Pavilhão de Portugal (Bienal de Veneza 2013)

Joana Vasconcelos e Miguel Amado. Cortesia de Joana Vasconcelos.

Joana Vasconcelos e Miguel Amado. Cortesia de Joana Vasconcelos.

Um pavilhão flutuante da autoria de Joana Vasconcelos irá representar Portugal, em Veneza (Itália), naquela que é a 55ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia. O projecto é comissariado por Miguel Amado.

Trafaria Praia é um cacilheiro que partiu de Lisboa, há três semanas, em direcção a Veneza, onde se apresenta como pavilhão português, entre o dia 1 de junho e 24 novembro de 2013. O cacilheiro pertence à Transtejo que o desactivou em 2011. Nos últimos seis meses, o navio sofreu transformações significativas no estaleiro Navaltagus, situado no Seixal. Em Veneza, o Trafaria Praia irá atracar junto à paragem de vaporetto dos Giardini e circular pela lagoa, de acordo com um horário pré-determinado, durante a referida Bienal. Assim, em vez de um convencional pavilhão com uma localização fixa, Joana Vasconcelos criou um pavilhão flutuante. 

Este projecto pretende analisar a relação histórica entre Portugal e Itália, que se desenvolveu através do comércio, da diplomacia e da arte. Lisboa e Veneza intersectam-se em diversos pontos; as duas cidades desempenharam papéis fundamentais na expansão da visão do mundo europeia durante a Idade Média e o Renascimento, redefinindo a imago mundi através do estabelecimento de redes entre o Ocidente e o Oriente. Trafaria Praia aborda a zona de contacto existente entre Lisboa e Veneza na contemporaneidade através de uma reflexão acerca de três aspectos fundamentais que as cidades partilham: a água, a navegação e o navio.

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Vasconcelos propõe uma correspondência alegórica entre o cacilheiro, o icónico ferryboat de Lisboa, e o pitoresco vaporetto de Veneza. Os cacilheiros cruzam, diariamente, o rio Tejo, levando passageiros da Margem Sul a Lisboa e vice-versa. Os seus utilizadores regulares são habitantes da Margem Sul que trabalham em Lisboa. Até à edificação da primeira ponte entre Lisboa e a Margem Sul, em 1966, estes navios eram o único meio de transporte público entre a cidade e aquela região. Daí que os cacilheiros se associem, desde sempre, ao operariado e à classe média e sejam um conhecido símbolo social, com conotações políticas, em Portugal.

Joana Vasconcelos apresenta, também, o Trafaria Praia como arte. Seguindo a lógica do readymade assistido, inaugurada por Marcel Duchamp, a artista mudou o objeto sem o desfuncionalizar. No exterior do navio, da proa à popa, a artista aplica um painel de azulejos de grande escala em azul e branco, pintado à mão, que reproduz uma vista contemporânea de Lisboa, da Torre do Bugio à Torre Vasco da Gama. A obra inspira-se num outro painel de azulejos de grande escala, o Grande Panorama de Lisboa, que mostra Lisboa antes do terramoto de 1755, e é uma expressão fundamental do estilo barroco da era dourada da produção azulejística em Portugal. Tal como em obras anteriores, a artista reveste um objecto com azulejos, assim convocando a dimensão arquitectural da azulejaria. O desenho do painel de azulejos é da autoria de Jorge Nesbitt.

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No convés do Trafaria Praia, Vasconcelos elabora um ambiente à base de têxteis e luz. Tal também ecoa obras anteriores, tais como Contaminação (2008-10) e a série “Valquírias” (em curso desde 2004). Estas obras consistem em formas orgânicas, geralmente coloridas e normalmente suspensas do teto, que interagem com as estruturas arquitetónicas circundantes. A nova obra é um complexo patchwork azul e branco que cobre o teto e as paredes, de onde emerge um emaranhado de peças crochetadas que incorporam LEDs. A instalação sugere uma atmosfera uterina, de tendência surreal, que remete para o fundo do mar – um cenário talvez evocativo do livro Vinte Mil Léguas Submarinas, de Jules Verne, ou alusivo à narrativa bíblica de Jonas e a Baleia. A obra envolve os visitantes, assim suscitando uma experiência tanto intelectual como sensorial.

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Joana Vasconcelos é uma comentadora do real. A artista interpreta o presente através de uma leitura crítica das mitologias e das iconografias da sociedade ocidental. Vasconcelos desconstrói os valores, hábitos e costumes para questionar a identidade pessoal e coletiva, releve esta do género, da classe ou da nacionalidade. A sua prática assenta na apropriação de objetos e imagens do imaginário comum e na sua meticulosa reconstituição, habitualmente alicerçada em técnicas com carácter artesanal – geralmente associadas ao labor feminino – e em materiais com matriz popular – têxteis e azulejos, entre outros. A artista atribui, assim, novos sentidos aos elementos que transforma. Este processo enuncia uma tensão entre a alta e a baixa cultura, as esferas pública e privada, o local e o global e a tradição e a contemporaneidade.

