Sob o Signo de Amadeo: Um Século de Arte

CAM (Fundação Calouste Gulbenkian)

> 19 de Janeiro de 2014

Curadoria: Isabel Carlos, Ana Vasconcelos, Leonor Nazaré, Patrícia Rosas e Rita Fabiana

CAM | 30 anos de exposições: 1983-2013

Sob o Signo de Amadeo: Um Século de Arte comemora os 30 anos da abertura do CAM ao público, a 25 de Julho de 1983 e apresenta, pela primeira vez, a quase totalidade do acervo de Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918). A revisitação da obra pioneira deste pintor na história do modernismo em Portugal, como aquela que teve lugar quando o CAM foi inaugurado há três décadas, celebra Amadeo enquanto referência maior da arte do século XX e âncora desta coleção, história comum que serve de leme à viagem proposta pelo CAM, percorrendo um século de arte, desde 1910 até aos dias de hoje, por uma das mais significativas coleções de arte portuguesa deste período, contendo ainda importantes núcleos internacionais, cujas primeiras históricas aquisições remontam a 1957.

Artistas

Hall: Allen Jones, António Palolo, Carlos No, Eduardo Batarda, Howard Hodgkin, João Paulo Feliciano, José de Almada Negreiros, Pedro Cabral Santo, Peter Blake, Peter Jones, Peter Phillips, Xana.

Na Primeira Sala, é estabelecido um diálogo entre a arte portuguesa e britânica, um dos focos históricos da coleção, em torno do legado da arte Pop. Na Galeria 1, foram selecionadas obras-primas da coleção do CAM, permitindo uma sinopse da arte moderna e contemporânea, desde as vanguardas históricas do futurismo e cubismo, passado pelo neorrealismo e surrealismo, seguido das neo-vanguardas, até aos anos mais recentes, e cobrindo as várias disciplinas artísticas da pintura, desenho, escultura e fotografia. Na Sala Polivalente, é exibida a coleção de filme e de vídeo, enquanto na Sala de Exposições Temporárias, um conjunto variado de obras explora tematicamente a ideia do palco e da teatralidade na modernidade. Os trinta anos de ininterrupto apoio à criação contemporânea por parte do CAM, são também celebrados nesta efeméride, com a ativação de recentes aquisições para a coleção, no caso da instalação AIROTIV de André Guedes (n. 1971) e com a encomenda de obras inéditas a dois artistas portugueses, a Rodrigo Oliveira (n. 1978), para a fachada do edifício, e a Carlos No (n. 1967), para o hall de entrada.

Artistas

Sala Polivalente: Ana Vidigal, António Palolo, Ana Hatherly, Bruno Pacheco, Fernando Calhau, Gabriel Abrantes, Jane & Louise Wilson, Noé Sendas, Rui Calçada Bastos, Rui Valério, Vasco Araújo.

Rui Calçada Bastos, ‘The Mirror Suitcase Man’, 2004, video stills. Cortesia do artista. Link do vídeo: http://vimeo.com/57058192

Sob o Signo de Amadeo: Um Século de Arte

Excertos do texto de Isabel Carlos (Directora do CAM) sobre a exposição

Nesta exposição mostra-se pela primeira vez a quase totalidade do espólio de Amadeo de Souza-Cardoso (Manhufe, 1887-Espinho, 1918), o pintor português que foi precursor do modernismo e uma das âncoras iniciais da coleção do CAM. Foi no final da década de 50 do século passado que começaram as aquisições para o que viria a ser o acervo do CAM que abriu ao público a 25 de Julho de 1983.

Sob o Signo de Amadeo: Um Século de Arte, apesar de ocupar todo o espaço do edifício do CAM, mostra somente cerca de cinco por cento da coleção numa viagem por todo o século XX. Uma viagem com portos pré-definidos: uma atenção particular à representação do corpo em ação e às obras conotadas com a performance, que é uma das linguagens mais disruptivas e significativas da passagem da arte moderna para a arte contemporânea na nave; na primeira sala, o diálogo entre a arte britânica e portuguesa, uma das especificidades desta coleção, que é apresentado com foco no registo da arte pop; na galeria 1, as obras-primas incontornáveis do acervo, que permitem uma sinopse de todo o século XX até hoje; na sala polivalente, a coleção de filme e vídeo; na sala de exposições temporárias, o palco e a teatralidade na modernidade; o grande modernista Amadeo na galeria 01. (…)

(…) Na celebração de trinta anos, para além de se mostrar o acervo quis-se também sublinhar o lugar, hoje, do museu como laboratório, espaço de criação e risco, encomendando a Rodrigo Oliveira (Sintra, 1978) e Carlos No (Lisboa, 1967), obras inéditas, respectivamente para a fachada do edifício e para o hall, (…)

