Julião Sarmento | INDEX

vista da exposição 'Index' de Julião Sarmento no MACE. Imagem cortesia: Museu de Arte Contemporânea de Elvas, MACE, 2013

vista da exposição ‘Index’ de Julião Sarmento no MACE. Imagem cortesia: Museu de Arte Contemporânea de Elvas, MACE, 2013

> 31 de Dezembro (2013)

MACE – Museu de Arte Contemporânea de Elvas

Curadoria: João Silvério

A exposição de Julião Sarmento, a primeira exposição monográfica de um artista no MACE, surge a partir de um conjunto de 75 fotografias da sua autoria, que integram a Coleção de Arte Contemporânea António Cachola e permite percorrer a sua obra num arco temporal que se situa entre 1968 e 2013.

O título, “INDEX”, convoca o arquivo auto-referencial do artista, confrontando-nos com o imaginário individual e o reencontro com o imaginário coletivo, numa constante recomposição do olhar que integra o fragmento e a revisitação de imagens, referências e procedimentos que se inscrevem numa lógica cinematográfica que transita sucessivamente entre o que é visível e o que é o vestígio da sua própria visibilidade.

As obras expostas incluem algumas inéditas, como uma nova peça de Julião Sarmento (criada em 2013), uma performance concebida expressamente para a exposição que foi apresentada no momento da inauguração e se constitui como um índice do sistema de relações que a sua produção artística configura entre a performatividade do corpo e a intertextualidade da imagem como possibilidade da representação.

INDEX: arquivo e alteridade

Todo o saber nasce da separação, da delimitação, da restrição, nenhum saber absoluto de um todo! (1)

Na prática artística de Julião Sarmento emerge uma necessidade constante de recompor o universo visual e poético que a constitui. Esta sensação de re-composição do olhar, de regressar à sua obra, prende-se ao reconhecimento da imagem e do signo como elementos matriciais que são permanentemente sujeitos a uma segunda leitura, provocada por uma capacidade que o autor revela na revisitação do atlas que acrescenta e reconstrói. A aproximação à sua obra determina, em cada sujeito, uma miríade de projecções e sensações – muitas vezes ambíguas – que oscilam entre o encontro com a intimidade individual e o reencontro com o imaginário colectivo. Este imaginário reencontrado, enquanto acontecimento e experiência estética da obra, compreende uma amplitude que se desenvolve nos interstícios da pintura, da fotografia, do cinema, da literatura ou da teoria do pensamento estético, e conhece a ultrapassagem do seu próprio limite na incorporação da fronteira que estabelece com as suas vivências pessoais.

É sobre este campo de observação, e de reflexão, que se constitui um arquivo auto-referencial que o artista percorre sem obedecer a uma ordem, ou a uma hierarquia, temática que é independente da recuperação e reintrodução de imagens, textos e signos que o seu trabalho integra (2). Esta ideia de arquivo, lato sensu, encontra na obra de Sarmento uma condição exógena, presente na forma como o seu olhar se institui como um ponto de vista que se exterioriza, mas selecciona e transforma a partir de dentro. Como se este olhar fosse o epicentro de um índice panóptico onde todas as referências são possíveis, mas em que a revelação destas, enquanto acto artístico, é sujeita a uma dissecação que  expõe o fragmento, ou o vestígio, e a uma singular noção da espacialidade demarcada pela consciência da corporalidade enquanto arquétipo do seu estado transitório entre o que é visível e o que é a memória e o registo da sua presença, por vezes dúplice.

