Lisboa e Xangai. Tem vindo a apresentar um trabalho constituído por objectos que tem vindo a recolher desde 1998, em diversos locais. A expor desde 1999 e a trabalhar em diversos meios, sobretudo em fotografia e instalação, a prática de Ana Pérez-Quiroga tem-se centrado no encontro com objectos, assim como com situações decorridas na vida quotidiana, que são depois retirados do seu lugar de origem e recolocados num outro, normalmente no contexto artístico.

Várias dimensões coexistem neste deslocamento: a remissão a um mundo mais pessoal, íntimo e emocional, relacionado com a memória e com a lembrança; a abordagem de outras formas de representação da vida para além dos limites dos discursos dominantes; e um posicionamento crítico face ao mundo da arte e às possibilidades de representar e de ver a obra de arte.

Actualmente, encontra-se a desenvolver o doutoramento em Arte Contemporânea no Colégio das Artes, em Coimbra (no âmbito de uma bolsa de investigação da Fundação para a Ciência e Tecnologia – FCT), com um projecto que aborda a sua própria casa enquanto instalação artística.

Entrevista por Celina Brás

‘Breviário do Quotidiano’ é um projecto que desenvolves desde 1998. Com o qual tens vindo a reflectir sobre o quotidiano e os seus objectos como se se tratasse de uma arqueologia do presente. Este encontro com os objectos é paradigmático da tua actividade artística. Queres falar um pouco sobre isso?

Breviário do Quotidiano é o nome para diversos projetos, que numerei desde o #1 até ao #8 neste momento (2014), sendo o último o Breviário do Quotidiano #8 – Os regimes acumulativos dos objetos e as suas determinantes (que é também a parte prática da minha tese de doutoramento) e que pode ser visto no website http://www.anaperezquirogahome.com.

Da mesma forma que a arte é frequentemente usada como um meio de representação de ideias/conceitos/temas, as várias edições do Breviário do Quotidiano são representações da construção de sistemas mentais.

Aquilo que cada um considera o seu sistema mental é, na verdade, a assimilação de ideias que anteriormente foram pensadas por alguém e incorporadas em conceitos coletivos. Nesse sentido, Breviário do Quotidiano é uma atitude artística em torno de objetos do dia a dia, retirados do seu contexto comum, e reconfigurados de forma a permitirem novas reflexões.

Mas não são só os objetos que fazem parte deste conjunto de Breviários do Quotidiano, são também as performances e os registos fotográficos e videográficos (estes últimos reunidos sob o título Inventário Diário).

Na arte, os objetos e sistemas mentais são temas recorrentes, como o exemplo clássico de Magritte, Ceci n’est pas une pipe. No meu caso, posso apresentar dois trabalhos, a título de exemplo:

Breviário do Quotidiano #2 novíssimas aquisições (1998-2014) ongoing project, um projeto ainda em aberto, e sem fim à vista. Consiste na coleção e inventariação de objetos relacionados, de alguma forma, com os circuitos da arte e dos artistas contemporâneos, furtados por mim em museus, galerias, bares, aviões, ou outros lugares onde circulam a arte e os seus agentes.

As circunstâncias do furto têm sempre uma relação direta com acontecimentos artísticos, i.e., ideias que são partilhadas ou elaboradas, e que eu considero importante fixar para o meu futuro artístico, numa atitude de memorabilia.

A cada objecto é atribuído um número sequencial, e feito o respetivo registo numa tabela de identificação (ano, dia, mês, descrição do objecto, material, acontecimento artístico e local da recolha).

A condição para mostrar esta peça, BQ#2 novíssimas aquisições, é a sua reintrodução no circuito artístico, concretamente dentro de museus. O que lhe confere uma diferença estrutural é o ato de furtar/obter a ideia alheia e a ação de o voltar a mostrar num contexto artístico.

Ao fazê-lo, confiro-lhes um valor pessoal, de autorretrato, i.e., a objetualização da minha ação “marginal” legitimada pelo/no ato expositivo. Estas peças são como um duplo ready-made: por um lado, o objecto em si, por outro, o ato de furtar dentro do universo artístico.

Tal como as ideias, os objetos apropriados no decorrer de um processo artístico passam também a integrar esse quadro de referências pessoais. Através do furto (enquanto estratégia ou procedimento inerente a esse processo artístico), os objetos são “interiorizados” no meu corpo de obra perdendo assim a sua funcionalidade original e ganhando um outro nível de significação. Passam de objetos/função a objetos/ideias. Assim como no caso das ideias, também este novo significado/objecto já não é entendido como uma referência ou propriedade que me/nos é alheia. Foi repensado e integrado como uma legitimação de uma marginalidade.

Um segundo exemplo: Breviário do Quotidiano #6, 2000 consiste numa instalação com fotografias impressas, de grande formato, como de outdoors se tratassem.

As fotografias são de obras paradigmáticas, fotografadas em dois museus portugueses e captadas através das câmaras de vigilância. É a imagem paralela dentro do museu vista de uma única sala – a de vigilância. São composições feitas a partir de vários pontos de vista, i.e., a fotografia da obra, a fotografia de mim (enquanto artista) a olhar para a obra e por último a fotografia da câmara de vigilância que capta a artista enquanto olha a obra.

