Lei de Ohm

> 8 junho, 2014

Curto Circuito – Museu da Eletricidade (Lisboa)

Curadoria: fazenda/valladares com vivóeusébio

Lei de Ohm é uma exposição que reúne o trabalho de André Cepeda, João Paulo Serafim, Margarida Correia, Renato Ferrão e Susana Gaudêncio. Estes artistas foram convidados pelas curadoras para uma residência artística no Museu da Eletricidade. A demolição de alguns edifícios históricos e a deslocação de espólios e reservas do campus do Museu da Eletricidade motivaram essa residência. Os artistas, durante o ano de 2013, visitaram os espaços, exploraram as suas potencialidades e as dos objetos e documentos neles presentes. As obras produzidas encontram-se agora expostas na Sala dos Condensadores do Museu da Eletricidade, em Lisboa, até ao próximo dia 8 de junho e foram reunidas num múltiplo com edição de 150 exemplares.
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A lei de ohm, enunciada em 1827 por Georg Simon Ohm, estabelece que a resistência com que a corrente elétrica percorre um condutor de eletricidade depende da diferença de potencial e da intensidade de corrente elétrica que passa no condutor. Assim, quanto maior a resistência de um material à eletricidade, menor corrente elétrica passa para uma mesma tensão.  A relação entre a resistência, a tensão e a intensidade de corrente elétrica, num condutor ideal, é linear, caso a temperatura não varie.

Para Memória FuturaJoão Pinharanda

Ao vermos uma exposição de grupo devemos considerar de que maneira a diversidade de modos de ver, derivada da autoridade individual de cada artista, integra a unidade do conjunto.

O Museu da Eletricidade/Fundação EDP, onde teve lugar a “residência” destes cinco artistas, bem como a subtileza das curadoras convidadas (Filipa Valladares e Maria do Mar Fazenda) garantem-nos a unidade na diversidade. Unidade de lugar e de tempo (antes da demolição de parte dos edifícios) que resistiu à fragmentação das ações artísticas desencadeadas pela multiplicidade de estímulos e solicitações proporcionadas pelo conjunto de edifícios, seus conteúdos e funções.

Os artistas foram convidados, pela dupla de curadoras, a trabalhar sobre um lugar na iminência de uma mudança radical. Os seus conteúdos (documentação, reservas, oficinas) foram provisoriamente deslocados e, parte dos edifícios, demolidos cedendo espaço a novas construções e ao lançamento de uma nova missão cultural: a de um centro de artes e tecnologias.

O modo como os cinco portfolios individuais vão ser vistos por quem habitou e habita esses espaços (por neles trabalhar, construir e concretizar os seus sonhos, por deles ter memória de alegrias e desenganos) situa-se ainda noutro nível. Vão estranhar os pontos de vista de quem chegou de fora; vão surpreender imagens que, de tão recorrentes, tinham deixado de ver; e é natural que sintam falta de outras. O público, que desconhecia os espaços de reserva, os conteúdos arquivados e as tarefas de conservação, a ideologia subjacente aos testemunhos que prenderam a atenção dos artistas, vai construir ainda uma outra narrativa.

O conjunto destes olhares, exteriores e interiores, carregados também de palavras e emoções, constrói um caleidoscópio de imagens reais e imaginadas, pressentidas e incompreendidas. Este mundo complexo foi guardado numa discreta boîte-en-valise que, funcionando como arquivo dinâmico de memórias futuras, uma vez aberta, irá funcionar como uma feliz Caixa de Pandora: libertar segredos que pedirão mais segredos – quer dizer, pedir mais e mais olhares.

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Arquivo Portátil | fazenda/valladares

Lei de Ohm reúne as obras produzidas por André Cepeda, João Paulo Serafim, Margarida Correia, Renato Ferrão e Susana Gaudêncio durante a Residência Fundação EDP no Museu da Eletricidade, que decorreu entre fevereiro e novembro de 2013.

Tendo como base a memória material, o arquivo e a história do local, assim como o momento de transformação que a Central Tejo atravessa, cada artista concebeu um múltiplo que afere a sua medida de resistência perante este património industrial, hoje.

A documentação do remanescente, o mapeamento dos lugares que guardam estes testemunhos, a contextualização destes na cultura visual, a parcialidade do registo da memória, foi o que (in)formou o repositório de enunciados de um passado recente e de um museu em devir.

Encenando um arquivo portátil (Boîte-en-valise de Duchamp) que é, em simultâneo, uma cápsula de tempo (Time Capsule de Warhol), a exposição adopta o formato de uma coleção de objetos reproduzíveis reunidos numa caixa: transformando artefactos do passado num novo presente.

