José Loureiro | Ouriços

Cristina Guerra Contemporary Art (Lisboa)

> 13 de Novembro (2013)

Inauguração: 10.10.2013 (22h)

“Hoje, fiquei-me por uma única pincelada vermelha, bastante larga e longa; uma carga de trabalhos só comparável aos doze trabalhos de Hércules. Estas pinceladas lembram grandes barcos com peso excessivo à popa, que arriscam ir ao fundo logo ao zarpar, mas que finalmente seguem caminho”. Escrevi isto a um amigo, num e-mail recente, contando-lhe o que andava a fazer (um pequeno excerto de um relato mais longo). Começo por me citar, porque estas palavras correspondem com alguma exactidão ao que agora mostro.

Cada uma das pinceladas parte de um sítio particular, distinto de todos os outros, e a dimensão que atinge depende materialmente do lastro de pigmento e óleo que carrega. O preto é importante porque se comporta como um catalisador; por exemplo, quando se aproxima tangencialmente de um vermelho, aviva-o, tornando-o mais vermelho ainda. Este vermelho — poderia estar a falar de qualquer outra cor — é mais intenso ao centro e esbatido nas margens, formando quase um halo. Estas cores, apesar de aparentemente quietas nos seus lugares, flutuam e nunca chegam verdadeiramente a tocar-se, mesmo quando se cruzam.

Cor e pincelada são uma entidade única, indestrinçável. Por isso, há tempo e duração, princípio e fim. É entre esses dois pontos, numa escala que pode ir do desastre à epifania, que tudo se joga. As cores são servidas em tubos que vamos comprar à loja. Abrimos um desses tubos e ficamos radiantes com o que vemos. Percebemos depois que as cores são como baluartes pontiagudos, fechados sobre si próprios, que só podem ser tomados de assalto com um tremendo esforço. Nem sequer temos nomes exactos para elas, apesar de  virem perfeitamente etiquetadas. A uma cor, basta mudar de sítio para deixar de ser a mesma. As cores comunicam umas com as outras num código indecifrável, impenetrável ao mais potente algoritmo. São escorregadias como enguias, picam como ouriços. Nunca descobriremos a Pedra de Roseta das cores.”

– José Loureiro

José Loureiro nasceu em Mangualde em 1961. Vive e trabalha em Lisboa.
Elege, como momentos marcantes da sua formação artística, duas leituras: o poema Deslumbramentos de O Livro de Cesário Verde, de Cesário Verde; e o capítulo de Guerra e Paz, de Lev Tolstoi, onde é narrada a batalha de Boronidó. Actualmente, toda a sua vida gira em torno de três palavras: priolo, filamento e aro.O artista está representado em diversas colecções públicas e privadas, nacionais e internacionais, das quais se destacam Fundação de Serralves, Porto, Portugal; Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão – Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa; Colecção Caixa Geral de Depósitos, Lisboa, Portugal; Colecção Berardo, Lisboa, Portugal; Colecção António Cachola, Elvas, Portugal; Museu de Arte Contemporânea do Funchal, Madeira, Portugal; Fundação Leal Rios, Lisboa, Portugal; Centre Pompidou – Museu Nacional de Arte Moderna, França; Fundação de Arte Contemporânea Daniel & Florence Guerlain, Les Mesnuls, França; European Investment Bank, Luxemburgo; European Patent Office, Munique, Alemanha; European Central Bank, Frankfurt, Alemanha; Hiscox, Londres, UK.

imagem e texto: cortesia de Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa, 2013.

+ info:

Cristina Guerra Contemporary Art

Anúncios