É um processo de determinantes e indeterminantes. Por um lado, a artista, no seu quotidiano particular, observa arte, vai aos museus, usa o seu aparelho mental, para interpretar a obra e/ou para se inspirar. Por outro, essa experiência única do observador é captada por uma câmara que filma e que torna a ação de observar, por parte da artista, uma banalidade antropológica. O momento da epifania perde-se, aparentemente, como se suspenso através do sucessivo captar do captar destas fotografias que cristalizam esse instante.

Voltando à tua expressão “arqueologia do presente”, gostaria de falar dos trabalhos DO IT – que são o meu modus vivendi – realizados no meu dia a dia e utilizados para ampliar o meu programa plástico: caso dos carimbos para diversas utilizações, gravação com o meu monograma de diversos objetos, i.e., diários gráficos, bloco de notas, listas TO DO.

São trabalhos que faço com uma regularidade mensal – criei uma auto disciplina para me obrigar a produzi-los. Agora mesmo estou a desenhar uma chapa para gravar com um Ex-Libris.

VILI é um outro projeto que tenho em curso para colocar nos livros e revistas que consulto em bibliotecas, mais concretamente na biblioteca de arte da Gulbenkian. Estes 4 carateres devem-se ler VI (e) LI.

No fundo, ao mesmo tempo que escolho, recolho, acumulo, catalogo, crio mapas, sigo um percurso quase arqueológico no tempo presente, mas crio, eu mesma, novos objetos que reconfiguram esse mesmo presente. Nestes trabalhos DO IT, recupero práticas caídas em desuso, gestos quotidianos, como dar um cartão de visita, marcar os livros, personalizar as camisas, criar carimbos para tudo.

O quotidiano, a arte e a felicidade são temas muito presentes no teu trabalho e o que junta tudo isto é a vida. A tua vida. O que é mais importante para ti neste acto de generosidade, de partilha com o outro?

Em geral, o meu trabalho tem uma componente autobiográfica ou autorreferencial.

Mas o projeto artístico durante o processo de criação e, depois, ao longo das suas diversas apresentações públicas, sempre nos modifica. Não ficamos os mesmos, bom, pelo menos eu não fico. Vivemos com eles mas depois ganham vida própria. Penso que o processo é muito semelhante ao das personagens literárias, em relação aos escritores.

Por isso é que as obras não são completamente autobiográficas, vão mais longe. É-me necessário ter aprendido algo de novo com este processo, senão seria muito pobre.

Em relação à felicidade que as minhas instalações contêm, são um misto de alegria e de uma certa ironia.

Por exemplo na última exposição Antes morta que burra no Museu de Arte Popular em Lisboa, apresentei uma instalação interativa que consistia em orelhas de burro em feltro, com expressões idiomáticas onde o temo burro adquiria conotações diversas e onde os visitantes podiam colocar-se, literalmente, na “pele do asno”.

No caso da peça em néon que acendia e apagava a frase – Diz que me amas, a mesma era reduzida a uma banalidade.

Da mesma forma, Amo-te não te amo – uma máquina recreativa com corações em tecido e uma luz vermelha intermitente – desafiava os visitantes a apanhar os corações por uma moeda de €2.

Gosto de pensar que o que eu faço tem também um lado de generosidade.

No museu do Neorrealismo, em Vila Franca de Xira, organizaram-se algumas visitas de seniores à minha exposição A Arte de Furtar. Muitos destes visitantes vivem em lares, separados das suas casas, mostraram alegria e uma certa nostalgia por reconhecerem muitos dos objetos, que fazem parte do Breviário do Quotidiano #2, expostos nas vitrines: “Eu também tinha um”, era a frase repetida.

Por outro lado, muitos destes objetos já não se fabricam, são objetos vulgares que, nos seus dias, eram comercializados em massa. Pensando que esta recolha remonta apenas a 16 anos, correspondendo ao meu último ano da Faculdade de Belas Artes, acaba por ser um verdadeiro catálogo de artefactos antropológicos.

A condição humana interessa-me particularmente. Na tese de mestrado que fiz, sobre Ana de Gonta Colaço, uma escultora da primeira metade do séc. XX, esse foi um dos aspectos que mais me interessou. Tinha documentos, cartas, fotografias que me permitiram trabalhar e olhar para ela de outra forma, não apenas no julgamento da sua obra plástica, mas, mais importante para mim, do seu dia a dia.

E voltamos aqui outra vez à temática do quotidiano. Esta dimensão humana foi como um ressuscitar da vida de uma outra escultora, esquecida dentro da história da arte portuguesa. A partir dos indícios disponíveis, resgatei a mulher e a artista do registo de invisibilidade onde permanecia.

Finalmente, quero ser modestamente útil. Esta ideia é também um pilar para mim, porque me traz felicidade.

Fragmentos da tua vida social são partilhados, em tempo real, através das redes sociais. Sem produção, sem preparação prévia. Isto suscita várias reflexões, no entanto, interessa-me uma ideia de liberdade que parece estar presente. Concordas?