La Biennale di Venezia foi fundada em 1895 e é um dos mais importante eventos dedicados à arte a nível mundial. A cada dois anos, a cidade italiana de Veneza acolhe inúmeros artistas e agentes da cena artística internacional e recebe milhares de visitantes. A selecção de artistas processa-se de seguinte forma: a convite do comissário, nomeado pela organização do evento, que comissaria uma exposição patente no Arsenale e num pavilhão nos Giardini e através das presenças nacionais – estes projectos, de iniciativa do governo de cada país, ocupam pavilhões nos Giardini ou em espaços temporários espalhados por Veneza.

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Informações

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O Livro

Programação

Making Of

 

Joana Vasconcelos (1971) vive e trabalha em Lisboa. Expõe regularmente desde meados da década de 1990, tanto em Portugal como no estrangeiro. Em 2012, realizou uma exposição individual no Palácio de Versalhes, em França. Participou na Bienal de Veneza de 2005 no âmbito de “Always a Little Further”, uma das exposições comissariadas do evento, apresentada no Arsenale. Em Veneza, realizou também uma exposição individual no Palazzo Nani Bernardo Lucheschi, no âmbito dos eventos paralelos da edição de 2007, e participou na exposição coletiva “The World Belongs to You”, patente no Palazzo Grassi/François Pinault Foundation. Do seu percurso, destacam-se ainda exposições individuais em instituições como o Museu de Arte Contemporânea de Serralves (Porto, 2000); Centro Andaluz de Arte Contemporáneo (Sevilha, 2003); Passage du Désir/ BETC EURO RSCG (Paris, 2005); The New Art Gallery Walsall (Walsall, Reino Unido, 2007); Pinacoteca do Estado de São Paulo (São Paulo, 2008); Es Baluard (Palma de Maiorca, 2009); Museu Coleção Berardo (Lisboa, 2010); e Kunsthallen Brandts (Odense, Dinamarca, 2011). Exposições coletivas incluem instituições e eventos como o Garage Centre for Contemporary Culture, Moscovo; Museo de Arte Contemporáneo de Castilla y León, Leão; Frac Île-de-France/Le Plateau, Paris; Istanbul Modern, Istambul; Stenersen Museum, Oslo; Museo de Arte Contemporáneo de Vigo, Vigo; Museo Extremeño e Iberoamericano de Arte Contemporáneo, Badajoz; e Echigo-Tsumari Art Triennial, Tokamachi. O seu trabalho integra inúmeras coleções públicas e privadas, das quais se destacam as seguintes: Caixa Geral de Depósitos, Lisboa; Câmara Municipal de Lisboa; António Cachola, Lisboa/Elvas; Fundação EDP, Lisboa; Domaine Pommery, Reims; Fundación Helga de Alvear, Madrid/ Cáceres; Fondation Louis Vuitton pour la Création, Paris; François Pinault Foundation, Paris/Veneza; AMOREPACIFIC Museum of Art, Seul; Museo de Arte Contemporáneo de Castilla y León; Museu Coleção Berardo. A artista é representada por Casa Triângulo, São Paulo; Galería Horrach Moya, Palma de Maiorca; e Galerie Nathalie Obadia, Paris/Bruxelas.

Miguel Amado (1973) vive e trabalha em Barcelona e Lisboa. É comissário da Fundação PLMJ, em Lisboa, e foi comissário na Tate St Ives, em St Ives, Reino Unido, e no Centro de Artes Visuais, em Coimbra. Foi, igualmente, Curatorial Fellow na Rhizome no New Museum, no Independent Curators International e no Abrons Arts Center, em Nova Iorque, bem como Curator-in-residence no International Studio & Curatorial Program, também em Nova Iorque. Comissariou exposições em instituições como o Museu Coleção Berardo e a Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Comissariou, ainda, exposições em instituições como a apexart e a Dorsky Gallery Curatorial Programs, em Nova Iorque. Co-comissariou projetos na Frieze Projects na Frieze Art Fair, em Londres, e no No Soul for Sale – A Festival of Independents na X Initiative, em Nova Iorque, e na Tate Modern, em Londres. Foi editor da revista W-Art. É colaborador da Artforum e escreveu, ainda, para revistas como a Flash Art e a The Exhibitionist. Participa no PhD Curatorial/Knowledge do Goldsmiths, University of London, em Londres, e frequentou o MA Curating Contemporary Art do Royal College of Art, também em Londres. Outros estudos incluem a Night School, no New Museum, em Nova Iorque, e o ICI Curatorial Intensive, no Ullens Center for Contemporary Art, em Pequim.

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