Délio Jasse | Terreno Ocupado

> 13 de Setembro de 2014

Baginski, Galeria | Projectos (Lisboa)

A terceira exposição individual de Délio Jasse na Baginski, Galeria | Projectos, ‘Terreno Ocupado’, apresenta conjuntos de imagens que recorrem a diversos processos fotográficos analógicos, explorando a natureza relacional de material de arquivo e documental, registos anónimos e diários do próprio autor.

Através de sobreposições, planificadas ou por estratos – recorrendo a transparências -, Délio Jasse coloca em diálogo temporalidades dispersas: desde imagens de edifícios emblemáticos do contexto colonial português em Luanda, de pendor modernista, às edificações que actualmente emergem no seu lugar; anónimos da época colonial, cruzados com registos presentes. A sobreposição, assente na adição de informação sobre um estado anterior, joga com o apagamento e latência do material precedente, denunciando a natureza contingente do documento e a sua permeabilidade, ligando o que era anteriormente disperso, e tornando maleável o que se entendia estável.

De acordo com Marta Jecu*, as intervenções de Délio Jasse sobre material de arquivo não diminuem o seu valor documental, antes o amplificam através do sentido relacional com que o artista o emprega. Neste sentido, as formas arquitectónicas são paradigmáticas desta fluidez de sentido, contrariando as qualidades de permanência (física e ideológica) que as orientam, estabelecendo uma relação de influências recíprocas com as comunidades locais e os contextos sociais: transformam mas também são transformadas. Este processo é manifesto nas utilizações não programadas ou vernaculares dos edifícios, pela adição de materiais efémeros e outros elementos precários, perturbando a pureza e autonomia formais, orientadoras do vocabulário modernista.

Finalmente, um núcleo de imagens activa uma zona marginal do espaço de exposição, denunciando um aspecto cada vez mais presente no trabalho de Délio Jasse, ligado à ocupação do espaço segundo lógicas de sugestão construtivista. Este dado encontra afinidade com a atitude de permanente especulação e exploração a que Délio Jasse submete a imagem fotográfica, cruzando técnicas, imagens e contextos, libertando a fotografia de suportes inertes e de rígidas hierarquias de relação e leitura, e por conseguinte, da postura contemplativa do espectador.

*Cf. Marta JECU, Open Monument – Research on Ephemeral Commemoration Architecture and Modernist Patrimony, Revolver, [Berlim], 2014

Délio Jasse (1980, Luanda, Angola) vive e trabalha em Lisboa. Nomeado para o BES Photo 2014, expondo actualmente nesse âmbito no Museu Berardo, em Lisboa e, futuramente, no Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, Brasil. Em 2009 foi o vencedor do Prémio Anteciparte, tendo exposto o seu trabalho no Museu do Oriente em Lisboa. Expõe regularmente desde 2008, destacando-se as exposições individuais Pontus e Schegen, na BAGINSKI, GALERIA/ PROJECTOS (2012 e 2010), Identidade, Causas e Efeitos, Arte Contempo, Lisboa (2010); e as colectivas Present Tense, na Fundação Calouste Gulbenkian, de Lisboa, e no Centro Calouste Gulbenkian, Paris, com curadoria de António Pinto Ribeiro; 9a Edição dos Encontros de Bamako, no Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa; Open Monument, Kunstraum Kreuzberg Bethanien, Berlim, 2013; Bamako Encounters: Pan-African Photography, Tour & Taxis, Bruxelas; Paisagem Humana#15, BES Arte & Finança, em Lisboa, ambas em 2012; a participação na Bienal de Bamako, no Mali; Parasol Project no Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian; Arte Lusófona Contemporânea, Galeria Marta Traba, São Paulo Brasil; Idioma Comum: Artistas da CPLP na Colecção Fundação PLMJ, Lisboa, (2011); A Museum is to Art what a great Translator is to a Writer, na Baginski, Galeria/ Projectos; participação na Trienal de Luanda; Vestígios, Pavilhão 27, em Lisboa (2010); INPUT, no Museu Nacional de História Natural (SIEXPO), em Luanda, Angola; Construção e Desconstrução, Convento dos Cardaes, Lisboa, em 2008. O trabalho de Délio Jasse encontra-se representado em diversas colecções privadas e institucionais angolanas e portuguesas, entre as quais se destacam a Colecção BES, Fundação PLMJ, e Sindika Dokolo em Luanda, Angola.

+ info:

Délio Jasse

Baginski Galeria | Projectos

(C) Texto: Cortesia Baginski, Galeria | Projectos. Vídeo e fotografias da exposição: Making Art Happen, 2014.

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