Present Tense

Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa)

> 01.09.2013

Curador: António Pinto Ribeiro 

Uma exposição com fotógrafos do sul da África. Olhando o passado, as fotografias não derivam de uma “constelação de etnias ou de tribos”, para referir a tese de Elikia M’Bokolo, e este é um pressuposto essencial na curadoria desta exposição “Present Tense”. Estamos bastante longe das fotografias feitas aos negros que “eram oficialmente e frequentemente descritos na mesma linguagem visual da fauna e da flora”, citando Santu Mofokeng in “The Black Album Photo”. Interessa-nos mostrar e confrontar o trabalho de fotógrafos que residem ou viajam por um conjunto de cidades maioritariamente situadas na larga região do sul de África sem que nada possa indicar qualquer identidade visual ou cultural da região. Independentemente dos géneros – retrato, paisagem documento, fotojornalismo – são as fotografias sobre o “Present Tense” que queremos mostrar e, este conceito de “Present Tense”, engloba também a tensão entre as linguagens, a opção pela cor ou pelo preto e branco e o detalhe divergindo do panorâmico.

Com fotografias dos fotógrafos Délio Jasse, Dillon Marsh, Filipe Branquinho, Guy Tillim, Jo Ractliffe, Kiluanji Kia Henda, Mack Magagane, Malala Andrialavidrazana, Mauro Pinto, Paul Samuels, Pieter Hugo, Sabelo Mlangeni, Sammy Baloji e Tsvangirayi Mukwazhi.

– António Pinto Ribeiro

Pieter Hugo

‘Empire of the In-Between’ percorre fotograficamente a rota ferroviária e outrora industrial, que ligou Nova Iorque a Washington. Entre os dois polos políticos e financeiros dos Estados Unidos, e ao longo de um itinerário simultaneamente físico e histórico, onde a grande riqueza alterna com a pobreza, o desemprego e a criminalidade, Hugo expõe as impressionantes contradições que acompanharam as a transformação da economia norte-americana no último século.  

Fotografias do Sul da África

Pode-se afirmar que esta exposição está, em muitas das suas fotografias, bastante próxima da irrupção da catástrofe, quando surgem os confrontos violentos entre a polícia e as populações, entre os trabalhadores e os imigrantes, nas fronteiras, com escaramuças: “e, neste estado próximo da catástrofe, qual é o papel da fotografia?”, assim pergunta Ariella Azoulay. A resposta é que a fotografia é um (set) lugar particular das relações dos indivíduos com as pessoas que os governam constringindo-lhes o poder e, ao mesmo tempo, uma forma de relações entre indivíduos iguais. E qual o lugar privilegiado desta tensão? O espaço público. É no espaço público que se manifesta a usurpação do poder pelos regimes, é no espaço público que se ocupa, quando se quer reclamar e reivindicar os direitos de cidadania e de liberdade, é no espaço público que se fotografa e denuncia a violência e as catástrofes históricas. 

– António Pinto Ribeiro (Abril 2013)

Paul Samuels

‘Evendale XVI X’ configura um espaço físico e profundamente humano onde Samuels define, fotograficamente, um território de pertença, no qual se reencontra e reafirma quem é. Estilisticamente distantes do fotojornalismo, e integrando formalmente algumas técnicas da fotografia comercial, as imagens de Samuels regem-se por uma sólida verdade ética e definem um olhar fotográfico, que pretende expandir o léxico dos temas privilegiados da fotografia.      

Filipe Branquinho

Na série ‘Chapa 100’, Branquinho parte da ideia de deslocação, enquanto agente caracterizador da experiência urbana, e de como este meio de transporte se tornou essencial a ponto de qualquer alteração no seu funcionamento ser motivo para grandes tensões a nível social, económico e político. 

Clique nas imagens para ampliar:

Tsvangirayi Mukwazhi

Granite Mining in Angola. Neste trabalho, cujo propósito inicial seria fotografar a exploração de recursos naturais em Angola, Tsvangirayi Mukwazhi decide concentrar-se não na previsível extracção de diamantes ou petróleo mas sim nas explorações de granito preto. Para tal viaja até à cidade de Lubango, a 1000 km a sul de Luanda, onde documenta a vida de comunidades locais, cujo sustento radica inteiramente  na extracção natural da pedra. Mukwazhi regista a dificuldade deste trabalho em imagens que atestam como a cor e a dureza dos corpos se confundem com o próprio granito e como a paisagem se transforma, radicalmente, nesse portentoso corpo a corpo com a natureza.

Délio Jasse

Desencontros, um trabalho que testemunha a feroz transformação e o crescimento desumano de Luanda, nos últimos anos, através de imagens que revelam as assimetrias de uma cidade tão nova como desconhecida e, na qual, o artista já não reencontra o seu passado.

Malala Andrialavidrazana

‘Echoes (from Indian Ocean)’ que, numa fase inicial, se intitulava ‘No any aminay’ (a expressão malgaxe significa simultaneamente ‘intimidade’ e ‘lugar caseiro’ ou ‘lar’). Neste trabalho a artista propõe pensar a múltipla realidade identitária do Oceano Índico. A partir de delicadas e recatadas fotografias de interiores domésticos, revela a global mestiçagem cultural de uma classe média ausente das visões exteriores do espaço di Índico, geralmente situadas entre o exótico e a catástrofe.

Kiluanji Kia Henda

Em ‘Self-Portrait as a White Man’, Kia Henda revisita cânones da arte ocidental, para desafiar as suas hierarquias e interrogar o alcance dos fenómenos da emigração e da diáspora africana na Europa. Na sua obra multifacetada, é sempre pela ficção e pela encenação das fotografias que nos relembra que, a verdade histórica, é um conceito tão artificioso quanto instável. 

Fotografias da exposição: This is Now | Making Art Happen, 2013.

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