O arquivo do artista é então uma pré-existência nas relações que estabelece na sua vasta e diversificada obra, um lugar de referência com uma espacialidade própria, tomando aqui o sentido que Derrida lhe atribui: “le sens de «archive», son seul sens, lui vient de l’arkheîon grec: d’abord une maison, un domicile, une adresse, la demeure des magistrats supérieurs, les archontes, ceux qui commandaient. (…) les archives ne pouvaient se passer ni de support ni de résidence” (3).  Assim, é a partir do seu arquivo de imagens, como um índice relacional, que surge na Colecção António Cachola a aquisição de um conjunto de 75 fotografias, anteriormente seleccionadas por Sérgio Mah sob o título “75 Fotografias, 35 mulheres, 42 anos”. Este conjunto de imagens já foi objecto de várias exposições e está editado num catálogo com o mesmo título que inclui um ensaio do curador, que a dado passo refere o seguinte: “As imagens aqui reunidas não constituem propriamente uma série, também porque nunca foram feitas nem pensadas enquanto tal. A sua aglomeração foi inicialmente motivada pela necessidade de corresponder a um projecto expositivo, que desencadeou uma pesquisa exaustiva e criteriosa sobre o arquivo fotográfico de Julião Sarmento, um arquivo que reúne todo o tipo de fotografias e de assuntos, desde situações da vida privada até imagens relacionadas com a sua actividade artística.”(4)

Este conjunto de 75 imagens gera um novo projecto expositivo para o Museu de Arte Contemporânea de Elvas, que acolhe a Colecção António Cachola, e é um dos pontos do eixo estrutural desta exposição, que percorre um arco temporal situado entre 1968 e 2013. No extremo desse eixo situa-se uma obra inédita, concebida especificamente para a exposição: uma performance. A selecção das obras construiu sobre si mesma um outro índice, publicado na sua totalidade no catálogo da exposição – um projecto gráfico autoral concebido por Pedro Falcão – e que presentifica, independentemente das obras expostas, uma revisitação sobre a produção do autor, sem a intenção de retribuir uma visão retrospectiva da sua obra (essa, apresentada no Museu de Serralves, em 2012), mas perscrutando obras que expressam uma forte necessidade experimental, situando-nos sobre a diversidade de meios e de contextos que Sarmento assumiu desde muito cedo, bem como sobre a serialidade que desenvolveu, de forma mais intensa, num continuado processo de edições (em prova única ou em múltiplo numerado), que compreendem a produção de fotografia, gravura, serigrafia, ou o som, presente na obra “Vox”, de 2001.

Contudo, para além do índice e da referência ao arquivo, uma outra condição resiste na obra de Sarmento: um INDEX que a trespassa no sentido em que esta nos interroga continuamente sobre a incompletude do que é visível. Esta condição, que recorrentemente nos confronta com o paradoxo da figura sem rosto repetidamente representada (na pintura, no desenho, na escultura) com um vestido negro em tudo semelhante a um outro anterior, mas que a corporalidade feminina que o configura torna distinto e simultaneamente genérico. Este INDEX pode ser também o dedo indicador que penetra uma dobra de um corpo possível, cuja subtil representação, na obra “A Day in the Life (Dublin – Trieste 1909)”, de 1996, em que o desenho e a imagem fotográfica coexistem, é em si mesma uma indexação ao corpo, numa alusão a uma acção violenta sobre a qual nada sabemos. É neste intervalo entre a imagem como representação e a textualidade do título da obra que o trabalho de Julião Sarmento resgata uma transgressividade muda, submersa, por vezes mal apagada, mas que afasta a cedência ao disfarce. Regresso ao encontro com a intimidade individual e ao reencontro com o imaginário colectivo. O INDEX é a própria construção da obra e a sua hipotética lista sensória que emerge na dupla relação com a alteridade (o “outro” da obra que somos nós na sua presença) na nossa condição de “Doppelgänger” (5) transitando entre o medo e a paixão, o animal que recusamos e a animalidade por que ansiamos.

Entre as obras expostas, uma escultura, intitulada “Milk and Honey (under the table)”, de 2004, é exemplar da multifacetada convocação de referências que  Julião Sarmento activa. O título conduz-nos através do universo musical de John Lennon e Yoko Ono e em simultâneo provoca o reencontro com o Antigo Testamento, no texto bíblico do livro do Êxodo. Esta obra é instalada numa sala do Museu contígua à sala do Consistório, uma das áreas nobres do antigo edíficio do Hospital e Mesa (actualmente o Museu) que pertenceu à Santa Casa da Misericórdia de Elvas. A sala tem uma importante relevância artística pelo seu altar em mármore, e principalmente pelo conjunto de dez painéis de azulejo que representam, nos vãos das janelas, santos eremitas e, em redor da sala, oito painéis sobre os “Passos da Vida de Santa Isabel” (6). Dentro deste notável conjunto, destacaria o “Nascimento de Santa Isabel”, a “Aparição de Zacarias”, a “Visitação”, a “Circuncisão de João” ou a “Dormição da Virgem”. Este é também o espaço e o lugar que Sarmento escolheu para apresentar a única obra de 2013, uma performance concebida expressamente para esta exposição,  intitulada “Five Easy Pieces” e executada pela performer Alice Joana Gonçaves. O título desta obra remete para o filme de 1970 com o mesmo título, dirigido por Bob Rafelson e protagonizado por Jack Nicholson.

