Valter Ventura: Viagem ao Fim

CCCTV (Torres Vedras)

> 31 de Julho, 2014

“Viagem ao Fim”   |  Nuno Faria

Fechei os olhos para ver. 

– Paul Gauguin

O fim é quase desde o princípio o tema da fotografia. Giorgio Agamben, num pequeno texto luminoso e sombrio, diz-nos que “a fotografia dá-nos o mundo como no dia do juízo final”. Não se referia a imagens que lidassem com qualquer catástrofe mas a uma das primeiras imagens que conhecemos, o célebre daguerreotipo que nos mostra o frenético Boulevard du Temple, em Paris, estranhamente desertificado e onde apenas podemos aperceber uma singular e solitária presença humana, um homem que se faz engraxar os sapatos. E não se referia unicamente a um final escatológico mas, verosimilmente, à definição de um espaço sem correlação temporal e de um tempo sem tempo, apesar da impassível aparência mimética. A fotografia devolve-nos, afinal, o fim como coisa banal e estranha, como revisitação, como repetição e eco de uma realidade que vemos sem conhecer ou que conhecemos sem ver.

“Agora imagino que, durante anos, senão para sempre, vou caminhar.

Só caminhar. Atravessando bosques, desertos, sem um fim.

Sem olhar para trás ou para a frente. Caminhar, somente, até ao fim da terra.” 
– Reinhold Messner

Lembrei-me das palavras de Reinhold Messner em The Dark Glow of the Mountains, o filme que Werner Herzog dedicou ao mítico alpinista austríaco, para pensar as imagens de Valter Ventura. Na realidade, não tanto para pensar as imagens mas o processo que lhes deu origem e de certa forma tudo o que está fora delas, fora do campo visual que elas definem, quando, em 2008, viajou para um ponto indefinido, para lá dos Pirenéus, com o único intuito de, no regresso, caminhar até mais não ser possível, até ao limite. As imagens que fez nessa caminhada são os únicos momentos de pausa desse percurso sem destino exacto, no tempo e no espaço, compassado pela eclosão e o ocaso da luz.

Essa viagem ao fim, para citar o título desta exposição, desenhou o mapa do programa de trabalho que Valter Ventura vem demandando na exacta medida em que colocou a questão do limite – das palavras, das imagens, da reflexão, da resistência física, da visibilidade ou da dizibilidade – como horizonte, talvez mais ético do que estético, do exercício artístico, e da repetição como modus operandi.

A repetição, fazer até ao limite, para lá do limite, é uma prática artística recorrente. No trabalho de Valter Ventura, poderíamos entender a repetição como movimento para adiante ou como tarefa existencial, no sentido kirkegariano do termo. Trata-se, percebemo-lo bem, de perceber a fotografia como o exacto ponto cego, a negação mesmo, a interrupção desse movimento para a frente que é o fluxo da vida. Como uma tarefa que convoca uma estranha percepção do mundo e de nós próprios no seu interior, a vermo-nos ver, aquém ou além do limiar em que se institui a consciência da imagem enquanto lapso ou descoincidência.

– Nuno Faria

‘Viagem ao Fim’, 2014

33 impressões a jacto de tinta
40x60cm | 27x40cm | 18x27cm
3+1PA

+ info:
(C) imagens: cortesia do artista Valter Ventura.
Anúncios