Ângela Ferreira | Entrer dans la mine

> 30.11.2013

Uma instalação de Ângela Ferreira, com curadoria de Jürgen Bock, para a Bienal de Lubumbashi (República Democrática do Congo).

Durante a década de 1920, no período pós-revolucionário, o movimento artístico dos construtivistas russos apelou à unidade entre o social, o político e a arte. A “modernidade” ocidental, cujas conquistas na arte e na arquitetura foram fortemente impulsionadas pela noção de utopia em relação à emancipação do homem, foi, no século XX, imposta nas colónias segundo modelos retirados dos discursos vanguardistas que instigaram as suas formas na Europa.

A instalação “Entrer dans la mine”, que Ângela Ferreira apresenta em Lubumbashi tem como principal componente uma escultura “moderna” de madeira clara instalada na parte superior do edifício do posto de combustível GPM, na Avenida Munongo, no centro colonial da cidade. O edifício, desenhado pelo arquiteto belga Claude Strebelle, é um paradigma da arquitetura que as diferentes potências coloniais europeias disseminaram por todo o continente africano, em particular durante a década de 1950. Atualmente, a discussão em torno desta arquitetura oscila entre os conceitos de “herança comum” e de “arquitetura dissonante”.

Na instalação de Ferreira, a arquitetura modernista de Strebelle, erguida com materiais de construção considerados contemporâneos no seu tempo e com uma fachada cuidadosamente desenhada, torna-se no pedestal para a escultura. A escultura, por sua vez, evoca o construtivismo russo, nomeadamente o projeto nunca concretizado de Vladimir Tatlin para o monumento à Terceira Internacional, a associação internacional de partidos comunistas nacionais, fundada em 1919 na União Soviética. Ferreira “converte” o monumento de Tatlin numa escultura que “cita” explicitamente a sua característica mais distinta, a inclinação de 23,4º, que é uma referência à inclinação do eixo da Terra e simboliza o universalismo de todos os objetivos utópicos por alcançar.

A escultura será “inaugurada” com uma performance em que é apresentado o poema/canção “Je vais entrer dans la mine”, escrito e cantado na antiga linguagem predominante na região, o Bemba. A letra fala de um homem que escreve à mãe sobre os seus medos em relação à morte, por ter sido forçado a entrar nas minas. A performance será filmada e apresentada durante a Bienal num ecrã instalado na vitrina do posto de combustível GPM.

A partir da estadia de Ângela Ferreira na República Democrática do Congo, será desenvolvido um novo trabalho em Lubumbashi e Lisboa para ser apresentado numa exposição da artista no espaço Lumiar Cité, durante a Primavera de 2014.

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Maumaus | Escola de Artes Visuais

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