Teresa Gonçalves Lobo: criação pura

Encontra-se patente, até 24 de Junho, no Museu de Artes Decorativas Portuguesas – FRESS, em Lisboa, a exposição ‘i em pessoa’ da artista plástica Teresa Gonçalves Lobo

A exposição é composta por: 42 desenhos originais; 1 álbum original de 10 gravuras; 2 peças de mobiliário – 1 cadeira (i chair) e 1 chaise-longue (i chair long), resultado de um processo criativo e técnico em colaboração com as oficinas da FRESS.

“Esta exposição revela múltiplas faces no trabalho de Teresa Gonçalves Lobo. A artista, isolando um elemento das suas anteriores experiências de escrita/desenho-poesia visual, desenvolve-o formalmente a partir da sua matriz original; oferece-nos o lado de pura inscrição do signo; depois, materializa no espaço tridimensional os gestos desse fazer sobre o papel (não como cristalização mas como síntese perfeita de todo o processo/projecto de trabalho); e, finalmente, cria as bases de uma estrutura narrativa que introduz a possibilidade de um universo ficcional ou de uma pura abstracção cinética.

Em primeiro lugar reconhecemos esse elemento desencadeador, essa célula original. Trata-se de uma letra, o i minúsculo, terceira vogal e nona letra do alfabeto latino. Não há, da parte da artista, misticismo nesta coincidência numerológica de 3 x 3. O que há é a consciência da autonomia formal/sígnica nascida de um gesto repetido. Como se, na repetição desse gesto, Teresa Gonçalves Lobo tivesse encontrado a maior economia (elegância) possível para quem, como ela, escreve/desenha compulsivamente. Trata-se de registar através de um media (tintas, carvão) e de um instrumento (barra, lápis, caneta, pincel) uma livre coreografia de gestos: uma dança da mão, do braço, do corpo sobre o/no espaço do papel. Através dessa dupla (inseparável) actividade de desenhar/escrever, Teresa Gonçalves Lobo deseja registar gestos/sensações, mantendo-se perto do imediato (da natureza) para alcançar sentimentos, ou seja, para recuperar, construindo, memórias (o subjectivo).
Temos, portanto, nestes pequenos ou grandes papéis de complexas e delicadas texturas, registos da letra i sob múltiplas formas, obtidas através de múltiplas matérias e técnicas. É uma profusão de imagens que, para constantemente se renovarem, a obrigam a um trabalho infinito, tendente a esgotar as possibilidades de representação. (…)

– João Pinharanda (12 de Fevereiro de 2013)

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Teresa Gonçalves Lobo nasceu, em 1968, na Ilha da Madeira, Portugal. Actualmente, vive e trabalha em Lisboa. É formada em pintura, desenho e gravura pelo Ar.Co e em fotografia pelo Cenjor, ambas em Lisboa. Expõe, individualmente, desde 2004, destacam-se as seguintes exposições: 2012 dei por mim a brincar…, desenho e instalação, Museu da Água, Coimbra, Portugal; 2011 Teresa Gonçalves Lobo – Seguindo o traço, Fundação D. Luís I, Centro Cultural de Cascais, Portugal; 2010 Teresa Gonçalves Lobo – Zeichnungen, KULTURREFLEX.at – “Die Verlangsamung”, Linz 2010, Landesgalerie Linz, Vino Vitis-Die Genuss Galerie, Linz, Austria.; 2009 Teresa Gonçalves Lobo – Zeichnungen, desenho, Franzoesische Kulturinstitut Wien, Austria; 2008 Rios d’Alma, desenho, Museu da Água, Coimbra, Portugal; Percursos, desenho e gravura, Casa das Mudas Art Center, Calheta, Madeira. Participou em inúmeras mostras colectivas e a sua obra encontra-se representada em várias coleções privadas.

“A Arte como a Poesia é um prolongamento do Sonho; um sonho que se tem acordado naquele estranho estado de passividade activa propício à manifestação do Espírito” – Raul Perez 

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A disciplina secreta do desenho

Há, no trabalho de Teresa Lobo, pelo menos dois planos de concretização que é necessário distinguir como prévios ao seu próprio processo criativo e, portanto, à génese do desenho no processo da sua obra.

Um primeiro, que se compreende desde logo como estruturante de toda a sua poética, e que consiste no uso sistemático de um certo aspecto do desenho, que é o  traço, que aliás dá, e não por acaso, o titulo a esta exposição. E um segundo plano,  mais complexo, mais subtil, ou por assim dizer com um caráter mais interior e profundo, que advém da capacidade que a artista tem de ir desenvolvendo, a partir daquela primeira estrutura que o traço por si mesmo define, uma espécie de improviso (à maneira do que ocorre com o jazz), em que o desenho renasce como invenção. Quero com isto referir-me a uma situação plástica em que o desenho serve não tanto para reproduzir formas existentes, de que seria representação e notação mas, e pelo contrário, em que o desenhar se torna acto que se desprende de qualquer vinculo ao real para se elaborar como puro campo de experimentação. (…)

– Bernardo Pinto de Almeida (Abril, 2011)

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O(s) Mundo(s) de Teresa Lobo

É bem conhecida a frase”de”Picasso: “Não procuro, encontro”.
Entre nós, António Lobo”Antunes numa entrevista sobre o seu último livro “Não é  Meia Noite Quem Quer” no qual, pela primeira vez o protagonista é do sexo feminino, diz: ”Esta voz de mulher eu não conhecia, apareceu”. 

Com Teresa Lobo acontece fenómeno semelhante, pois que quando começa um quadro nunca sabe como ele vai acabar. Poder de imaginação inconsciente, de trabalho espontâneo, quais gestos soltos que espalham sementes na terra fecunda. 

Não admira portanto, ter dado a esta mostra o título “Dei por mim a brincar”. Desde sempre o preto e o vermelho são as cores usadas. Em fases anteriores por vezes uma delas constitui o fundo para a outra espraiar linha, traços inusitados de grande liberdade. Recordo também exemplos em que sobre fundo branco linhas pretas saem do quadro em várias direcções como que buscando lonjuras, quiçá o infinito. (…) – Telo de Morais

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(C) imagens e textos: Cortesia de Teresa Gonçalves Lobo.

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