Pedro Magalhães: Lluvia, vapor y velocidade

> 05.01.2014

Espazo Miramemira (Santiago de Compostela – Espanha)

Curadoria: “Os Tres” (Jorge Varela, Misha Bies Golas e Ángel Calvo Ulloa)

As imagens da série que Pedro Magalhães apresenta nesta exposição são uma clara mostra da frescura e da falta de prejuízos de uma fotografia etiquetada como vernácula. As imagens das férias, das reuniões familiares ou, como neste caso, os registos que vão diretos para companhia seguradora.

Sucessoras naturais da série sobre tuning, mostrar o desastre é basicamente dar duas visões do mesmo tema. Jovens seduzidos pela máquina, certamente mais identificados com o carro de corridas do que com a Victoria de Samotracia. Futuristas por acidente e envolvidos de corpo e alma nesta nobre causa do motor.

‘Todo destino es dramático y trágico en su profunda dimensión. Quien no haya sentido en la mano palpitar el peligro del tiempo, no ha llegado a la entraña del destino, no ha hecho más que acariciar su mórbida mejilla. – José Ortega y Gasset. La rebelión de las masas

Texto de Ángel Calvo Ulloa

Grita uma pintura de Turner da parede da National Gallery. Chuva, vapor e velocidade. E não é necessário ir tão longe porque o diria qualquer mãe: Não te faças à estrada com esta chuva, que qualquer dia temos um desgosto. Procuramos referentes quando Pedro Magalhães nos mostra as imagens retiradas do seu álbum de família. As fotografias que sempre se fizeram com a compacta lá de casa, a de todos, para participar ao seguro o choque sofrido pelo utilitário.

Levantar a vista e passar os olhos pela biblioteca. Há sempre um assunto que nos escapa –escapam-nos muitos quando andamos à volta do mesmo – e efetivamente nenhum livro nos dá nada que, a priori, brilhe a partir da lombada. Geralmente, esses são os textos que dão mais luta, e os que, no final, nos deixam um gostinho especial. Quando não esperamos nada, o mínimo sinal pode revelar-se decisivo.

As instalações de Pedro Magalhães podem lembrar-nos Wolfgang Tillmans, sem dúvida; mas não estamos aqui para discutir isso. Quando observamos atentamente as imagens de fenómenos fã que o artista realiza, ou das concentrações de carros tuning, encontramos um filão a meio caminho entre o kitsch e a realidade mais crua. Jamais alcançará os limites de alguns, nem a amabilidade de outros. O seu retrato não dignifica, o seu retrato fala-nos de elevados níveis de pobreza de espírito. Portugal é um país de contrastes, basta percorrer a cidade do Porto de carro para passar de zero a cem. Pedro Magalhães e os seus não pretendem seguir essa linha elitista que a arte portuguesa nos tem mostrado nos últimos anos. Quando te esforças em olhar para o outro lado, no final alguém tem que tratar do lixo.

As imagens da série apresentada por Pedro Magalhães são sinais claros de frescura e da falta de preconceito de uma fotografia etiquetada como vernacular. As imagens das férias, as reuniões de família ou, como neste caso, os registos que vão diretos para a companhia seguradora. Vale a pena lembrar as imagens retiradas dos arquivos de uma famosa seguradora que Peter Piller utilizou no seu trabalho, imagens que já foram tiradas, mas das quais ainda se pode retirar muito mais. Dirá Gerhard Richter que algumas fotografias de aficionados são melhores que o melhor Cézanne. Não nos vamos escandalizar agora, ouvimos coisas piores diariamente. No entanto dá que pensar que a fotografia, uma disciplina artística de tão curto percurso, tenha criado uma imensa terraplanagem entre o profissional e o amador. Parecia que o cinema o tinha mais claro, no entanto a democratização dos equipamentos de gravação converteu os nossos telemóveis numa fabrica de imagens. É terrível. Jean-Luc Nancy diz que todas as imagens provocam a mesma reação, lutam ou chocam contra nós, espatifam-se como o carro de Charon – referindo-se ao vídeo de James Coleman. Robert Rauschenberg é, à margem da fotografia, uma referência clara quando observamos estas instantâneas tiradas pela família de Pedro Magalhães. Mas também Andy Warhol, quem elevou a imagem de um acidente a clássico da arte da segunda metade do século XX. Sobretudo quando precisamente no dia em que se escrevem estas linhas sai a notícia da sua venda em leilão por um preço impronunciável.

Sucessoras naturais da sua série sobre o tuning, mostrar o desastre é basicamente dar duas visões de um mesmo tema. Jovens seduzidos pela máquina, certamente mais identificados com o carro de corridas do que com a Victoria de Samotracia. Futuristas por acidente e envolvidos de corpo e alma nesta nobre causa do motor.

Também não podemos deixar de lado um Martin Kippenberger acidentado em diálogo com a juventude, e ainda mais marcante a caída de um mito como Ayrton Senna no Grande Prémio de San Marino de 1994. A arte é sem duvida um murro, uma cacetada que nos deixa atordoado e do qual se sai vivo ou morto.

Ángel Calvo Ulloa

Pedro Magalhães (Porto, 1975) centra a sua prática artística maioritariamente na fotografia. O seu trabalho recente foca diferentes aspectos da cultura popular, ou subcultura e é o resultado da investigação e trabalho de campo sobre atividades amadoras como a Patinagem Artística ou o Car Tuning. Também tem utilizado fotografias da sua vida quotidiana para construir narrativas que exploram conceitos de memória. Pedro Magalhães tem exposto em diferentes galerias em Portugal e Inglaterra. Algumas das suas exposições mais significativas são “P’s Correspondence”, na Selma Feriani Gallery, Londres, 2012, “the low ride pleasure”, na Galeria Nuno Centeno, Porto, 2011 ou “lutz-ritberg-euler-salchow”, na Galeria Reflexus, Porto, 2009.

+ info:

Pedro Magalhães

Espazo Miramemira

(C) Imagens da exposição ‘Lluvia, vapor y velocidade’, de Pedro Magalhães no Espazo Miramemira, Santiago de Compostela, Espanha. Cortesia do artista.

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