Artistas

Nave: Ana Hatherly, Ana Jotta, Ângela Ferreira, Ângelo de Sousa, António Areal, António Olaio, Antony Gormley, Carlos Nogueira, Cristina Mateus, David Annesley, David Hall, Derrick Woodham, Fernando Calhau, Helena Almeida, Isaac Witkin, Jane & Louise Wilson, João Onofre, José de Guimarães, Julião Sarmento, Lourdes Castro, Marcelino Vespeira, Michael Bolus, Pedro Barateiro, Phillip King, Rui Chafes, Rui Orfão, Rui Sanches, Tim Scott, Vasco Araújo.

(…) A eleição da performance como uma das linhas de programação e reflexão deve-se ao facto de ser um registo que convoca a questão das vanguardas, já que foi no seu seio que nasceu. As vanguardas atacaram a instituição artística pelo questionamento do conceito tradicional  de obra de arte, defendendo a reintegração na arte de uma praxis vital. Ou, se quisermos, da vida e do quotidiano, tendo, por consequência, recusado a noção metafísica de artista. O conceito de vanguarda é retirado de uma determinada conceção de moderno – aquela que identifica moderno com <<não objetividade>> – e, dentro desta, a performance é sem dúvida uma radicalização na medida em que com ela termina a figuração, termina a matéria na obra de arte, constituindo-se como linguagem totalmente baseada em conceitos e ações.

A performance, do ponto de vista estritamente teórico, levanta uma série de problemas que derivam de a mesma ser atravessada por tensões (e premissas) fundamentais, que se apresentam maioritariamente como binómios: arte-vida, arte-técnica, corpo da obra igual a corpo de artista. (..)

Por toda estas razões, a performance coloca a arte num lugar incómodo, até porque, no início, fisicamente quase sempre, ela optou por um lugar incómodo – as ruas, os espaços degradados, os sítios informais -, onde performer e espectador estão em situação desconfortável, sem cena, palco ou plateia a dividi-los, expondo-se mutuamente.         

A história do conceito de performance enquanto território artístico coincide, em boa parte, com a própria história das vanguardas. De facto, os primeiros vinte anos do século XX viram surgir quase simultaneamente três movimentos artísticos que seriam os protagonistas do que mais tarde se viria a convencionar designar por <<rutura modernista>> e que alterariam completamente a configuração de toda a arte do século XX: o construtivismo, o futurismo e o dadaísmo. Futurismo que ecoa em várias obras de Amadeo e, claro, na obra de Fernando Pessoa, o poeta que Almada Negreiros (São Tomé e Príncipe, 1893 – Lisboa, 1970) imortalizou em retrato pintado em 1954 e 1964. De facto, o elogio da máquina e do movimento tem em Portugal, na poesia de Fernando Pessoa – ou melhor, na do seu heterónimo, o engenheiro naval Álvaro de Campos – e em Mário de Sá Carneiro, os maiores exemplos da manifestação da ideologia futurista na literatura. Recordem-se, então, passagens da <<Ode Marítima>> em que à exaltação da máquina se junta o uso da figura da onomatopeia (ou como Marinetti lhe gostava de chamar, da “artilharia onomatopaica”).  (…)

(..) A rutura modernista irá ainda mais longe com o urinol de Marcel Duchamp em 1917 a tornar-se obra de arte com o título Fountain, num elogio e apologia do “já feito” ou do “já pronto”: o ready-made. A noção de ready-made tornar-se-á uma verdadeira fonte de toda a produção contemporânea e será um dos conceitos mais fortemente impulsionadores e dos mais operatórios para as futuras gerações artísticas – veja-se, de Marcelino Vespeira, (Alcochete, 1925 – Lisboa, 2002) O Menino Imperativo, de 1952: um manequim cuja cabeça é um búzio, ladeado de duas velas que na primeira apresentação da escultura estavam acesas fazendo a cera escorrer pelo corpo.

No que à relação entre arte e técnica diz respeito, o conceito de ready-made é fundamental na medida em que põe em causa de um modo frontal (e radical) a questão da mão do criador, e consequentemente, a noção de “original”. A noção metafísica de arte – que fazia decorrer o valor artístico de um objeto da sua feitura manual e individualização – é completamente abalada, abrindo o campo da arte ao continente técnica. Noções como repetição, serialidade, duplicação, não intervenção direta do artista no ato de produção artística são noções que atravessarão toda a arte do século XXe que atingem um dos seus poentes máximos com a arte pop: veja-se o que fizeram os britânicos e nomeadamente Peter Philips (Birmingham, 1939) com For Men Only-Starring MM and BB em 1961; e sim, MM é a mesma Marylin Monroe que Andy Warhol, a partir de 1962, introduz com recorrência na sua obra.

