Mark Themann: Zone

Instalação| Performance realizada no passado dia 25 de Junho (2014)

@ Empty Cube | Appleton Square (Lisboa)

Curador: João Silvério

Colaboração: Vasco Appleton

Fotografia: Pedro Tropa

Think and roll the dice

Ao colocar uma placa com informação no interior da estrutura do EMPTY CUBE, Mark Themann inicia um diálogo inevitável com o espectador. A leitura das frases que sucessivamente vão sendo substituídas por um outro agente, um jovem que as troca segundo um determinado intervalo de tempo, não carece de uma resposta, seja esta dirigida ao artista, ou a outra pessoa que se encontre na sala da galeria, onde a estrutura arquitectónica identifica o espaço expositivo e consequentemente a existência temporária do EMPTY CUBE. Não se trata também de um posto de informação onde o artista apresenta um ou mais textos que se dirijam ao público, fornecendo-lhe uma indicação. É, ao invés, um sinal que delimita uma zona que tem uma qualidade específica. Uma zona (o título original do projecto na língua materna do autor é ZONE), como se fosse um território em que o pensamento é o sujeito de uma eventual confrontação que pode ocorrer nesse mesmo território.

É essa a sua qualidade: transformar o cubo construído, um cubo branco no seu interior, numa zona em que o acto de pensar, irreflectido ou condicionado, se encontra ou não em conformidade com a frase que identifica aquele espaço, num determinado momento, como um lugar onde o pensamento conhece um conflito entre a liberdade de pensar num espaço neutro, branco, e o paradoxo que diferentes propostas criam nesse espaço. Como por exemplo, uma  “Zona de tudo aquilo que imita o pensamento” (uma das frases que incorpora este trabalho de Mark Themann) como um lugar utópico mas que no seu limite indaga e inquieta o sujeito que lê a frase. Não há aqui uma relação directa com o outro, mas uma relação do sujeito com uma alteração de estado em diálogo consigo mesmo. Por outro lado, prosseguindo práticas artísticas (pós-)conceptuais, o artista percorre um itinerário crítico, no sentido em que trabalha com a herança da desmaterialização da obra de arte e simultaneamente com um outro legado, a ideologia do cubo branco, o “white cube” de que Brian O’Doherty foi o delator mais atento. Numa das passagens do seu livro No interior do Cubo Branco, A Ideologia do Espaço da Arte, o autor diz o seguinte: “chegamos a um ponto em que primeiro vemos não a arte, mas o espaço em si. (…) vem à mente a imagem de um espaço branco ideal que, mais do que qualquer quadro isolado, pode constituir o arquétipo da arte do século XX; ele se clarifica por meio de um processo de inevitabilidade histórica comumente vinculado à arte que contém.” Contudo, três decadas antes, John Baldessari inscreve sobre uma tela a seguinte frase: “EVERYTHING IS PURGED FROM THIS PAINTING BUT ART, NO IDEAS HAVE ENTERED THIS WORK”. Estes dois marcos históricos dão-nos uma ideia sobre o enquadramento do trabalho de Themann, seja nas suas preocupações conceptuais, seja na subtil modificação de um contexto expositivo. Qual é, então, o estatuto da obra de arte e a condição do espectador enquanto elemento essencial no interior do espaço tipificado da galeria? Por que razão um rapaz muito jovem activa a substituição das páginas cujas frases nos compelem a um momento introspectivo e filosófico?

No trabalho de Mark Themann, estas são algumas das questões que se constituem enquanto matéria do seu acto artístico, e que ocorrem na temporalidade que a performatividade da obra nos propõe compreendendo a absurdidade, a abstracção das metodologias que criam a ordem através da linguagem e que resistem nessa dualidade poética e mutante. Da mesma forma, a métrica temporal da performance é precedida por uma determinação sobre a sucessão das frases que operam sobre a condição do espaço. A substituição de cada uma das frases na frente, e no verso, desta placa informativa que em nada se parece como um equipamento museológico, foi predeterminada aleatoriamente pelo resultado do lançamento de um dado. Uma perspectiva aparentemente lúdica, mas que resgata a imprevisibilidade de uma determinação e, assim, o valor da necessidade de exercer controlo sobre uma situação e um território em que o pensamento se reencontra, testando-se enquanto sujeito que se pensa a si mesmo.

João Silvério
Junho 2014

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Os grupos de frases que integraram a performance:

Zone de tudo aquilo que foi pensado 
Zone de tudo aquilo que recusa ser pensado

Zone de tudo aquilo que não pode ser pensado
Zone de tudo aquilo que ainda falta ser pensado

Zone de tudo aquilo que pede para ser pensado 
Zone de tudo aquilo que imita o pensamento

Zone de tudo aquilo que quer ser pensado 
Zone de tudo aquilo que abole o pensamento

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+ info:

Mark Themann

Empty Cube

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© Fotografia: Pedro Tropa | Imagens e texto: Cortesia João Silvério, Empty Cube.

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Notas Texto:

1 Cf. Brian O’Doherty, No Interior do Cubo BrancoA ideologia do Espaço da Arte, Martins Fontes, São Paulo, 2007, p. 3.

2 John Baldessari’s paiting, ‘EVERYTHING IS PURGED FROM THIS PAINTING BUT ART, NO IDEAS HAVE ENTERED THIS WORK’, 60” x 45”, 1966-67

 

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