Sim! É para mim tão importante partilhar o processo criativo como partilhar o seu resultado final. O processo criativo e o que apresento artisticamente são um todo.

A peça terminada oferece-nos uma retrospetiva emocional que já foi bastante processada, i.e., o processo artístico não é pré-determinado totalmente e portanto por um lado, perdem-se possibilidades artísticas que foram descartadas e, por outro, agregam-se momentos em ideias finais.

Por isso capturar e imediatamente partilhar esse instante conserva esses desvios: tanto o que a peça é, como o que ela não foi.

O projeto fotográfico – Instagram – intitulado Self-portrait of a female artist as part of society / Auto-retrato da artista enquanto parte da sociedade, permite-me documentar a minha realidade circundante, incluindo o meu círculo de amizades, o panorama artístico e os interesses do quotidiano. Possibilita-me, também, uma espontaneidade, uma reflexão sem muitos filtros e, como tal, uma liberdade da representação da vida.

Outra questão interessante é o facto dessa partilha não estar inserida num espaço expositivo tradicional e ser imediata. Queres comentar?

É exatamente isso que me permite essa liberdade. As plataformas digitais permitem-nos explorar novas formas, até aqui impensadas. Por exemplo, do projeto em que utilizo o Instagram e simultaneamente o Facebook para a sua difusão, (tenho cerca de 10.000 publicações) só é possível fazer uma ideia da sua dimensão, de forma rápida e economicamente viável, a partir destas plataformas.

Tive a possibilidade de mostrar 400 destas imagens, numa exposição na PT. As imagens impressas ao serem montadas na parede criaram outras narrativas, ficaram, todavia, de alguma maneira sempre aquém de uma leitura total.

O contexto social actual diluiu a fronteira entre o público e o privado. Que desafios e possibilidades trouxe este cenário (em referência à tua condição de artista)?

A tecnologia é, agora, uma parte importante das interações sociais e eu exploro este meio em projetos artísticos. Não só com os Instagram, mas também com o website que criei para o projeto Breviário do Quotidiano #8, o regime acumulativo dos objetos e as suas determinantes, uma instalação-arte interativa que pressupõe a participação do visitante.

Ao efetivar essa participação, é parte do meu mundo privado que se vai abrir ao seu olhar. Trata-se de um risco e de um desafio, onde a arte se “confunde” com a vida. A casa em que vivo serve de suporte a uma catalogação exaustiva de objetos que se encontram dentro dela, um mapear da vida quotidiana.

Este website é disponibilizado ao visitante que, ao interagir, participa nesse simulacro de vida.

Estas alterações do contexto social e da diluição da fronteira entre o público e o privado, diria que são mesmo parte fundamental do meu trabalho artístico.

Self-portrait of a female artist as part of society _ Auto-retrato da artista enquanto parte da sociedade

Sobre as várias dimensões presentes na tua obra: documental, de exercício ligado à memoria, emocional e afectiva, entre outras. Gostava que falasses um pouco deste conjunto de intenções e contaminações (e dos conflitos que daí possam advir, se for o caso).

O aspecto documental encapsula o sentimento do momento e, ao mesmo tempo, em retrospetiva, apresenta novas interpretações ou compreensões do passado.

Algumas peças são também enigmáticas, ainda não sei bem o que querem dizer ou que caminhos apontam, e é no corpo total do trabalho que se irão compreender.

Através deste tipo de trabalho é possível conjugar o reviver da emoção e ao mesmo tempo construir novos sentimentos. O resultado é, por vezes, bastante libertador e outras bastante sofrido.

Aprendo com o processo criativo. Não sou completamente conceptual, no sentido mais purista, porque tenho a necessidade imperiosa do fazer, materializar a ideia. E é o processo que está, também, ligado à intuição, fundamental para mim.

Tal como Marguerite Yourcenar afirmou, numa entrevista, a propósito do acaso, também eu acredito “nessa aceitação dos objetos dados, e da vida dada, que é preciso aceitar como nos vêm”.

Clarice Lispector deixou-nos esta reflexão lindíssima: “Ninguém me ama a ponto de ser eu”. Encontras-te nesta frase?

Claro!

Revejo-me completamente.

E sempre pensei que devia fazer uma peça em néon com esta frase. Tenho vários trabalhos em néon com frases de carácter +- provocatório /erótico. Ou ligadas a uma necessidade – amor físico – mas sempre escritas na primeira pessoa – eu – que neste caso pode ser um qualquer que se reveja no que está dito/ escrito.

Há aqui uma completa consciência de quem somos. Até se torna para mim mais poético do que a expressão “amar o outro como a si mesmo”

Mas, ao contrário da Lispector, eu não partilho da ideia de que é através do sofrimento que se encontra a felicidade.

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+ info:

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Agenda:

Pode ser vista, até ao próximo 31 de Agosto, a intervenção de Ana Pérez-Quiroga – ‘A Favor da Concórdia’ – no projecto A Montra, em Lisboa.

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