O Mar: Muitas Marés, Uma Só Vaga De Descontentamento

BES Arte & Finança (Lisboa)

> 19 de Setembro 2013

do programa FUSO – Anual de Vídeo Arte Internacional de Lisboa 2013

artistas: Ana Rito, André Romão, Gabriel Abrantes, João Pedro Vale, João Seguro, Jorge Santos, Mariana Caló e Francisco Queimadela, Pedro Neves Marques.

Curadoria de João Laia

E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar?

      José Mário Branco FMI (1978)

Texto do curador:

A utilização do mar como símbolo e cenário de conflitos de identidade colectiva, social e individual tem um longo e complexo percurso histórico, incorporando questões díspares relacionadas com ideias como território, memória, economia e afecto. Portugal é um exemplo dramático deste tipo de dinâmicas: a sua localização geográfica aliada aos recorrentes conflitos com o país vizinho levaram à construção de um entendimento particular do elemento marítimo e ao seu papel preponderante no desenvolvimento do imaginário simbólico nacional. No interior desta evolução, o período conhecido como os Descobrimentos é o ponto central da auto-representação alegórica do país. A sua herança cultural foi-se desenvolvendo ao longo dos séculos, moldada de acordo com os diferentes projectos ideológico-políticos vigentes, que partilham o alicerce das suas construções identitárias num relacionamento simbólico e, por vezes, ritual e místico com o mar. Obras como Os Lusíadas de Luís de Camões, Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, A Mensagem de Fernando Pessoa, a Ode Marítima de Álvaro de Campos, ou A Jangada de Pedra de José Saramago são referências literárias maiores numa ampla constelação de exemplos possíveis.

Apesar da complexidade deste processo de projeção identitária, a permanente utilização do mar ao longo dos tempos levou à sua sólida incorporação no inconsciente social do país. No decurso de séculos, a referência ao elemento no interior de diferentes interpretações e narrativas sobre Portugal tornou-se uma ferramenta eficaz, estimulando a activação de um esquema de referências partilhadas socialmente. É simples identificar a sua presença nas representações contemporâneas do país, uma recorrência que se deve tanto à sua utilização repetida como à presumida unanimidade que cada referência tenta comunicar. A sua aplicação tornou-se transversal na sociedade portuguesa, sendo observável em discursos institucionais ou de oposição, em práticas artísticas, documentos de pesquisa ou conversas informais. Como exemplos recentes pode-se indicar a afirmação de 2011 do Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho: “em 2013 Portugal terá dobrado o cabo das Tormentas”[1], a auto-caracterização como “marés” de diferentes agrupamentos de uma manifestação em Maio passado [2], ou a representação nacional na Bienal de Veneza de este ano, que apresenta o cacilheiro re-apropriado por Joana Vasconcelos. Outros casos relevantes podem ser identificados no tema escolhido para a Expo’98: Os Oceanos um património para o futuro, ou na localização escolhida para formalizar a entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia em 1986 e assinar o Tratado de Lisboa em 2009: o Mosteiro dos Jerónimos. Este conjunto de eventos apresenta uma forte carga ideológica, desenhando diferentes tentativas de (re)construção da identidade nacional que, paradoxalmente, se alicerçam, de forma constante, na mesma entidade simbólica. Entre as inúmeras outras possibilidades que ilustram esta dinâmica, podem ainda ser referidos o grupo pop dos anos oitenta Heróis do Mar ou o ditado popular “Há mar e mar, há ir e voltar.”

o Mar: muitas marés, uma só vaga de descontentamento apresenta uma selecção de trabalhos recentes, que reflectem a utilização do mar como agente simbólico e onde cada intervenção, neste contexto, problematiza, sublinha e/ou acrescenta outras dimensões à meta-narrativa que tem permeado a construção da identidade colectiva do país. Da mesma forma, pretende-se também relacionar o conjunto destas pesquisas com o contexto actual do país, onde o universo marítimo tem sido utilizado com regularidade no interior de diferentes discursos, funcionando como um porto de abrigo para uma identidade em crise. o Mar: muitas marés, uma só vaga de descontentamento não é uma colecção exaustiva das representações do elemento marítimo produzidas no meio artístico português. A exposição propõe, de outro modo, questionar discursos cristalizados, abrindo a possibilidade a outros tipos de (auto)representação e explorando os pontos de continuidade e ruptura entre a pluralidade de discursos artísticos apresentada e o presente do país. O eco entre a citação de José Mário Branco e a situação actual reflecte a estrutura cíclica da utilização do imaginário do mar e aponta a necessidade de problematizar esta narrativa através de um debate público, no qual esta exposição se pretende inserir. – João Laia

(1)“Em 2013 Portugal terá passado o Cabo das Tormentas” in Diário de Notícias 21/12/2011
(2) Ana Henriques “Muitas marés, uma só vaga de descontentamento” in Público 02/03/2013

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