Estranhos jardins de papel \\ Queer paper gardens

de paula roush e maria lusitano

@ Cinzeiro 8 
Museu da Electricidade | Fundação EDP (Lisboa)

> 08.09.2013

Estranhos Jardins de Papel é um projecto que aborda a historia da colagem através da combinação dum trabalho de pesquisa histórica e visual, com investigação artística. Assim, através duma instalação constituida por um salão colagem, dois livros de artista, dois filmes-ensaio em dupla projecção, e um desenho de larga escala a carvão, o projecto apresenta varias narrativas literário-visuais, onde o arquivo histórico e a ficção se entrecruzam.

Neste projecto, são abordados várias obras de colagem realizadas em tres séculos que vão desde o trabalho de colagem botanica de Mary Delany entitulado de Flora Delanica (1772-1782) que é considerado um trabalho pioneiro da colagem em papel, à fotocolagem victoriana da segunda metade do século XIX, e finalmente, os romances-colagem modernistas: “Une Semaine de Bonté” (1934), realizado por Max Ernst, e “Dons des Féminines” (1951) da poetisa surrealista Valentine Penrose.

Assim, através da revisitação destas obras, apresentamos nesta exposição várias narrativas visuais e textuais que exploram o conceito da viagem: a viagem pela historia da colagem e pela deslocalização no tempo- que as caracteristicas inerentes ao medium da colagem tão adequadamente proporcionam – e a viagem pelo exótico como sendo um espaço de liberdade que proporciona experimentação com o género e a sexualidade, face ao ambiente doméstico burgues, visto como castrador e reclusivo. Pelo entrecruzamento e mistura das diversas fontes referidas, e através das várias historias narradas, abordam-se assim questões contemporâneas referentes à sexualidade, nomeadamente as sexualidades de expressão feminina, e as construções do género. – paula roush e maria lusitano

Minar o mundo circundante

– João Pinharanda

Estabelece-se nesta exposição um colóquio, real e imaginado, entre as artistas e as suas fontes. Vejamos os seus protagonistas reais, aos quais devemos, imediatamente, juntar-nos.
Na sequência de experiências anteriores, iniciadas em 1921 e sistematizadas como romances visuais a partir de 1929, Max Ernst, alemão estabelecido em Paris, ligado desde meados da década de 10 às vanguardas que conduziram do Dada ao Surrealismo, editou em 1934 (em 7 capítulos distribuídos por 5 volumes), Une Semaine de Bonté.

Valentine Boué Penrose, poeta francesa, casada desde 1925 com Roland Penrose, de quem se divorciou en 1937, conheceu e frequentou os mesmos meios de Max Ernst, de quem o marido, “introdutor” do surrealismo na Grã-Bretanha, era amigo intímo. Em 1936, interessada pelo hinduísmo, partiu para a Índia onde viveu até 1939 com Alice Rahon Paalen, casada com outro surrealista alemão, Wolfgang Paalen. Em 1951, de novo em Inglaterra, e de novo vivendo na casa de Roland Penrose e da sua nova companheira, a fotógrafa Lee Miller, Valentine compõe Dons des Féminines. Seguindo as mesmas minuciosas soluções técnicas das colagens de Ernst, dele se afasta pelo modo como coloca a vertigem da imaginação surrealista ao serviço de uma visão feminista radical.

Maria Lusitano, vive entre Portugal, a Suécia e a Grã-Bretanha e desenvolve a sua obra (onde predomina o vídeo) como narratividade sobre os modos de relacionamento de um Eu ficcional feminino com os diferentes níveis da História. paula roush, vive em Londres desde há duas décadas, situa o seu campo de trabalho no domínio da construção de livros de artista recuperando as técnicas da colagem surrealista e pré-surrealista, enriquecendo, com esse cruzamento de linguagens, o universo da intervenção feminista que a orienta. São elas que prolongam o diálogo de Penrose com Ernst, aprofundando-o no domínio das linguagens e dos temas, revendo-o criticamente, sinalizando o lugar político da questão feminista nos dias de hoje, nele nos incluindo como entidade global e não meramente individual.

A fluência narrativa e sedutora do vídeo (construído sob os mesmos moldes da colagem) ou o convite à formação dos espectadores, em sessões de trabalho criativo, são peças essenciais da continuidade e renovação do legado inicial. Conduzindo-nos “ao funcionamento puro do pensamento” (André Breton) e ao “estranhamento sistemático” do Eu, mas sem a ilusão de que esse campo onírico, essa “alquimia da imagem visual” (Max Ernst) seja algo que exista fora da história, da ideologia ou da (o)posição dos géneros, desejam dar um novo significado ao programa de Breton ao apresentar as primeiras colagens de Ernst, em 1921: “servir-se do mundo circundante para minar o mundo circundante”. – João Pinharanda

 

(C) imagens: Cortesia das artistas paula roush e maria Lusitano

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