André Cepeda

Sem título, objectos do arquivo, Lisboa, 2013. Lado A – mineral – electricidade / Lado B – electricidade – sangue, 2014. Inventário visual e sonoro realizado a partir de conteúdos do acervo do Museu da Eletricidade/Fundação EDP. Impressão offset sobre papel 98 X 68. Disco vinil 4’ + 4’, Ed. 150.

André Cepeda constituiu uma coleção a partir do grupo heterogéneo de objetos reunidos no acervo do Museu da Eletricidade. Restringiu as entradas deste novo arquivo a três famílias de conteúdos. Reenquadrou fragmentos da memória coletiva segundo variações transformadoras: mineral – eletricidade.

Jean-Louis Godefroid: Ao observar as tuas fotografias, reparo que são muito silenciosas, como que apartadas do ruído do mundo… André Cepeda: É no silêncio que me encontro.

João Paulo Serafim | Um certo gosto pelo silêncio, 2014

Publicação que reúne parte do levantamento fotográfico dos “bastidores” dos espaços expositivos de antigos edifícios do Museu da Eletricidade/Fundação EDP. Impressão risograph e impressão digital sobre papel, 21 X 14,8, Ed. 150.

João Paulo Serafim dá continuidade ao seu projeto fotográfico congregado no Museu Improvável da Imagem e da Arte Contemporânea (MIIAC), com a inserção de novos vestígios, ações e metáforas relativas a um museu imaginário em transformação. Empacotar conteúdos de um acervo. Inventariação. Edifícios miniaturizados. Materiais acondicionados para carga. Uma cadeira desocupada. Caixas de transporte de obras de arte. Frágil. Estantes, painéis, interruptores obsoletos. Uma porta aberta. Ligado/Desligado.

O MIIAC funciona assim como um corolário temporário de uma pesquisa fotográfica em torno da própria fotografia e da sua nova casa-mãe: o Museu. […] reforçando a miríade de papéis desempenhados pelo seu autor: ele é o fotógrafo, mas também o arqueólogo, o arquivador, o curador e o gestor das imagens ora fixas, ora em movimento. – Lúcia Marques

Margarida Correia | Tudo a electricidade, 2014

Cartaz de dupla face com vistas dos conteúdos da coleção nos antigos acervo e centro de documentação Museu da Eletricidade/Fundação EDP. Impressão offset sobre papel, 98 X 68 cm, Ed. 150.

No confronto entre os utensílios elétricos que povoam o espaço doméstico e as representações gráficas e ideológicas no contexto histórico da implementação da eletricidade, Margarida Correia prosseguiu a sua pesquisa em torno do papel da mulher no espaço social.

A artista sempre tratou do tema da memória partilhada e da memória construída pelo/no tempo longo. […] A dimensão dessa recuperação era muito pensada no feminino. – João Pinharanda

Renato Ferrão | O desperdício, 2014

Rolo de papel intervencionado por meio de “frottage térmica”. Impressões sobre papel térmico em 150 rolos, 21 X 1500.

Diferentes utensílios, fragmentos ou artefactos sem funcionalidade óbvia ganham uma nova visibilidade após a passagem por uma linha de montagem entre o positivo/negativo.

Renato Ferrão faz quase sempre peças mudas – e de algum modo inclusive relacionáveis com o cinema mudo –, reveladoras de um enorme fascínio por suportes e matérias obsoletas. […] escritórios, relógios de parede, papéis químicos, recibos, fotocópias, no fundo regulamentos e tarefas repetitivas. – Ricardo Nicolau

Susana Gaudêncio | Luz Perpétua, 2014

Edição ilustrada em seis fascículos que cruza material recolhido no centro de documentação do Museu da Eletricidade/Fundação EDP com outras referências. Impressão offset sobre papel 3 X (70 x 50), Ed. 150.

A inventariação de escritos sobre o surgimento da ideia de Luz, de testemunhos das primeiras verificações de efeitos elétricos ou de registos como o da patente de Edison da lâmpada de incandescência, informou o mapeamento da Utopia abordada por Susana Gaudêncio numa sequência de documentos que problematizam o que este paradigma tem de radical, mobilizador e transformador nas nossas vidas.

Num uso delicado de tendências estéticas e elaboradas referências políticas, Gaudêncio aborda astutamente as grandes narrativas progressistas dos pontos de vista da psicologia de massas e da tradição cultural. – Miguel Amado

+ info:

André Cepeda | João Paulo Serafim | Margarida Correia | Renato Ferrão | Susana Gaudêncio

Fundação EDP

Stet | vivóeusébio

Actividades relacionadas:

Ateliers: 17 e 24 de maio (14h30m) – Zoom – Workshop de fotografia digital

Vistas: 8 junho (11h) – Arqueologia de um espaço

 

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