Esta referência ao cinema é simultaneamente um regresso ao sistema de relações que a obra de Sarmento acciona, enquanto arquivo, e à fragmentação da narrativa e da imagem, numa lógica que reclama a sua interrupção e recolocação à linguagem cinematográfica. Nas palavras de Delfim Sardo, extraídas do texto De relance: Repetição e montagem na obra de Julião Sarmento: “A paragem (stoppage) é o poder de interromper. Na articulação entre repetição e stoppage surge a imagem que se dá a si própria a ver e não desaparece no que a faz visível. Neste processo a imagem dá a ver a sua negação, a sua invisibilidade.” (7)

A performance decorre em cinco momentos, marcados por diferentes movimentos do corpo. A sua duração e as sequências da acção são moduladas em correspondência com o tempo cinemático, entre a radicalidade do slow motion e a transição para a tensão do corpo em movimento acelerado perante um obstáculo, numa acção sisífica que transmuta, por instantes, a massa corpórea da performer até à exaustão, momento em que interrompe a acção para recomeçar de novo até ao limite dessa mesma exaustão. A performance tem uma apresentação única; contudo, a sala onde esta ocorre permanece na exposição, contendo os vestígios e os objectos que localizam o último instante da presença do corpo.

Esta exposição é uma aproximação ao sistema de relações que Julião Sarmento nos propõe, como uma biblioteca inacabada a que falta completar o INDEX.

– João Silvério, 2013

MACE – Museu de Arte Contemporânea de Elvas
Rua da Cadeia
7350-146 Elvas
Portugal

Nas imagens, obras de Julião Sarmento. Cortesia do artista.

Texto: João Silvério (curador da exposição)

Imagens, cortesia: MACE – Museu de Arte Contemporânea de Elvas

Referências do texto:
(1) Friedrich Nietzsche, O Livro do Filósofo, Rés Editora, Lisboa, p. 59.
(2) Esta questão, em torno do arquivo do artista, é referida na conversa entre James Lingwood e Julião Sarmento, publicada no catálogo da sua exposição retrospectiva no Museu de Arte Contemporânea de Serralves: “Uma Conversa – James Lingwood & Julião Sarmento”, Julião Sarmento – Noites Brancas – Retrospectiva, Ostfildern e Porto, Hatje Cantz Verlag e Fundação de Seralves, 2102, pp. 347 e 348.
(3) Jacques Derrida, Mal d’Archive, Paris, Éditions Galilée, 1995, pp. 12 e 13.
(4) Cf. Sérgio Mah, “A indisciplina do retrato. Do circunstancial ao realcional”, 75 Fotografias, 35 mulheres, 42 anos, Lisboa, Babel, 2011, p. 5.
(5) A referência à figura do “Doppelgänger” remete, em primeiro lugar, para a metáfora da condição dúplice da personalidade, sendo também uma referência cinematográfica ao filme com o mesmo título, realizado em 1969 por Robert Parrish. É também a única obra em formato vídeo que integra esta exposição: “Doppelgänger”, 2001, instalação vídeo, dupla projecção DVD, cor, som.
(6) Cf. Jorge Rodrigues, “A Misericórdia de Elvas”, Colecção António Cachola-Museu de Arte Contemporânea de Elvas, Câmara Municipal de Elvas, Elvas, 2009, pp. 39 a 44.
(7) Cf. Delfim Sardo, “De relance: Repetição e montagem na obra de Julião Sarmento”, Sobre Julião Sarmento, Quetzal Editores, Coord. Bruno Marques, Lisboa, 2012, p. 200.
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