Do ready-made à noção de antiarte foi um pequeno passo. Ora a noção de antiarte, bem como a série de designações e atitudes precedidas do prefixo “anti” que se lhe seguiram – o antiartista, o antigosto, o antimuseu ou a antiobra – são noções fundadoras da ideologia artística que presidiu à constituição da performance.

Assim, se é verdade que o dadaísmo e o primeiro surrealismo  – veja-se, de 1947, Rapto na Paisagem Povoada, de António Pedro (Cidade da Praia, 1909 – Moledo, 1966) – não se pautaram por um grande número de ações que possamos designar por performance, os conceitos que estes movimentos introduziram foram importantíssimos para a evolução do fenómeno daquele território criativo, designadamente, a noção de “automatismo” avançada por André Breton e a introdução dos estudos psicológicos na arte, em que a importância do sonho e dos mecanismos psíquicos da mente – veja-se de Fernando Lemos (Lisboa, 1962), a fotografia Eu (auto-retrato) de 1949-1952 – se tornarão, eles mesmos, um material utilizado pela performance, o que levou por vezes a uma falta de entendimento do processo por parte do público e da crítica, dado que o processo jogava precisamente na assistematicidade, não na narrativa, no encadeamento de temas e imagens semelhantes ao dos sonhos e ao dos incontornáveis automatismos psíquicos. Veja-se, anos mais tarde, em 1993, o aprofundamento de todas estas questões no vídeo Hipnotic Suggestion 505 de Jane & Louise Wilson (Newcastle, 1967) em que as duas gémeas artistas se submetem a uma sessão de hipnose.

Provocar o público, retirá-lo da sua postura passiva de espectador frente a um quadro pendurado na parede ou a uma escultura disposta num museu, encontrava na noção de performance a sua plena concretização. Tratava-se de inventar um novo destinatário. A noção de museu continua hoje sujeita a debate e nomeadamente se o museu de arte contemporânea deve ter uma coleção permanente ou se, pelo contrário, deve ser um espaço que constantemente procede à rotação de artistas e obras, a maior parte das vezes construídas especificamente para um determinado espaço, fazendo precisamente da adequação e do jogo com o lugar a natureza primeira da obra de arte. (…)

(..) Mas o museu deve ser também o lugar em que o artista reflete a disrupção, o caos, a violência ou simplesmente a fealdade que a vida e o mundo, lá fora, testemunha e às vezes ostenta e exibe.

Os artistas, ao tomarem essa atitude frente ao espaço do museu, o que é que procuram? Cumplicidade, ou pelo contrário, provocação ou mesmo rejeição do público? Ou ainda, simplesmente alertam-nos acerca do modo como o público, todos nós, nos devemos confrontar com uma série de problemas, sejam eles económicos, sociais, políticos ou somente artísticos?

É assim, com a coleção, mas também com interrogações, que celebramos trinta anos.

Isabel Carlos

Artistas

Galeria 1: Abel Salazar, Álvaro Lapa, Ana Vieira, António Carneiro, António Dacosta, António Pedro, António Sena, António Soares, Armando Basto, Canto da Maya, Craigie Horsfield, Cristiano Cruz, Diogo de Macedo, Fernando Lemos, Joaquim Rodrigo, Joaquín Torres-García, João Vieira, Jorge Barradas, Jorge Martins, Jorge Pinheiro, José de Almada Negreiros, José Dominguez Alvarez, José Pedro Croft, Irene Buarque, Lino António, Leonel Moura, Luís Noronha da Costa, Maria Beatriz, Maria Helena Vieira da Silva, Manuel Trindade D’ Assumpção, Menez, Michael Biberstein, Nikias Skapinakis, Paula Rego, Pedro Cabrita Reis, Pedro Calapez, Pedro Casqueiro, Pierre Soulages, Sarah Affonso, Vítor Pomar, Wolf Vostell.

Artista

Galeria -1Amadeo de Souza-Cardoso

+ info:

CAM (Fundação Calouste Gulbenkian)

30 anos de exposições: 1983 a 19931994 a 20032004 a 2013

(C) Textos: Cortesia do CAM-Fundação Calouste Gulbenkian, 2013-2014.

(C) Imagens da exposição ‘Sob o Signo de Amadeo – Um Século de Arte’. CAM-Fundação Calouste Gulbenkian, 2013-2014. Fotografias da exposição José Soveral – Making Art Happen, 2014, excepto ‘The Mirror Suit Case Man’, Cortesia do artista Rui Calçada Bastos.

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