João Jacinto: Neve derretida

João Jacinto, ‘Neve derretida’, trabalhos s/papel. Cortesia de Giefarte, 2013.

João Jacinto | Neve derretida

@ Giefarte (Lisboa)

27.05. – 31.07.2013
‘Às vezes aquilo que nós chamamos erro ou acidente ou parte mal desenhada, se é aceite e assimilada no fazer da página, transforma-se naquilo que de verdadeiramente surpreendente e interessante essa página de desenho tem.’ – João Jacinto
1…de um curso de pintura
Como folhas soltas de algumas lições de um curso de pintura. Percebemos a matéria física que forma estas imagens: a tinta, a cinza, a poeira, alguma gravilha miúda são em si mesmas matéria (assunto) dessas imagens. Forma e conteúdo, trabalhos sem intervalo conceptual nem espacial. O conjunto depende ainda de outros pares: volume e textura, figura e cor, história e momento.
Como uma viagem por paisagens suburbanas. Guardamos polaroids aleatórios que nos obrigamos a sobrepor aos postais de museu; isso orienta-nos como pontos de um grande mapa absorvendo o efémero no erudito. Cada momento se confunde com uma totalidade passada e futura; assim integra redes de relação sempre em reconstituição e dá a dignidade da história ao que pode apenas ser superficial.
Modalidades de pintura da Natureza: paisagem construída e não construída e natureza morta. As lareiras ardem alinhadas no espaço perspectivado, são escultura e arquitectura antes e depois de serem pintura; e tornam-se tema de pintura (e pintura) não porque haja uma longa iconografia de infernos mas porque uma razão incompreensível levou João Jacinto a pensar no rigor obsessivo, na delicadeza de realização, na minúcia de composição as pinturas de Agnes Martin ao ver a deselegância dessas lareiras kitsch à beira das estradas. 
As árvores, que são sempre as mesmas. Ou seja a árvore que é sempre a mesma, foi encontrada numa viagem e passou a ser usada à exaustão como Ideia de/para pintura(s). Um pinheiro, como Cézanne pintou o pinheiro dos pinheiros. A árvore inclina-se pesada, não tanto da matéria que a faz pintura, um rasto espesso, um tropeço de tintas rugosas, mas pesada de si mesma, de ser árvore e de ser história da pintura. Também as flores é sempre a mesma flor. E as pinturas das pedras são pinturas de casas e as das casas são esculturas. Ou, tudo ao revés: até podermos chegar de novo à pintura.
O artista exclui desta selecção os auto-retratos. Se os pudéssemos ver perceberíamos melhor como o projecto de João Jacinto não tem exterior. Ainda assim, isso já se percebe nos padrões abstractos que ele escassamente aqui nos mostra mas que ocupam a parte mais continuada do seu trabalho. Podendo apenas recordar aqueles seus auto-retratos temos a memória de alguém que trabalha a sua imagem do mesmo modo que todas as imagens que toca (vê/representa): em abismo. É Navio de espelhos e é Malström. É vórtice mas também vulcão: tudo absorve em velocidade até ao seu âmago e tritura e expele em lava pesada. É receptor e emissor: tudo reflecte multiplicando e tudo despede pelo ar em estilhaços. – João Pinharanda (Lisboa, 10.05.2013)
João Jacinto (Mafra, 1966) vive e trabalha no Monte Estoril.

Em 1985 iniciou os seus estudos artísticos na E.S.B.A.L. Leccionou entre 1989 e 1992 no Ar.co em Lisboa. É, desde 2001, professor na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Expõe, individualmente, desde 1987. Tendo participado em inúmeras exposições individuais e colectivas. A sua obra encontra-se representada em várias colecções: CAM – Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal, Caixa Geral de Depósitos, Lisboa, Portugal, Colecção António Cachola –MACE – Elvas, Portugal, Fundação PLMJ, Lisboa, Portugal, Museu do Chiado (Deposito Isabel Vaz Lopes), Lisboa, Portugal, Museo Extremeño Iberoamericano de Arte Contemporaneo, Badajoz, Espanha, Veranneman Foundation, Kruishoutem, Bélgica, Art Collectors, Genève, Suíça, Fine Arts Gallery, Brussels, Bélgica, Renate Schröder Gallery, Cologne, Mönchengadbach, Alemanha, Gallery Catherine Clerc, Lausanne, Suíça, Collection Kierbaum & Partner, Colónia, Alemanha, Fundação Carmona e Costa, Lisboa, Portugal, entre outras.

 

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