Miguel Navas | Bloco 103

‘Nunca fui ao Egipto, à Suíça também não.’

Bloco 103 arte contemporânea (Lisboa)

20.09 a 02.11 (2013)

Quando observamos a pintura do artista Miguel Navas, logo percebemos que a sua escola se baseia numa disciplina bem estruturada, clara e firme. Arquitecto de formação, transporta para os seus trabalhos de pintura o jogo dos materiais e a pureza das formas.

Nesta exposição, organizada em quatro salas brancas, geométricas, podemos observar os trabalhos que se fundem com o espaço da galeria, já que parece existir uma linha orientadora comum aos trabalhos e ao espaço. São no geral obras em pequenas e médias telas de linho, com uma paleta restricta, entre o azul e o verde, do cinza ao branco, e que raramente apresentam apontamentos de outras cores.

Trata-se de uma selecção de trabalhos realizados nos últimos dois anos em que é claro o pendor para a abstracção geométrica. Trabalhos que não precisam de “chocar” pela dimensão, pois a sua forma gráfica é suficiente. Um percurso que nos seduz pela capacidade de recriar espaços sem os desenhar, de mostrar paisagens sem as penetrar, deixando espaço ao público observador.           

A pergunta que se me coloca perante uma nova tela de Miguel Navas é sempre a mesma e surge-me numa frase: Ok, do you want something simple?.

Será esta fronteira que demarca a representação pictórica “meramente ilustrativa” de um conjunto de actos que pressupõem um outro olhar, exploratórios da realidade tal como a apreendemos? Estou convencido que sim. Neste sentido é também um percurso filosófico que não se circunscreve ao perímetro da tela. tal como não se confina ao horizonte dos nossos olhos. É um todo que carrega as interrogações que conduziram o autor ao acto de pintar.

Contém em si densidade, intenção, vontade de dar forma, cor e movimento, a um outro estádio da percepção humana. É uma pintura que nos desafia. Amplia a ressonância do visível. Provoca, porque se sobrepõe ao imediato. Assume-se ao mesmo tempo como matéria, trabalho plástico laborioso. Trata-se por isso, do meu ponto de vista, de uma pintura completa, de síntese. Cinge-se à relação do autor com a realidade e às interrogações por ela criadas. É por isso mesmo. forçosamente, um trabalho obsessivo e despojado.        

“Nunca fui ao Egipto, à Suíça também não”, título interpelativo desta exposição, não se resume a uma originalidade criativa, ficcional. Trata-se mais uma vez da síntese revertida em palavras. Nestes trabalhos Miguel Navas aborda a filosofia da paisagem, dos espaços, recriando em actos pictóricos imagens do seu pensamento. Encontramo-nos e confrontamo-nos com elementos arquitectónicos, com a gestão criteriosa da forma e cor, com os espaços e sempre, mas sempre, com uma práxis que, sendo pessoal e única, tem um cunho eterno.

Miguel Justino Alves    

(…) Miguel Navas tem trabalhado a auto-representação de forma continuada há mais de uma década. O seu trabalho nunca é fácil: não o é para o observador e muito menos para o artista. O modo obsessivo através do qual o pintor lida com a reprodução da sua imagem é uma fonte instabilidade, de desconforto até. A representação do tempo, ou da sua passagem é uma das características que mais habitualmente vemos associadas ao discurso sobre a auto-representação; mais ainda se esta for realizada de forma contínua, estendendo-se pelos anos de vida e trabalho de um artista: o tempo vai deixando marcas no corpo e se é esse corpo que se representa, essas marcas vêem à tona. Mas se o registo do tempo é transversal á generalidade dos auto-retratos, a obra de Miguel Navas, tem vindo a procurar outros modos de tronar visível esse registo. (…) – Celso Martins     

Textos: Miguel Justino Alves e Celso Martins

(C) imagens: Cortesia de Bloco 103 arte contemporânea

  

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